quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

No Dharma – e na oitava galáxia

Nesta segunda, terça e quarta-feiras, estive no Cebb – Centro de Estudos Budistas Bodisatva –, vivendo alguns dos momentos mais emocionantes de minha vida.
O Cebb foi fundado e é dirigido por meu professor, Lama Padma Samten, minha conexão direta com o Dharma, fonte de inspiração e devoção, aquele a quem mais respeito, amo, admiro, reverencio e agradeço, cuja compaixão e sabedoria eu não poderia descrever em palavras. Meu professor perfeito.
O Cebb hospedou a exposição de relíquias do Buda Shakyamuni e outros grandes mestres organizada por Lama Zopa Rinpoche, diretor espiritual do Projeto Maitreya (www.maitreyaproject.org/).
Para um praticante budista, ver essas relíquias é extraordinário. E para mim a experiência foi extraordinária por vários motivos.
O primeiro deles foi a manifestação clara de minha firme conexão com o Dharma. No momento em que estou concluindo a tradução de um livro de Lama Zopa Rinpoche, recebi a bênção de assistir a exposição de relíquias organizada por ele. E conheci Lama Tenzin Namdrol, aluna de Lama Zopa, que teve a bondade de me falar do mestre e do trabalho dela como tradutora. Eu tenho mesmo muito mérito acumulado para ser tão afortunada.

O segundo foi ver o despertar da conexão de minha filha com o Dharma. Na verdade, a conexão existe desde que Lízia era um bebê de meses e foi abençoada por Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche em Três Coroas. Rinpoche pegou Lízia no colo e ficou com ela um longo tempo. Na época eu não havia reativado minha conexão com o Dharma, e nem pude avaliar a bênção que minha filha estava recebendo.
Depois, quando tinha uns 3, 4 anos, e ia ao Cebb comigo, que já havia tomado refúgio, Lízia chegava lá e pulava para o colo do Lama Samten enquanto ele proferia ensinamentos. Não havia como tirar Lízia do colo do lama, e lá ficava ela, feliz da vida, brincando e puxando a barba do lama, tentando mexer na mesa dele, até cair no sono, e aí dormia feliz.
Agora, aos 11 anos, Lízia teve uma verdadeira experiência espiritual. Emocionou-se profundamente diante das relíquias. Chegou a ficar trêmula e corada após ser abençoada com uma relíquia. E disse: "Hoje poderia me acontecer qualquer coisa, por pior que fosse, que eu nem me importaria." Dei para ela o mala que eu tinha comigo, e Lízia começou a rezar o mani. Nooooooossssa... Que as sementes do Dharma possam brotar e florescer nela a partir de agora.
Como florescem em mim, que vivi três dias de imensa alegria. Circumambulei as relíquias, prostrei-me, recitei mantras, fiz preces, pedidos e dedicação, rendi homenagens aos Budas e bodhisattvas dos três tempos e das dez direções, fiz meu melhor em ações de corpo, fala e mente.
O contato com as relíquias me deixou radiante. Estou na plena fruição de meu núcleo de felicidade. Minha vida flui, sinto-me totalmente animada, otimista, alegre, confiante. Tudo está bem exatamente como está.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Ema! Ema! Ema! Cada um com seu problema!

Quem dera que assim fosse.
Mas o fato é que nossos problemas sempre respingam nos outros - isso quando não jogamos the whole pack pra cima de alguém, na maior, com o foda-se no volume máximo.
Pior ainda é o hábito de achar que são os outros que nos causam problemas, e não nós mesmos. Sempre se tem um vilão pra tudo, um bode expiatório. Às vezes até admitimos que pisamos na bola, mas isso porque fulano fez tal coisa antes, ou porque aconteceu algo que nos levou a meter os pés pelas mãos. Estamos sempre tirando o nosso da reta, tirando o corpo fora. Nunca somos responsáveis pelas nossas mancadas.
Affff, quanta ignorância e cegueira!
A coisa toda fica mais simples quando se percebe o elementar: não importa o que acontece "do lado de fora", a única coisa que interessa é como reagimos. Não podemos mudar nada a não ser nós mesmos e a maneira como agimos e reagimos.
No samsara é tudo uma questão de tempo, de prática e de disciplina. Assim, tenho tentado manter com disciplina a prática de encarar meus problemas como meus, sem repassar pra ninguém. Procuro aceitar as limitações alheias, e cuidar mais dos meus defeitos do que avaliar os dos outros. Tento ser tolerante com as falhas – minhas e dos outros. E não levar as coisas para o lado pessoal, numas de me sentir vítima de abusos. Vale ouro lembrar sempre que onde um não quer dois não fazem. Se tem alguém ou alguma coisa me chateando, é porque estou permitindo. Então eu que trate de mudar o meu posicionamento, em vez de querer que as mudanças aconteçam "fora".

