quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Papo cabeça

Reconquistei minha cabeça, que está como deveria ter estado sempre: sem mão sobre ela. A sensação de liberdade, leveza e alegria que isso me proporciona é imensa. Enfim corrigi uma distorção surgida entre os 18 e 21 anos, quando fiz minha primeira obrigação-de-santo sem ter a menor idéia do que se tratava.
Depois de tantos anos e de três mãos encontrei uma forma de me relacionar saudavelmente com forças divinas nas quais acredito intensamente, que me proporcionam uma enorme vitalidade e alegria, que associo à magia e ao milagre da vida em um corpo físico. Não vou mais seguir a tradição, não vou mais realizar práticas que não combinam comigo. Mas tenho certeza de que aqueles a quem respeito e amo e em quem confio, aqueles que me acolhem, amparam e protegem estão felizes e satisfeitos, plenamente de acordo com o Caminho do Meio que pretendo seguir. Até porque é evidente que eles não fazem questão de ser honrados da forma tradicional. Porque, se fizessem e quisessem, eu teria abaixado a cabeça para isso sem nenhum problema. E minha prática teria sido constante ao longo dos anos, e não totalmente errática e esporádica, como sempre foi.
Vou me dedicar de modo consistente à prática budista, que é o meu caminho, que é como eu vejo a realidade (ou tento ver). Mas meus orixás e todo o povo da rua continuam onde sempre estiveram: em meu coração. E vou continuar a honrá-los. Do mesmo modo, só tenho coisas boas para lembrar e falar das três mãos que passaram por minha cabeça, de pessoas com grande fundamento religioso, que me acolheram em suas casas. Continuo me vendo como filha de cada uma delas, tenho um carinho, respeito e admiração imensos. Tenho certeza de que minha cabeça jamais foi tocada por uma mão errada ou pesada, a única coisa é que eu realmente não posso seguir a tradição.
Jamais me envergonhei de freqüentar ilês. Deve ser porque nunca fui pedir o que não era meu, nem fazer mal para ninguém. Aliás, o principal motivo para eu não ter seguido a prática formal, além da matança, foi ver o quanto essa energia é usada de modo errado, por motivos errados. Especialmente por gente que só vai no terreiro "comprar" serviços.
Agora, desvinculada dos sacrifícios e livre de compromissos mundanos, poderei cultivar minha devoção por essas deidades pacíficas e iradas com mais empenho e sossego. E poderei experienciar a tremenda vibração que brota quando me conecto a essas energias da natureza, quando realizo que elas estão em mim e que eu sou elas, e que tudo é um.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

À procura

Não sei o que é mais chato:
- gente que se acha quando não é procurada,
ou
- gente que procura onde não vai achar nada que seja da sua conta.
Affffff.
Claro que me ocorrem uns chavões bem apropriados:
- vai procurar a tua turma;
- tem gente que procura pêlo em ovo;
- tem gente que vê mosquito na lua;
- eu não me acho, você que me procura;
- quem procura acha;
- tá procurando sarna pra se coçar.
E como tento ser compassiva, vou evitar esses outros:
- vai pentear macacos;
- vai catar coquinhos;
- vai tratar da vida;
- late que eu tou passando.
O refrão funk me remete sempre ao glorioso Ibrahim Sued: "Os cães ladram e a caravana passa."

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Guaraná??? Só se fosse com gim

Se não me enganei redondamente quando ouvi a propaganda há uns mil anos, "Since I've Been Loving You" foi usada num comercial de guaraná. Hahaha, francamente...
Bem, bem, eu agora estou tomando chimarrão e ouvindo várias versões dessa música. E estava traduzindo quando lembrei da tal propaganda, e fiquei pensando que "Since I've Been Loving You" combina com destilados e com um porre daqueles. Ainda mais se a pessoa entrar numas com a letra, um clássico da corno-music, affffff.
Gim e vodca me parecem os mais a calhar, um bourbon também, já que é um blues pesadíssimo. Mas, como a banda é inglesa, quem sabe um scotch. Na dúvida, muito de tudo. Com cigarros, é lógico.
Eu se fosse entrar na garrafa optaria por absinto, pra uma bebedeira genial e portentosa. Até porque o verde do absinto ia combinar com o tom de azul que domina a filmagem de "Since I've Been Loving You" no filme "The Song Remains the Same". E quanto à fumaça trocaria os cigarros por uns incensos de masala ultra-adocicada.
Não me lembro de ter tomado porre ouvindo Led Zeppelin. O que fiz foi ouvir Led I à exaustão durante uma viagem com chá de cogumelo nas priscas eras. I got really dazed and confused, and about to lose my worried mind indeed. Fiquei deitada viajando na música e nos padrões de cores que se formavam diante de meus olhos fechados. E depois fui pro centro de ônibus com a minha irmã!!! E lembro nitidamente de como vi a rodoviária de Porto Alegre ao passar por lá, da sensação.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Meu Gandharva

