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sábado, 10 de março de 2018

TPB - Meditação


Hoje mais que nunca a meditação mostrou a que veio na minha vida borderline.
Vou começar do começo.
Baixei o aplicativo Headspace (https://www.headspace.com/) no dia 3 de dezembro passado, a versão gratuita, como mais uma tentativa de tornar a meditação uma prática diária. Comecei do básico mais básico - 3 minutos diários. Curti. Fiz uma assinatura mensal. Aumentei as sessões diárias para 20 minutos. Só isso.
Tenho feito as meditações temáticas, apresentadas em pacotes de 10 dias.
Hoje terminei a série de meditações sobre Aceitação. Levei 15 dias para concluir o pacote porque na metade do caminho percebi que não estava fluindo. Então recomecei.
Essa meditação consiste basicamente em se perguntar: "A quem ou a que você está resistindo?" Como toda meditação, não é para fazer nada além de observar seja o que for que apareça. Ao observar sem julgar, sem aceitar nem rejeitar as experiências, sem grudar e embarcar nelas, apenas reconhecê-las, cria-se um pequeno espaço mental de clareza. Aceita-se o fato de que a experiência existe, está passando pela mente. Essa aceitação não significa se conformar ou se submeter; pelo contrário: abre o espaço para a dissolução da experiência, para a percepção de sua vacuidade.
As minhas percepções nesses 15 dias foram impactantes. Vieram à mente resistências que eu já havia detectado no cotidiano, relacionadas a conteúdos emocionais e afetivos, ao trabalho e ao treino. Mas apareceram outras muito mais sutis e profundas.
A primeira foi a resistência à meditação em si. Depois que comecei a meditar sobre aceitação, as sessões ficaram menos prazerosas. Beeeem menos. Surgiram a falta de vontade, a má vontade e a impaciência, manifestadas antes e durante a prática. Procrastinação e um desejo de abortar a sessão em curso, uma onda de agitação mental e física.
Passei a meditar deitada - o que não é recomendado, pois induz ao embotamento mental, ao sono, ao apagão. E tudo isso aconteceu comigo ao longo desses 15 dias, é lógico.
Hoje, último dia, pelo menos resolvi meditar ao acordar. Deitada. Não que eu tenha tido vontade de meditar. O que eu tive foi a percepção de que estava vindo uma onda de instabilidade que poderia se transformar em um episódio de ansiedade e/ou depressão mais adiante. Essa onda havia brotado ontem no final da tarde, com a percepção de que me falta alguma coisa. Que coisa? Não faço ideia. Sinto apenas uma falta, uma carência. Não entender o que é isso e não saber de onde vem acarreta a instabilidade. Angústia.
A natureza subjacente dessa sensação manifestou-se na minha modesta sessão de 20 minutos desta manhã: é o vazio inerente à personalidade borderline.
Na sessão desta semana, conversei com meu psicoterapeuta sobre o que é TPB, diagnóstico, manifestação, prognóstico. Ele pontuou que uma das principais características dos borderliners é o vazio interior. As perdas e traumas que provocam a fratura da personalidade deixam os borderliners com uma sensação de vazio que tentamos preencher ou anular com os mais variados expedientes. É a esse vazio que tenho uma formidável resistência. Não quero sentir, resisto à experiência.
Ao meditar sobre a aceitação, abri um espaço mental para olhar o vazio e a resistência a ele.

O caminho budista é composto de três etapas: visão, meditação e ação. Visão é o ensinamento e a compreensão que se tem do assunto. Meditação é a contemplação do ensinamento para aprofundar a compreensão. Ação é a prática do que se aprendeu a partir da visão/meditação.
Minha prática com o auxílio do Headspace e da terapia está seguindo esse planejamento. No caso específico das meditações sobre aceitação funciona assim: eu tenho uma visão sobre resistência/aceitação; ao meditar a respeito, minha visão clareia; ao sair da meditação, devo integrar as percepções aprofundadas à minha maneira de agir, ou seja, observar quando a resistência surge, o que abre espaço para reconhecer e aceitá-la.