sábado, 26 de janeiro de 2008

Coisas de corpo

Loraine fez um comentário ali embaixo que eu ia responder como comentário, mas concluí que ia ficar enorme. Aí abri outra postagem. Mas não me contive e também comentei, hahaha. Estou prolífica. Cheia de idéias.
Acho curioso que as pessoas em geral não tenham uma percepção aguçada do próprio corpo. E se constranjam com coisas absolutamente naturais, como a menstruação.
Um critério decisivo na minha seleção de namorados e afins é como o homem encara o período menstrual. Eu não gostaria de conviver com alguém que achasse menstruação uma coisa desagradável.
Eu havia recém-começado a sair com um cara, quando ele me convidou pra dormir na casa dele. Eu ia começar a menstruar, achei que poderia ser meio chato, basicamente por causa dos lençóis; também não sabia qual era a dele a respeito. Falei, e ele perguntou com um tom completamente casual: "E daí?", meio surpreso por eu achar que ele precisasse ser informado. Por essa e outras coisas, esse foi um namorado querido. Parceiro. Curtia o meu aspecto mesmo depois das corridas, toda suada, pegajosa e fedida. Não esperava que eu primeiro tomasse banho e me arrumasse para chegar perto de mim.
Passo parte do dia de tênis e roupas de treino. Não fico completamente desgrenhada porque prendo o cabelo e enfio um boné, mas estou sempre meio esculhambada. Ainda mais no calor, com suor e protetor solar no rosto e no corpo, uma mistura pegajosa e brilhosa.
Meus pés de momento estão com todas as unhas, mas uma delas vai cair em breve. Esteve bem roxa, agora está uma coisa assim meio bege. Volta e meia faço umas bolhas, estou com uma enorme desde a semana retrasada. A musculação provoca uns calinhos eventuais nas palmas das mãos.
Eu não me incomodo com essas coisas. Acho que faz parte, é natural. E espero que as pessoas que privam de minha intimidade entendam que o visual pós-treino faz parte do pacote.
Na academia onde faço musculação instalaram ar-condicionado. No verão, passo frio lá dentro. Além do ar, ainda ligam uns ventiladores. As pessoas não querem suar nem enquanto fazem exercício!!! Eu adoro suar, mais uma modalidade de limpeza, de desintoxicação.

O máximo possível de arrumação, no aníver de 44 anos em 22 de dezembro. E minha filha linda

Bem, bem, com tudo isso não estou querendo me passar por despreocupada com minha aparência, desleixada ou relaxada. Faz parte da minha curtição com meu corpo me arrumar. Desde que isso não signifique muita função ou gasto de tempo. Raramente demoro para escolher uma roupa. E quando isso acontece não é por ficar procurando um traje que me deixe maravilhosa, mas porque vejo que tenho um armário abarrotado de coisas, algumas das quais acabo nem usando tanto quanto acho que deveria. É roupa demais para um corpo só. Aí fico meio perdida, olhando o monte de opções e questionando o consumismo e o apego que me levam a juntar tanto pano.
Como não sei me maquiar e nunca tive interesse consistente em aprender, fiz maquiagem definitiva nos olhos, sobrancelhas e lábios. Que maravilha! Nunca mais fiquei com "cara de queijo", como minha mãe definia minha cara lavada. Além disso, acabou o perrengue de tentar passar lápis no olho. Cansei de ficar horas na frente do espelho tentando acertar o traço dos dois olhos e terminar optando pela loção demaquiante. Que frustração que era isso... Me sentia a mais inepta das mulheres. Batom comecei a usar regularmente no ano passado, para evitar rachaduras devido à exposição constante ao sol e ao vento.
Para me manter penteada, alisei o cabelo. Outra idéia genial. Meu cabelo era uma massa ondulada intratável. Se não penteava, ficava uma touceira embaraçada; penteado, parecia uma vassoura. Claro que se eu usasse creme e secador daria pra deixar direitinho, mas secar cabelo é algo fora de cogitação para mim (nem os da minha filha eu secava quando ela era menor). Ainda mais que lavo o cabelo todos os dias em função do suador. O máximo que faço é secar a franja.
Uso protetor solar como remédio. Creme no corpo, só quando a pele está quase rachando. Como a pele do meu rosto mantém-se em eterna adolescência, sujeita a acne, faço uma limpeza diária cuidadosa. Vejo isso como uma questão de higiene e cuidado básico, assim como depilar e fazer as unhas das mãos e dos pés. Não é uma questão de beleza, mas de capricho.
Enfim, curto muito o meu corpo e todos os seus ciclos. Observo como ele se comporta em cada estação, como reage a determinados treinos, dietas, alimentos, horas de sono, ritmos de trabalho, tudo. Vejo como as fases da lua influem no meu ciclo menstrual. E obviamente estou acompanhando as alterações provocadas pela idade. Mantenho a mente atenta ao agregado físico. E acolho na boa todas as coisas ligadas a ele - inclusive o envelhecimento. Como sempre digo, sinto-me muito bem, muito à vontade dentro da minha pele.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ciclos