Na minha terra pura, os gandharvas cantariam como Robert Plant, que hoje completou 60 anos.
Meu gandharva pessoal não tem nada de pássaro ou cavalo, ele é um Leão.
Meu gandharva fez 60 anos, e seu rugido me encanta há 30.
Se sou fã de alguém nessa vida, é dele.

domingo, 17 de agosto de 2008

Dias e dias

Fiquei sem treinar, completamente parada, de 25 de julho a 10 de agosto. Aproveitei as férias da filha e da empregada. Precisava terminar um trabalho, precisava aumentar o horário do expediente. E as atividades com minha mãe estão exigindo mais de mim. E eu andava sentindo várias dores, e algumas delas estavam ficando fortes. Então parei. Para garantir a pausa tão necessária por tantos motivos, arranjei mais um outro que realmente impediu os treinos nesse período.
Voltei a treinar na segunda-feira passada, 11 de julho. Saí pra um trote no Parcão. O Polar chegou a marcar FC de 192, achei que estivesse doido, porque minha cinta está meio detonada, e eu não estava bufando. Enfim, fiz 35min em vez 45min, porque não quis forçar. Na terça choveu, fiz só musculação. Quarta rodei 10km com o Garmin, e a FC média foi de 180!!! Affff. Não chego a isso na pista, nem em provas. Na quinta, mais 10km, FC média de 174. Na sexta outros 10km, com FC média de 172. Ontem fiz 15km, e a média foi de 170. Era pra fazer 18km, mas não deu. Fiquei cansada, pesada e lenta.
Como estou em recuperação, estou atenta e cuidadosa. E respeitando o ritmo que meu corpo está apresentando. Eu e meu treinador concluímos que o baque no rendimento tem a ver não tanto com o tempo da pausa, mas com o desgaste provocado pelo procedimento a que me submeti.
Além disso, estou me adaptando a uma nova rotina que inclui os cuidados com minha mãe. Estou me tornando o HD externo dela, sua placa de memória.
Minha vida parece ter mudado muito nessas três semanas. Minhas prioridades estão mudando. Meus dias, minha rotina... O processo iniciou-se em 22 de abril, na primeira consulta de minha mãe com o neurologista. Mas eu notei mesmo as alterações durante as semanas sem treinar e nessa primeira semana de retomada. E tenho pensado muito na frase "Some days are better than others".
A velocidade do avanço da doença de minha mãe me pegou de surpresa. Achei que seria mais lento. Eu estava preparada para o que pode acontecer, mas não estava preparada para o ritmo.
Tempo. Ritmo. Velocidade. As grandes questões do momento. Em tudo.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Pavios