Que seja de benefício.

domingo, 4 de março de 2018

É preciso falar

Um grupo do Facebook voltado apenas para mulheres de uma determinada categoria profissional deu o start em minha atual produção de textos sobre a experiência no manejo do TPB. Uma das participantes fez um post listando os problemas de saúde mental que enfrenta e perguntou quem mais ali vivia algo parecido. O post está bombando. Somos muitas, somos muito diferentes em vários aspectos, mas somos unas na coragem/disposição para expor um quadro de problema mental.
Logo após o diagnóstico do TPB fiz um post aqui, depois uns outros poucos. A motivação é a mesma de quando escrevi há anos sobre o problema de hérnia de disco que acabou em cirurgia: ser de benefício para outros que passem por situações semelhantes. Os altos e baixos, o que funcionou e o que não funcionou, o dia a dia.
Eu gosto de ler relatos em primeira pessoa. Li alguns de borderliners, me comovi e me identifiquei. Empatia e identificação. Entender o que o outro sente e perceber que não estou sozinha. Ser uma voz que mostre o mesmo para outras pessoas.

É preciso falar de doenças mentais, de questões de gênero, de racismo, de desigualdades sociais, de feminismo e misoginia, de política, de religião. É preciso se posicionar. É preciso fazer o que se puder para construir uma sociedade melhor. Uma humanidade melhor. Por mais impossível que isso pareça tantas vezes. Se não se falar, se não se tomar atitudes, não dá para esperar as mudanças que se deseja.


sábado, 3 de março de 2018

TPB - Alegorias e estratégias

Várias vezes, inclusive aqui no blog, usei as expressões "andar sobre gelo fino" e "nervos expostos" para definir minha autopercepção.
Em leituras sobre o transtorno de personalidade borderline, vi o uso de duas alegorias análogas: "andar em terreno movediço" e "queimadura de terceiro grau".
São imagens que definem perfeitamente três dos piores sintomas do TPB: a instabilidade e oscilação extrema do humor, a insegurança na vida e a intensidade exacerbada com que sentimos as coisas.
 O que eu faço para não afundar no gelo ou na areia movediça e para proteger os nervos expostos e o tecido queimado?

- Terapia e medicação. Para mim a terapia é mais importante que a medicação, talvez porque eu não tenha o transtorno em grau elevado. O fato é que eu jamais aceitaria me tratar apenas com remédio. Eu não quero suprimir os sintomas, eu quero curá-los, ou pelo menos aprender a manejá-los.

- Evito os gatilhos, as situações de perigo. Aprendi a identificar gatilhos na terapia. Antes eu ia atrás desses gatilhos muitas vezes. Aprendi a me manter longe deles.

- Prática esportiva. Há décadas a atividade física é um fator crucial para a manutenção da minha saúde mental/emocional (além da física). Tenho que treinar. Muito. Sempre. Não é opcional. Quando a manifestação do TPB se exacerba, sempre vem a falta de vontade de treinar. Recentemente tive um longo período, longo mesmo para os meus padrões, de desânimo, má vontade e total falta de vontade em relação aos treinos, iniciado em 2013. (Não por acaso, o ano em que internei minha mãe na derrocada final do Alzheimer no primeiro semestre e meu treinador, que havia me reabilitado depois da cirurgia de hérnia de disco e me ajudado a voltar a correr bem, deixou de atuar no segundo semestre. Para a borderliner aqui, dois eventos devastadores.)
Foi (e continua sendo) difícil retomar. No ano passado encontrei um treinador cuja paciência e persistência estão contribuindo de forma decisiva para que eu volte a gostar de correr e, mesmo antes disso (ou quando o gostar inexiste), treine com regularidade e cumpra a planilha, ainda que aos trancos e barrancos, ainda que eu esteja uma lesma.
No início deste ano, tive outra ideia magnífica para alavancar a prática esportiva: migrei da musculação sozinha em academia (que simplesmente tornou-se insuportável) para o treinamento funcional assistido, com horário marcado. A borderliner aqui sente-se cuidada pelos vários professores em sala, que corrigem tudo, estão atentos a tudo e parabenizam pelos pequenos progressos (cuidado e validação, temas tão sensíveis para borderliners). Além disso, o horário marcado (e a grana que eu gasto) me força a sair de casa mesmo quando não estou a fim.
Cada treino, cada corrida, por mais sofridos que sejam, por maior que tenha sido a má vontade prévia, me proporcionam gratificação. Me sinto bem fisica e emocionalmente, satisfeita comigo mesma por ter superado a minha tendência para a autossabotagem.