Ontem saí pra um fartlek. Fiz tudo, sabe-se lá como. Foi daqueles dias (e daqueles treinos) que deu vontade de chorar. Todo meu corpo sentiu o esforço. Apenas 1h05min, mas terminei na capa da gaita. Voltei da Redenção caminhando. Ao cruzar para o Parcão, tive que dar uma corridinha porque o sinal ia abrir. Que sufoco! Simplesmente não tinha mais perna pra nada. E o que sobrava do resto do corpo acabei no treino de bíceps e tríceps.
Às 22h30min caí dura na cama. Nas duas noites anteriores eu havia dormido às 2h e bebido umas cervejas, o que certamente contribuiu para a canseira.
Hoje acordei bem, mas logo depois comecei a me sentir exausta de novo. E veio uma vertigem, um mal-estar, passei a manhã bem zonza – e ainda tive a idéia de fuçar no jardim. Comprei dois bougainvilles e quatro mudas de gerânio. Já tinha outros dois bougainvilles e vários gerânios, mas quero bombar a área aberta de flores. Sou doida por plantas com flores, o que me levou a eliminar uma palmeira medonha que tinha aqui. Meti um biquíni e fiquei arrancando a tal palmeira do vaso no maior sol. Bah, que suador. A tal palmeira saiu do vaso – mas porque quebrei o vaso. A dita cuja só foi removida pelo porteiro, munido de uma picareta.
Enfim, o surto de jardinagem me mandou para a oitava galáxia, fiquei spaced-out. Já estava meio preocupada quando percebi que a tontura toda era apenas o começo da menstruação. Meu ciclo é completamente regular, eu sabia que o fluxo estava chegando, mas havia esquecido. Quando falei pro meu ginecologista, ele quase riu, mas sei exatamente o momento em que meu sangramento vai ter início. Sempre tenho uma vertigem forte, e logo depois o sangue começa a descer. E aí todo o mal-estar desaparece na mesma hora. Nunca conheci nenhuma mulher que tenha esse tipo de aviso da chegada do fluxo menstrual.
Minha tpm fica mais ou menos restrita a essa indisposição momentânea. Também é comum eu não conseguir dormir nas duas noites anteriores ao início da menstruação; são noites em que me remexo na cama o tempo inteiro - aliás, isso aconteceu ontem, embora eu estivesse exausta. Em certos meses dá uma vontade maluca de comer doce. Aí como na boa, sem culpa.
Desde que me separei, meu humor não desanda. Bem, hoje fiquei meio azeda. Saí pra correr no fim da tarde. Estava cansada, me sentindo lerda e pesada. Mas fui numa boa até o vento me pegar de frente. Aí o humor foi abalado. Detesto vento. Sempre detestei, desde criança. Deve ser o trauma dos veraneios em Tramandaí, com o nordestão correndo solto, a areia pinicando nas canelas e irritando os olhos, o frio ao sair d'água, arrepiada como galinha depenada. Posso correr com sol de rachar, chuvarada, calor boçal, até frio, mas vento me estraga o humor, fico uma capivara.
Hoje fiquei especialmente indignada porque esse verão está fraco. Adoro calorão. Aí, não só não está fazendo calor, como ainda tem um vento frio! Pronto, lá se foi a paciência.
Saí pra jantar com minha filha, ainda mal-humorada e descontente. E caindo aos pedaços. Mas depois passou.
Algumas mulheres detestam menstruar. Eu sempre gostei. Sempre vi esse momento como uma oportunidade de limpeza, de descartar tudo que não quero mais. Um ciclo chega ao fim, outro tem início. O samsara do meu corpo. A impermanência, a mudança constante. E a cada novo ciclo a possibilidade de avançar no caminho.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Instantes eternos