Desde a semana passada estou me distraindo com a confecção de velas de parafina. Começou com a compra de uma lamparina. Para abastecê-la, disseram que eu deveria usar parafina líquida. Fui numa loja de artesanato e comprei parafina gel achando que servia. Derreti a tal parafina e verti para a lamparina. Eta trapalhada! A parafina secou e voltou a ser gel, passei o maior trabalho pra derretê-la dentro da lamparina, que era a única forma de removê-la de lá.
A lamparina acabou rachando, affff - mas estou usando-a mesmo assim, depois que descobri o eco solvente, ou isoparafina, um tipo de querosene chique pra lampião, que achei numa ferragem. Por via das dúvidas, comprei outra lamparina igualzinha, azul transparente, de vidro. Existe um fluido pra parafina, mas custa os olhos da cara, vou manter o tal solvente, que não fede ao queimar. Só faltava transformar minha casa num galpão crioulo...
Enfim, como tinha 1kg de parafina gel, resolvi fazer velas. Comecei colocando dentro de vidros que eu já possuía. Um deles era um pote de sobremesa, que rachou todo quando a vela chegou ao fim. Mas depois fui atrás de mais vidros (hoje achei uns maravilhosos, que alegria!), mandei uma garrafa de cerveja e uns potes de geléia pra serrar numa vidraçaria (uns já com velas dentro...) e resolvi usar também a parafina comum (que é muuuuito mais barata) e corantes e essências aromáticas.
Agora darei velas de presente pra todos os próximos aniversariantes, porque preciso dar vazão à produção.
Tenho paixão por fogo. Desde criança me encantava vendo as chamas e brasas na lareira ou churrasqueira. Velas me fascinam, gosto de dormir à luz de velas, de tomar banho à luz de velas, especialmente quando encho a banheira. E as velas combinam com outra de minhas paixões: os vidros. Gosto de velas embutidas em vidros, mais do que expostas em castiçais.
Em minha casa, cultivo a presença dos quatro elementos intensamente: o fogo das velas, a água de minhas duas fontes (que viraram bebedores dos três gatáquilos mal-educados), o ar dos incensos (que também têm fogo) e dos aromatizadores (rechauds com vela e água) e da música também (creio eu), a terra das pedras que coleciono (e que são as bases de minhas fontes). São elementos indispensáveis na minha noção de lar.
E para mim parece muito natural fazer velas nesse momento de minha vida. A mulher de pavio curto descobriu em si, subitamente, uma paciência inesgotável. Bem, bem, talvez eu tenha economizado meu estoque de paciência todos esses anos pra poder esbanjar agora. :) Brincadeirinha boba... Mas me alegro quando consigo ter esses rasgos de bobagens.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

What is and what should never be

Difícil amar uma pessoa e não poder conviver com ela.
Minha motivação é cultivar o amor fraterno e incondicional – a camaradagem, o vínculo, a intimidade de irmãos espirituais, uma sintonia que se manifestou desde o início e que foi a base de um breve envolvimento amoroso. O amor fraterno é a essência e me permite a expressão do amor incondicional, a aceitação do outro como ele é, sem expectativas.
Mas o amor fraterno emaranhou-se com paixão e desejo, e por isso o afastamento que gera ventos de tristeza e solidão. Como pode uma coisa menor e de curta duração causar tanta turbulência? Simples indisciplina mental. Sassarico samsárico.
Olhando com clareza é tudo tão simples... O complicado é manter a clareza. Afffff.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Abra seus olhos


Taí uma tradução rápida, Lucas. :)
Foi bom começar o dia fazendo isso como aquecimento para o trabalho, ainda mais que acordei pensando nessa música, que agora estou ouvindo no You Tube, porque não sei onde ela está nos meus podcasts.
Lembrei do Livro Egípcio dos Mortos, conhecido por esse nome quando na verdade chama-se Livro para Sair à Luz. Abrir os olhos e ver a luminosidade de onde brotam e onde cessam todos os fenômenos. No fim tudo sempre me leva à vacuidade. Do olho de Hórus aos olhos do Buda.

Tudo isso parece estranho e falso
E eu não vou perder um minuto sem você
Meus ossos doem, minha pele parece gelada
E estou ficando muito velha e muito cansada

A raiva sobe pela minhas entranhas
E não vou sentir essas estocadas e cortes
Quero tanto abrir os seus olhos
Porque preciso que você olhe dentro dos meus

Me diga que você vai abrir seus olhos
Me diga que você vai abrir seus olhos

Levante, saia, afaste-se desses mentirosos
Porque eles não sacam sua alma nem seu fogo
Pegue minha mão, enlace seus dedos entre os meus
E vamos sair dessa sala escura pela última vez

A cada minuto a partir desse minuto
Podemos fazer o quisermos em qualquer lugar
Quero tanto abrir os seus olhos
Porque preciso que você olhe dentro dos meus