- Meditação tem ajudado muito. A meditação da atenção plena, mindfulness, estimula a permanência no momento presente e a observação aberta do que acontece. Comecei a meditar há três meses, quase nada, mas já consigo trazer a atenção plena para o cotidiano em alguns segundos. Quanto mais presente me mantiver no presente, menos estarei nas ruminações sobre o passado ou nas preocupações sobre o futuro, que para os borderliners têm uma intensidade excepcional. Mantendo-me no presente, posso usar essa intensidade intrínseca para ficar muitíssimo feliz com coisas prosaicas. O trabalho do dia bem feito, um treino bem feito, atividades culinárias, a observação da paisagem, o céu, as flores, as árvores.

https://photorator.com/photo/8084/cracked-ice-lake-baikal-russia-photo-by-daniel-korzhonov
Que seja de benefício.


sexta-feira, 2 de março de 2018

TPB - Validação e libertação

Estar doente nunca é bom. Mal-estar leve ou sofrimento agudo, desgaste físico, mental e emocional, o esforço para a recuperação, tudo contribui para a experiência em geral ser muito desagradável. No caso das doenças físicas todo mundo entende isso. Mas quando a doença é mental...
"Não é nada."
"Desencana."
"Faz alguma coisa para se distrair."
"Para de pensar nisso."
"Já passou."
Ninguém diz uma coisa dessas pra um diabético. Mas para um doente mental...
Além de sofrer com a doença, você sofre com a invalidação constante do seu sofrimento. Sempre tem alguém para insinuar de mil maneiras (ou dizer explicitamente) que você está nessa porque quer, porque não se esforça para mudar.
O mais triste, perverso e danoso é a autoinvalidação.
Antes do diagnóstico de TPB, eu mesma achava que eu "não tinha nada", que as oscilações, o vazio, o medo doentio de abandono e todas as outras manifestações eram algo que eu poderia não ter se eu me tratasse e me esforçasse. Bem, eu me tratava. Se não melhorava, então só podia ser porque não me esforçava o bastante.
Não era nada disso.
O sofrimento que o transtorno de personalidade borderline me causa às vezes parece mais suportável do que a invalidação dos sintomas da doença. O diagnóstico me libertou da invalidação. O que os outros pensam e falam - exceto meu psicoterapeuta - não me afeta mais, não me invalida mais. Eu não me invalido mais.
Livre da invalidação, ciente de que é uma doença que talvez nem tenha cura, concentro meu foco e energia no tratamento e no manejo cotidiano. É como diabetes: seguir o tratamento e se cuidar não significa que a cura esteja garantida. Mas é possível viver com grande qualidade, sem sintomas. Sem crises.

Imagem encontrada em https://wakeup-world.com/2016/01/30/the-other-side-the-spiritual-gift-of-borderline-personality-disorder/