"Primeiro Instante" desencadeou uma série de associações e recordações. A pequena teia de Indra de Lúcia Brito, a conexão entre todos os seres.
A gravação que tenho não é a original, do Miguel & Almas, mas a do Butchas Bitch. Nessa, Jimi Joe, meu namorado nas priscas eras, chamou Marcelo, também ex-namorado (e padrinho de minha filha), e Beto, que eu gostaria de ter namorado se não tivesse namorado o Marcelo, para fazer backing vocals.
Quem me deu essa gravação preciosa foi o Reinaldo (em 2005), amigo e parceiro de noitadas inesquecíveis, a melhor delas um show do De Falla na Sogipa, que gravamos da mesa de som. Jesus, Maria, José & grande elenco, naquela fase Edu K era o que havia. Bem, pra mim ainda é. Curto total o trabalho dele. E Edu K era totalmente ligado ao Jimi.
Conheci esses queridos do meu coração entre 1986 e 1987, quando trabalhava numa rádio. E eles noutra. Ambas FM, da mesma rede. Éramos vizinhos de sala.
Jimi e eu namoramos por uns seis meses. Ele abriu meus horizontes musicais, gravou fitas e fitas do The Cure pra mim, e eu coloquei pilha para que ele se tornasse vegetariano. Durante nosso namoro, Jimi me apresentou casualmente àquele que seria o pai de minha filha dez anos depois. Os dois se conheciam há anos, e haviam trabalhado juntos em São Paulo.
Marcelo foi meu namorado depois do Jimi. Namoramos vários anos, e creio que foi a pessoa que melhor me entendeu (e aceitou). Tínhamos uma sintonia finíssima, não precisávamos falar para saber o que se passava em nossas mentes. Judy, mãe do Marcelo, será sempre minha sogra de coração, é uma avó emprestada da Lízia. Marcelo, eu e meu ex-marido também trabalhamos juntos. (Somos todos jornalistas, ou fomos.) Os dois ficaram muito amigos. Quando contei pro Marcelo que estava grávida, ele disse: "Oba! Vou ser o padrinho." Com certeza.
Enfim, conheci pessoas da maior importância em minha vida na mesma época, e todas se conheciam, ou vieram a se conhecer. Todas foram, são e serão para sempre queridas ao meu coração – enquanto o espaço perdurar. Amei cada uma delas de uma maneira, tive relacionamentos diferentes com elas. Nos afastamos e reaproximamos ao longo dessas duas décadas, a impermanência manifestou-se para o bem e para o mal. Mas o cerne – o amor incondicional – mantém-se imaculado, inalterado.

Na terça-feira, fui ver Jimi tocar no Zelig. A banda improvisada, uma reunião de amigos que se divertiu e divertiu o público atacando em todos os estilos, inclusive marchinhas de carnaval e Wando, tocou "Primeiro Instante", e foi um instante memorável pra mim. Pena que não foi Jimi que cantou...
Jimi me deu seu CD – prometido desde 2005!!! Finalmente! E eu dei um mala de mantra de contas de açaí feito por mim. Estamos combinando uma ida ao Cebb, o centro budista do meu lama – que Jimi conhece há décadas. Mais um dos fios de nossa teia.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Primeiro Instante

Estou numa fase altamente musical. Bem, o fato é que eu sou um ser musical. Ouço música direto. Ontem tive um surto com duas canções que estão entre minhas favoritas absolutas – "Presença Morena", sobre a qual escrevi ontem mesmo, e "Primeiro Instante", do meu amigo Jimi Joe. Pedi a letra pra ele, e cá está!!!