Me diga que você vai abrir seus olhos
Me diga que você vai abrir seus olhos

Tudo isso parece estranho e falso
E eu não vou perder um minuto sem você

terça-feira, 22 de julho de 2008

Eyes wide open

Continuo na minha trip Led Zeppelin, mas há pouco fui curtir um podcast de Gareth Emery. E eis que rolou o remix de "Open Your Eyes", do Snow Patrol. Adoro essa música por causa da guitarra. A sonoridade da guitarra nessa música me lembra a guitarra de The Edge, guitarras plangentes, fluidas, que me projetam no espaço solta a voar.
Quando ouvi "Open Your Eyes" pela primeira vez, acabei abrindo também os ouvidos para a letra, que achei linda. Aí agora fui catá-la no google para colocar aqui, porque... porque... porque coisas nela têm a ver com coisas em mim. Não estou na freqüência de abrir os olhos de ninguém, mas fico observando o olhar dos outros em mim, o que vêem. E o meu olhar.
Desde maio meu olhar está focado em minha vida familiar basicamente, e isso está ótimo. Em junho andei olhando para o passado e tentando mostrar o que eu vejo para outros. Apenas vi o que já tinha visto antes, para o bem e para o mal.
Ao longo desses meses consegui ajustar a visão no trabalho, no treino, na vida espiritual e, bem recentemente, em mim mesma de novo. Como ajeitei a família, o trabalho, o treino e a vida espiritual, agora vou dar uma ajeitada em mim mesma, em vários âmbitos. Tipo uma preparação para a primavera e o verão, o período de expansão.


All this feels strange and untrue
And I won't waste a minute without you
My bones ache, my skin feels cold
And I'm getting so tired and so old

The anger swells in my guts
And I won't feel these slices and cuts
I want so much to open your eyes
'Cause I need you to look into mine

Tell me that you'll open your eyes
Tell me that you'll open your eyes

Get up, get out, get away from these liars
'Cause they don't get your soul or your fire
Take my hand, knot your fingers through mine
And we'll walk from this dark room for the last time

Every minute from this minute now
We can do what we like anywhere
I want so much to open your eyes
'Cause I need you to look into mine

Tell me that you'll open your eyes
Tell me that you'll open your eyes

All this feels strange and untrue
And I won't waste a minute without you

domingo, 6 de julho de 2008

The Song Remains The Same

Minha vida mudou na tarde de sábado em que fui ao cine Astor assistir The Song Remains the Same. Foi em 1977 ou 78, eu tinha 13 ou 14 anos, tinha começado a ir ao cinema assiduamente, e fui ver esse filme sem ter a menor idéia do que era Led Zeppelin. Foi a legítima primeira vez inesquecível - uma experiência penetrante, abrangente e complexa. O antes e o depois.
Acordei do marasmo. Descobri uma outra realidade totalmente diferente de tudo que eu conhecia - e tive certeza de que queria ir por aqueles lados. O impacto do Led Zeppelin me abriu para o alternativo. Na música, na alimentação, na religião, no comportamento. Uma coisa levou a outra. E continua levando. The song remains the same, but me myself and I...
Além do som, o que arregaçou meus horizontes foi a presença de Robert Plant. O Leão e seu rugido. Nunca tinha visto um homem como ele cantar como ele. Robert Plant que fará 60 anos no dia 20 de agosto, que vi ao vivo com Jimmy Page, o único guitarrista que eu amo ouvir além de Jimi Hendrix. No primeiro show, tive um dos melhores momentos de minha vida com Ramble On. No  segundo, Kashmir com o acompanhamento de um combo egípcio e orquestra de câmara.
Adoro o som do Led Zeppelin até hoje. É minha paixão mais antiga, meu amor mais constante. Não há coisa de que eu goste tanto há tanto tempo.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Lucidez