domingo, 24 de dezembro de 2017

Sem resperidona

Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?
Na terça-feira passada, comuniquei pra psicoterapeuta que larguei a resperidona. Surtei ao perceber um salto no meu peso. Eu sabia que resperidona aumenta o apetite. Notei. E fiquei atenta, não cedendo à vontade de comer mais. Mesmo assim o peso disparou, chegando a bater nos 60kg. Surtei. Inaceitável para mim. Fui pesquisar, vi que o aumento de peso não é apenas por aumento do apetite, mas por alteração no metabolismo, que pode inclusive acarretar aumento do colesterol e diabetes. Evidentemente muitos usuários de resperidona não podem suspender o uso. Eu posso porque meu transtorno não é tão intenso, nem tão debilitante.
Suspendi na quinta-feira retrasada. Apertei a dieta, o peso recuou em dois dias. E em dois dias também senti o efeito da retirada. Veio a tristeza, a dor.
Até aí, nada de novo. Não é a primeira vez que paro de tomar remédios psiquiátricos. E eu sei bem o que sinto.
O que houve de novo foi o olhar.
Pela primeira vez tive a clara percepção dos meus mecanismos de fuga da dor que me flagela desde a primeira infância. O recalque. E a retaliação com ressentimento/raiva. Em vez de sentir a dor na hora, acolher e dissipar, eu a suprimia. E depois extravasava com atitudes vingativas. Inclusive com minha filha. (Um incidente trivial com ela me fez ver isso - e a possibilidade de agir diferente, de ser diferente, até de sentir diferente.)
A retirada da resperidona teve o efeito da exacerbação do meu aspecto sombrio. Mas teve um saldo amplamente positivo: parei de fugir disso. E vi que não quero mais o antigo padrão de resposta, que tanta dor causou a mim e a outros.
Talvez minhas reações a acontecimentos sejam exageradas, talvez eu jamais consiga mudar isso. Mas sem dúvida comecei a mudar o que acontece em função disso. O que vem depois.
A coisa que fiz pela primeira vez foi pensar em novas formas de reagir - e colocá-las em prática.

Santo Daime

Ano novo, novas experiências.
Quando foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez? Ontem.
Fui conhecer o Centro Espírito Barca do Luar - São Francisco das Chagas pela manhã. (Indicação de uma amiga, claro. Que indicação!) Fiz atendimento com um médico espiritual e, o melhor, atendimento fraterno com uma mulher incrível, uma filha de Oxum, com quem senti afinidade e me conectei imediatamente. Reencontro. (Vou desenvolver um trabalho de autoconhecimento com ela, mais uma futura aventura inédita na expansão da mente.)
Fiquei sabendo que à noite haveria um evento com bailado e passes de Oxum e Iansã e atendimento e bênçãos de pretos velhos. Linha branca. Tipo umbanda. E fiquei sabendo também que nesse evento os interessados poderiam tomar daime.
Fiquei hesitando o resto do dia inteiro. Ir ou não ir? Fui. Minha intuição dizia pra ir, meu ego enumerava razões para não ir (o ego jamais quer qualquer experiência que possa abalar seu poder). Saí de casa tarde, mas cheguei lá e estava longe de começar. Me inscrevi pra tomar o Daime, expliquei que nunca havia experimentado, que uso medicação psiquiátrica, que tenho transtorno borderline. Um dos integrantes da casa, ao me ver meio perdida, me chamou pra conversar, explicou a origem do Santo Daime, culto que utiliza a ahayuasca, bebida tradicional das práticas religiosas dos índios latino-americanos. A Barca do Luar segue a tradição que, além dos elementos da religião cristã, incorporou a umbanda. Sensacional. Ele me instruiu a não ter medo, ficar de olhos fechados e em silêncio, não cantar, ouvir apenas. Enfatizou que eu estaria num ambiente seguro, amparada espiritualmente (e em termos práticos também - várias pessoas cuidam dos presentes).
Tomei. Confiante, mas claro que com uma ponta de medo. Começou o ritual, eu lá sentada, numa boa, sentindo nada. Até que senti (creio que uns 90 minutos depois - o tempo para fazer efeito varia de pessoa para pessoa). Senti a alteração da visão e da percepção espacial e corporal. De olhos fechados o processo foi intenso. Imagens assombrosas, muito em tons de lilás escuro, roxo, tipo uns fractais, ideias pesadas. Vieram os pensamentos e sensações de medo ("Nossa, tô doidona, e agora? Quando isso vai passar? Ai, o que são essas imagens? Por que tudo tão escuro e intimidante? O que eu tenho dentro de mim?"). Quando a coisa apertava muito, eu abria os olhos; ao fechar, era como se as imagens que eu tinha visto do salão e das pessoas se derretessem. Tem um relógio no salão, eu olhava pra ele, perdida na noção de tempo. Tive uma certa ansiedade, pedi para uma menina me acompanhar ao banheiro, saí caminhando bem zonza, meio grogue, rindo um pouco nervosa, ela dizendo que tudo bem, que era normal. A circulada e arejada me fizeram bem. Voltei, retomei o processo. Tinha vontade de me deitar em vários momentos, ficar mais acomodada. Pena que não tinha como.
Quando o ritual encerrou eu ainda estava meio fora, mas já sem medo e sem ansiedade, apenas sentindo uma leve alteração nas percepções sensoriais. Antes do bailado, ofereceram mais daime, e o preto velho que servia me disse para tomar mais um pouquinho, sem medo. Antes, uma menina havia me dito que a segunda dose deixava mais animado e ligado. Então tá. Mais meia dose. Essa realmente não teve o efeito anterior.
Cantos da para Iansã e Oxum, médiuns incorporadas, passes.
Para completar a grande noite, uma longa conversa com a preta velha Maria Conga (recebida pela mulher a quem já estou conectada), que me orientou mais sobre a experiência do daime. E me aconselhou a me entregar mais nos rituais, ser menos mental e dar passagem para as entidades, pois tenho o dom. Desde os 18 anos me dizem isso, mas nunca aconteceu. Maria Conga deu sugestões de como proceder nas próximas ocasiões. Quem sabe seja essa mais uma coisa  fazer pela primeira vez?