Um gato cruza a rua
A lua é cheia como meu coração
A noite é apenas meia
Louco sou eu, ainda te chamo
Amo
Não dá pé
É mais uma paixão inútil
Fútil é você
Fingindo não me ver
Mesmo quando os olhares insistem
Se cruzam
Baby, você me deixa
Sempre sonhando
Quem sabe você
Me deixa ser do seu bando?

Ontem à noite
Tanta coisa a dizer
E eu só disse adeus...

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O melhor do pior, o pior do melhor

Usei trechos de "A Tua Presença Morena" (ali embaixo) como assinatura em meus e-mails. Até ter que trocar de software, porque o Mail da Apple enlouquecia certos usuários de Outlook, que recebiam meus txts salpicados com todo tipo de sinais gráficos, impossível de ler. Agora estou usando um chamado Thunderbird, que não permite assinatura. Francamente...
Curto um monte meu Mac. Especialmente a ausência de vírus. Mas tem chatices. Descobri, por exemplo, que o msn para Mac não permite o uso de webcam. Tampouco o Adium. Aí instalei o Yahoo Messenger, que me permite usar webcam – desde que a pessoa do outro lado também use o Yahoo. Fala sério!!!
Bem, mas pude estrear meu novo brinquedo ontem de tarde com o Reinaldo, que encontrei no msn, e que tem yahoo. E aí ele foi pra lá comigo ver se funcionava. Funcionou, mas sem som... Mesmo assim nos divertimos vendo um ao outro. E nossos gatânlios gatáquilos.

Ted e Lelo em junho de 2007

Reinaldo me deu o gato Ted Boy Marino. Mi amor Ted Boy adora aboletar-se na minha mesa de trabalho. Maravilha, pesa 6,5kg, é gigante, fica jóia. Melhor ainda quando Felícia ou Lelo decidem se sentar do outro lado da mesa. Ontem Ted e Lelo estavam aqui empatando o espaço, e foram essas as imagens que Reinaldo assistiu.
Enfim, concluí que vou poder usar a webcam com quem tiver Skype. É dose.
Como disse o Reinaldo: "Tem um monte de programas brigando para ser o melhor, mas todos concorrem mesmo é a pior." Bem isso.
Presença Morena agora só posso usar como frase no meu msn meia-boca. O que fica engraçado, porque jamais associei a letra nem a mim, nem a ninguém. Mas Odon passou a me chamar de Presença Morena por causa disso. E com Claudio, meu I and I, a coisa desdobrou-se para Sambão Morena, não lembro mais como. Hahaha, Sambão Morena é que não sou mesmo. Tentei dançar samba no meu aníver, que completo fracasso! Vou fazer aulas de dança de salão pra corrigir a falha grave. Mas prefiro belly dance. Mas não tenho é tempo, e, se tivesse, ia me puxar no triatlo.
Essa coisa de ser chamada de morena é uma novidade pra mim também. Nunca tinha me considerado morena. Mas gostei. Agora só falta causar o impacto da Presença Morena. Eta!!!

A Tua Presença Morena

Minha letra favorita de Caetano Veloso. De "Qualquer Coisa", de 1975. Lembro que ouvi essa música pela primeira vez no rádio. Há bem mais de 20 anos. E depois devo ter ficado quase que todo esse tempo sem lembrar dela. Até que no meio do ano passado... pof!!! Lembrei. Fui atrás na internet, baixei. E sempre que ouço ou penso, sinto a mesma coisa. Simplesmente perfeita.

A tua presença
Entra pelos sete buracos da minha cabeça
A tua presença
Pelos olhos, boca, narinas e orelhas
A tua presença
Paralisa meu momento em que tudo começa
A tua presença
Desintegra e atualiza a minha presença
A tua presença
Envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas
A tua presença
É branca verde, vermelha, azul e amarela
A tua presença
É negra, negra, negra
Negra, negra, negra
Negra, negra, negra
A tua presença
Transborda pelas portas e pelas janelas
A tua presença
Silencia os automóveis e as motocicletas
A tua presença
Se espalha no campo derrubando as cercas
A tua presença
É tudo que se come, tudo que se reza
A tua presença
Coagula o jorro da noite sangrenta
A tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza
A tua presença
Mantém sempre teso o arco da promessa
A tua presença
Morena, morena, morena
Morena, morena, morena
Morena

domingo, 20 de janeiro de 2008

Sutra do Coração

A Mãe Abençoada, o Coração da Perfeição da Sabedoria
EM SÂNSCRITO: Bhagavati Prajna Paramita Hridaya