"Não sei se estou ficando doida de vez ou se estou agindo certo, mas resolvi não me preocupar. Vou viver da melhor forma possível pelo tempo que for possível." Minha mãe me disse isso num entardecer de sábado, quando voltávamos de Belém Novo. Fomos lá pra ela ver o que poderia restar da casa de sua avó, onde ela ia na infância. Não restava nada, ela mal conseguiu identificar o terreno, hoje ocupado por casinhas tristonhas.
Ela foi e voltou dirigindo. Foi a primeira vez que pegou o carro em mais de um mês, o médico havia proibido. Mas agora ela está liberada para dirigir, basicamente trajetos curtos e conhecidos. E de preferência com algum acompanhante. Também pode continuar morando sozinha e tratando de sua vida.
Minha mãe tem 71 anos, e provavelmente está desenvolvendo o Mal de Alzheimer, doença degenerativa do sistema neurológico, sem cura. Ela está ciente do diagnóstico, está em tratamento com a medicação paliativa. Sua memória recente está severamente afetada. É uma situação muito difícil. Tudo que exige memória está sujeito a falhas. Inclusive o uso dos medicamentos que podem conter os sintomas da doença.
A memória recente de minha mãe está se desvanecendo, mas ela está utilizando mecanismos para driblar o esquecimento. Anota tudo, deixa coisas em cima da mesa como lembrete, procura manter tudo em lugares certos.
Mais importante que esses truques é a sabedoria que minha mãe está manifestando. É a prática do ensinamento budista: "Se tem solução, não há por que se preocupar. Se não tem solução, não há por que se preocupar." A doença de minha mãe é chamada de demência senil. Mas ela nunca esteve tão lúcida.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Variação sobre o mesmo tema :)

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Acontece que eu geralmente uso essa carinha sorridente em meus e-mails, torpedos e msn.
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domingo, 8 de junho de 2008

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Nada como um domingo de chuva pra idéias bobocas. Mas adorei minha criação. É a minha cara.
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sábado, 7 de junho de 2008

Sempre sorridente

"Sempre sorridente" foi o que um amigo do orkut comentou ao ver essa foto aí de cima. Siiiiiiimmmmmmmm, sorrir é tudo de bom. Eu não fico sorrindo o tempo todo enquanto corro, e tem horas em que devo ficar com cara de megera - quando passo por calçadas lotadas de pedestres, ruas cheias de carros e de barulho.
Essas duas fotos foram feitas pelo Eduardo Souza. Foi depois do km 36, e antes da virada no km 38. Vi o Eduardo parado no meio da pista, vi que ele ia me fotografar, e sorri. Sorri pra ele. Sorri pra foto. Sorri porque àquela altura eu já estava rindo à toa, eu sabia que ia completar a maratona. E, embora bem cansada, eu estava feliz, bem-humorada, alegre, livre e solta de novo. Correndo apenas porque correr é bom, mesmo quando é ruim...
Minhas fotos na chegada também são todas sorridentes. Eu e Marcelo, meu companheiro nos 3km finais, começamos a rir quando entramos na última curva e não paramos até pisar no tapete. Essas fotos aí de baixo eu comprei num site, vão chegar nessa semana. Sorria!!!