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Border life

Muito, muito mais estável.
A resperidona deve ter contribuído, mas creio que o principal foi ter um diagnóstico. A constatação de que a disfuncionalidade não é uma simples veneta ou falta de empenho para mudar.
Quando me pego em reações exageradas, lembro do transtorno de personalidade borderline. E penso: "Ok, tenho essa característica. Mas vou maneirar. Eu tenho isso, mas sou maior que isso, sou mais que isso". Consigo ter mais paciência e boa vontade comigo mesma. Não sou assim porque quero, não é uma escolha e não é voluntário. A escolha voluntária que fiz é me tratar para administrar as oscilações.
Resperidona me dá sono, reajustamos a dose pra mera 1mg.
O equilíbrio é frágil. Preciso tomar certos cuidados. Dormir direito, comer direito, beber pouco, evitar estresse e fadiga mental e/ou física excessiva. Essas alterações afetam todo mundo, é claro, mas no meu caso podem levar a uma exacerbação de sentimentos e sensações perturbadores e negativos. Se fico cansada demais, começo a achar tudo dramaticamente terrível - na vida prática e emocional.
Procuro me resguardar, ficar longe de situações e pessoas que possam me desestabilizar. Nem sempre é possível. Nem tudo depende de mim. Algumas situações simplesmente escapam do que desejo e tento realizar. As atitudes dos outros não são controladas por mim, às vezes não há como me livrar de gente desrespeitosa e/ou invasiva. Exposta ao que me desestabiliza, vêm as ondas de frustração e fúria, às vezes de dor e tristeza (especialmente quando não consigo não sentir e/ou pensar o que não quero sentir e/ou pensar). Como toda onda, essas passam.
Talvez eu jamais consiga não produzir essas intensas ondulações mentais/emocionais. (Sim, elas são uma produção de minha mente, de uma parte de minha mente, elas não vêm "de fora", vêm "de dentro", de profundezas insondáveis. Do samskara quem sabe?) Mas posso aperfeiçoar minha resiliência, minhas habilidades. Não me deixar afundar nem me afogar no mar revolto da mente borderline.
A ideia é sempre a mesma: surfar. A arte de pairar acima da onda. Resistir imóvel e fixa à passagem do turbilhão não é opção. Dar as costas e tentar fugir também não. A única atitude lúcida é fazer como os surfistas: olhar de frente, avaliar o tamanho e a corrente, remar na direção da montanha líquida, escalar a parede e se posicionar o melhor possível pra ir junto e ter controle de si em cima de uma massa e energia avassaladoras.
Como no surfe, tem as quedas, o caldo. Quando a manobra dá errada, não há como não sentir o impacto da onda e não ser arrastada por ela durante um certo tempo e distância. Às vezes os acidentes podem ser bem sérios.
Como no surfe, quando a manobra dá certo, quando é perfeita... uau!!! Aí sim. Que sensação de liberdade, de autodomínio, de unicidade com o ambiente.
Essa é uma parte da alegoria.
A outra parte tem a ver com as profundezas insondáveis onde minha mente borderline produz as ondas. A meta ambiciosa obviamente é mar calmo, sem ondas gigantes.
Uma coisa de cada vez. Ou não. Tudo ao mesmo tempo, porque as coisas acontecem ao mesmo tempo, mas com sabedoria para não tentar atropelar etapas ou fugir delas. Antes de desfrutar de um mar calmo, ainda terei muita onda pra surfar. E pode ser maravilhoso. Surfar bem é uma maravilha.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