terça-feira, 27 de maio de 2008

Fragmentos

Quem tem amigos tem tudo.
Corri a maratona basicamente por insistência de minha amiga Lena Stropper. Ela não pôde correr porque está com uma dolorosa fascite plantar, teve que desistir duas semanas antes da prova, depois de ter ralado o treino todo. Em meio à sua imensa frustração, dor e tristeza, minha amiga achou tempo e disposição para longas conversas, me animando e consolando na minha fase de uruca geral. E ainda fez o meio de campo para eu me reconciliar com outro amigo.
Esse nosso amigo diz que eu sou mal-educada, geniosa e trato ele mal, e aí me pune com afastamento e silêncio. Eu digo que ele é marrento comigo e muito mais genioso que eu, e teimoso, mal-humorado, temperamental e ranzinza. Mas temos uma conexão linda. No sábado nos encontramos e conversamos, e fizemos as pazes. E me senti incrivelmente confortada quando ele me abraçou e disse que estaria por perto caso eu precisasse, que me ajudaria no que fosse possível. Foi maravilhoso ter ficado de bem com ele na véspera da corrida.
Ainda no sábado encontrei meu amigão Barbosa, que não pôde correr por ter lesionado o joelho. Como Lena, ele também se machucou depois de ter feito todo o treino. Como Lena, ele me disse para tentar, ir lá e correr numa boa, só na alegria, sem me preocupar com tempo.
Barbosa e Lena estavam lá na largada da prova para a qual treinaram duríssimo e da qual não puderam participar. E muito da minha força para agüentar o tranco e não desistir veio do meu desejo de correr por eles, para eles. Barbosa foi de bike e me encontrou no árduo trecho da Ipiranga, na ida. E na Ipiranga, na volta, quando pensei em parar no km 22, lembrei dele e Lena, e de que eles ficariam decepcionados e preocupados caso eu parasse.
Também na volta da Ipiranga dei de cara com um vento contra e um chuvisco. E não senti a repulsa que costumo sentir ao correr no vento. Pedi a Iansã, senhora do vento, que soprasse embora a uruca e o cansaço e que me desse sua energia de guerreira. Pedi a Oxum, senhora minha mãe, que me mantivesse leve, graciosa e alegre como sua filha que sou. E lembrei do que me disse pai Adilson de Ossanha: que eu deveria correr porque isso me dava prazer e me faria bem. E que eu conseguiria.
Meu boné voou, pensei em voltar pra pegar, mas seria ruim. Senti que aconteceria o que de fato aconteceu: pouco depois, um corredor chegou ao meu lado e estendeu o boné pra mim, sem uma palavra, ele estava em ritmo forte e concentrado, mas mesmo assim deu-se ao trabalho da gentileza. Não vi seu número, não sei quem era, mas serei eternamente grata.
Também sou grata a todos amigos e estranhos que me incentivaram durante a corrida. Muita gente bacana. E o que dizer de todos aqueles que me animaram antes...
Após a corrida, meio zonza e louca de frio, fui auxiliada pela querida Edna a encontrar Lena. E Soares foi comigo até o carro deles e esperou pacientemente que eu trocasse de roupa. E sorriu feliz quando depois eu disse pra ele e Lena o quanto estava me sentindo bem por ter corrido, o quanto aquilo tinha mudado o meu astral, tão em baixa nos últimos tempos. Que eu finalmente gostava de correr de novo!
Do pódio vi Filó, a pessoa que me trouxe pro mundo das corridas de rua, abanando e sorrindo pra mim. Ela não me viu correr, mas sabia que eu tinha completado, e sei o quanto ela se alegrou por mim.
Meu amigo Perna me viu passar na Ipiranga, aí telefonou e foi lá me dar um abraço. Giovani, que havia me adicionado no orkut há poucos dias, foi me conhecer pessoalmente. Newton, outro amigo que saiu do orkut pro mundo real, mandou sms cedinho da tarde pra saber como eu tinha ido. Na semana que vem, farei uns treinos de musculação com ele, que já me passou as dicas para secar e definir.
Jacaré telefonou no fim do dia pra saber como eu estava. E hoje estava comigo no trote de 30 minutos lá no Cete.
Com tanta gente que me quer bem só posso me sentir feliz e amparada. Mas a felicidade essencial está dentro. Ela andou meio embaçada, mas no domingo voltou a brilhar e fluir mais livremente. De dentro para fora, irradiando-se luminosa, fazendo com que eu veja claramente o quanto sou afortunada e as belas possibilidades de que disponho.
Mude seus pensamentos, e você muda o mundo.

Achei!!!

Corri a Maratona de Porto Alegre no domingo cinzento de 25 de maio de 2008.
Foi um exercício de superação pessoal. Superei o medo, o desânimo e o despreparo. Superei aquela que havia me tornado e reencontrei aquela que sou.
Saí de casa às 6h, escuro ainda. Fui de carro. Cheguei às 6h30, em cima da hora. Parei meio longe, então carreguei meu mochilão vermelho comigo. Encontrei minha amiga Lena Stropper, e guardei o mochilão no carro dela. Falei que estava apavorada, e ela, minha maior incentivadora na empreitada, disse pra não me preocupar, que agora já estava lá mesmo, era só sair correndo e pronto.
Fiz um aquecimento ultrachinfrim de uns cinco minutos (bem de acordo com a chinelagem das duas semanas pré-prova), deixei meu casaco com Lena e fui pra largada. Encontrei Marcia Lima, outra amiga ponta-firme, e fiquei com ela.
Ali na largada comecei a sentir a transformação: o medo misturou-se a uma excitação e alegria que eu nunca mais havia sentido ao correr. Me senti incrivelmente feliz, alegre, leve, animada, uma genuína sensação de "right here, right now, there is no other place I wanna be" (e neste momento estou ouvindo Jesus Jones no i-Tunes - e esses eu vi ao vivo num Hollywood Rock em SP nas priscas eras). Me senti como sou: uma mulher muito disposta. E lá fui eu.
No início estranhei minha alegria e leveza por estar correndo, já estava acostumada com a sensação de peso e obrigação, o sofrimento, a uruca... E ali eu soube que ia dar tudo certo, que o movimento ascendente havia engrenado.
Fiz a primeira metade num ritmo bem bom, fechei em 1h39min. Mas quando cheguei nos 22km quebrei. Pensei em parar, já tinha feito a metade e tal... Mas parar por quê? Podia simplesmente seguir mais devagar. E fui. Caí de 4'45'' para algo tipo 5'05''.
No km 32 estava muito cansada, o quadríceps esquerdo doía, comecei a sentir a falta de polimento do treino, a musculatura retesando-se. Parei no posto de gatorade, peguei dois copos e bebi, caminhando até o posto de água logo depois, onde peguei dois copinhos e bebi caminhando. E voltei a trotar! Só mais 10km e deu. Aí baixei pra 5'30'' até 5'50'', e foi assim até o final. No km 36 caminhei de novo para beber mais dois copos de gatorade. Só pensava em comer uma maçã quando chegasse. E decidi que aquela tinha sido a última parada.
A virada foi no km 38, e eu já estava começando a me enervar, porque a porra não chegava nunca, e eu lá cada vez mais cansada. Logo depois de virar encontrei o que precisava para manter o ritmo: uma parceria. Encostei num cara que estava num passo idêntico ao meu. E naturalmente seguimos juntos. Eu terminaria a prova sozinha, mas creio que a passada ficaria ainda mais lenta. Juntos, mantivemos a cadência. Quando passamos a marca dos 40km, ele disse: "Mais um!" Eu disse que estava muito, muito cansada, e ele disse: "Eu também, mas vamos manter esse ritmo." E mantivemos. Foi bacana, porque um puxou o outro, às vezes ele avançava dois passos, depois eu. Pisamos juntos no tapete.
E eu me senti muito mais feliz e realizada do que na maratona de estréia no ano passado. Essa sim será inesquecível.Passo a passo com Marcelo, meu parceiro na finaleira

sábado, 24 de maio de 2008

A hora do espanto

Estou a 12 horas da maratona. E agora bateu o medo. Estou a-pa-vo-ra-da. Bem, o lado positivo é que esse calafrio na barriga é melhor do que o desânimo que senti ao longo desse infindável mês de maio. Escolhi a roupa, separei o tênis e estou preparando a mochila. Agora já é.
O que vou fazer nessa prova não sei. Mas sei o que quero. Antes de mais nada, quero completar o percurso. Queria baixar o tempo do ano passado, mas tento não pensar nisso porque pode alimentar a pressão interna que preciso dissipar. Porém, é lógico que, em seguida ao pensamento de completar a prova, vem essa idéia.
Decidi correr hoje de manhã, em meio à demorada retirada do kit. Encontrei vários amigos queridos lá, fiz duas novas amizades, e essas pessoas me contagiaram com seu astral positivo e festivo. Na quinta-feira, eu havia sido aconselhada a fazer a prova pelo simples prazer de correr. Eu disse que não tenho mais prazer correndo, mas fui aconselhada a ir mesmo assim. Então, posso dizer que, nos 42,195km de amanhã, vou procurar o prazer perdido. Vou procurar meu coração, minha disposição, minha energia, minha garra, minha alegria e minha leveza. Vou procurar aquela que sou.Barbosa, Márcio, Lucas, Lízia, Tadeu, Lena, Soares, eu e Edimilson

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Quando quase tudo se desfaz

O desânimo tomou conta esses dias, e eventualmente a tristeza. Mas não a infelicidade. Muito menos o desespero ou a desesperança.
Em meio à depressão, à crise, à doença, à prostração, mantenho a fé. Fé em mim mesma antes de mais nada. Fé na minha força e na minha capacidade. E fé em minhas duas crenças espirituais.
Tenho a mais inabalável certeza de que I got what it takes to endure and overcome it no matter what.
Iniciei um novo movimento energético. Estou tratando o corpo, a mente e o espírito. Uma legítima abordagem holística - hehehe, acho esse termo de última, dado o seu mau uso.
Não sei se vou correr a maratona domingo. Vou ver na hora. Se não correr essa, corro a de Buenos Aires ou alguma outra. Ou nenhuma, se meu coração não mais se alegrar com maratonas.
A meta agora é recuperar o prazer das coisas.