TPB

Transtorno de personalidade borderline. TPB. Borderline personality disorder. BPD.
Só é diagnosticado após os 18 anos, mas pode se manifestar na infância.
No meu caso começou muito cedo, anos antes da alfabetização. Lembro das minhas unhas ruídas até a metade. Lembro de me olhar no espelho e não saber quem era aquela menina sombria (e feia - eu me achava muito feia) que eu via refletida. Lembro da sensação de vazio. Lembro do medo paralisante de me perder, de ficar sozinha. Lembro da dor. Lembro da tristeza. Lembro do desamparo.
Ambiente muito hostil. Abuso. Mãe doente.
Ontem, prestes a completar dois anos de terapia, tive uma sessão extraordinária. Pela primeira vez pedi para ser medicada. Eu já tomo uma medicação, mas por sugestão da terapeuta, porque eu nunca quis por livre vontade. Já havia usado antidepressivos, parei por conta própria no verão. No outono a coisa desandou, e há alguns meses tomo lamotrigina, "antiepilético usado também atualmente como estabilizador de humor para os casos de pacientes com o espectro bipolar". (Só agora, pra escrever aqui, fui pesquisar a bula da lamotrigina. Sei que é para estabilizar meu humor, mas não sabia que era no espectro bipolar.)
"Para quê?", perguntou Letícia, quando eu disse que queria ser medicada. "Para não sentir o que eu sinto, para não sentir as coisas do jeito que eu sinto. Para não me sentir do jeito que eu me sinto." Porque tenho feito tudo o que posso para me manter estável. Trabalho. Alimentação. Meditação. Treino. Mas nada basta. Do nada vem a turbulência. Onda. Ventania. Explosão. Não consigo prever. Não consigo impedir. E me desgasto muito no esforço de reestabilização.
Pela primeira vez pedi para ser medicada e pela primeira vez perguntei qual era o meu diagnóstico clínico. O que é isso que eu tenho? Letícia foi reticente e muito cuidadosa. Mas é isso. Transtorno de personalidade borderline. Muito bem resumido na Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_personalidade_lim%C3%ADtrofe). Ler esse artigo foi ler uma descrição de mim mesma. Foi um alívio. Não é um rótulo, eu não sou isso. Sou muito maior que isso. Mas isso faz parte da minha personalidade. É algo com que tenho que viver. Aprender a conviver. Não posso ser outra pessoa, mudar a personalidade não é algo exatamente viável. Mas posso me manter basicamente estável. Além da terapia, comecei a usar a risperidona, um antipsicótico, "um composto que possui um efeito eficaz sobre um certo número de transtornos, geralmente relacionados com o pensamento, com as emoções ou com as atividades. (...) Melhora também a ansiedade, a tensão e o estado mental causados por estes transtornos, sendo também utilizada para manter os distúrbios sob controle".
O transtorno de personalidade borderline causa muito, muito sofrimento. Mas não apenas isso. Tem também um lado muito positivo: "Pessoas com TPB são excepcionalmente idealistas, alegres e amorosas". Eu sou assim. E pretendo me manter mais nesse polo, próximo dele. Isso é possível.