FOI ASSIM QUE CERTA VEZ EU OUVI:

O Abençoado estava em Rajagriha, no Pico do Abutre, junto com uma grande comunidade de monges e uma grande comunidade de bodhisattvas, e, naquela ocasião, o Abençoado entrou na absorção meditativa sobre as variedades de fenômenos chamada de aparência do profundo. Naquele momento também, o nobre Avalokiteshvara, o bodhisattva, o grande ser, contemplou claramente a prática da profunda perfeição da sabedoria e viu que até mesmo os cinco agregados são vazios de existência intrínseca.
Então, por meio da inspiração do Buda, o venerável Shariputra falou ao nobre Avalokiteshvara, o bodhisattva, o grande ser, e disse: “Como deve treinar qualquer nobre filho ou nobre filha que deseje empenhar-se na profunda perfeição da sabedoria?”
Quando isso foi dito, o sagrado Avalokiteshvara, o bodhisattva, o grande ser, falou ao venerável Shariputra, e disse: “Shariputra, qualquer nobre filho ou nobre filha que deseje empenhar-se na prática da profunda perfeição da sabedoria deve ver claramente dessa maneira: deve ver perfeitamente que até os cinco agregados são vazios de existência intrínseca. Forma é vacuidade, vacuidade é forma; vacuidade não é outra coisa senão forma; forma também não é outra coisa senão vacuidade. Da mesma maneira, sensações, percepções, formações mentais e consciência são todas vazias. Portanto, Shariputra, todos os fenômenos são vacuidade; não têm características definidas; não nascem, não cessam; não são puros, não são impuros; não são deficientes, e não são completos.
“Portanto, Shariputra, na vacuidade não existe forma, sensações, percepções, formações mentais e consciência. Não existe olho, ouvido, nariz, língua, corpo e mente. Não existe forma, som, odor, sabor, textura e objetos mentais. Não existe elemento da visão, e assim por diante até o elemento da mente, inclusive o elemento da consciência mental. Não existe ignorância, não existe extinção da ignorância, e assim por diante até o envelhecimento e a morte e a extinção do nascimento e da morte. Do mesmo modo, não existe sofrimento, origem, cessação ou caminho; não existe sabedoria, obtenção, nem mesmo não-obtenção.
“Portanto, Shariputra, visto que os bodhisattvas não têm nada a obter, eles confiam nessa perfeição da sabedoria, e nela permanecem. Não tendo obscurecimento em suas mentes, eles não têm medo e, por irem completamente além do erro, alcançarão o final do nirvana. Todos os budas dos três tempos também obtiveram o pleno despertar da iluminação insuperável e perfeita ao confiar nessa profunda perfeição da sabedoria.
“Portanto, deve-se saber que o mantra da perfeição da sabedoria – o mantra do grande conhecimento, o mantra insuperável, o mantra igual ao inigualável, o mantra que subjuga todo o sofrimento – é verdadeiro porque não é enganoso. O mantra da perfeição da sabedoria é proclamado:

tadyatha gate gate paragate parasamgate bodhi svaha!

Shariputra, os bodhisattvas, os grandes seres, devem treinar na perfeição da sabedoria dessa forma.”
A seguir, o Abençoado saiu daquela absorção meditativa e elogiou o sagrado Avalokiteshvara, o bodhisattva, o grande ser, dizendo que isso é excelente. “Excelente! Excelente! Oh nobre filho, é exatamente isso; é exatamente assim que deve ser. Deve-se praticar a profunda perfeição da sabedoria exatamente como você revelou. Pois então até os tathagatas se regojizarão.”
Quando o Abençoado proferiu essas palavras, o venerável Shariputra, o sagrado Avalokiteshvara, o bodhisattva, o grande ser, junto com toda a assembléia, incluindo os mundos dos deuses, humanos, asuras e gandharvas, todos se regojizaram e saudaram o que o Abençoado havia dito.

sábado, 19 de janeiro de 2008

No Dharma

Minha conexão com o Buddhadharma me encanta, me alegra, me fascina.
Nesta semana, escrevi um bilhete para um amigo falando sobre os seis sensos dos sentidos conforme o budismo: visão, audição, olfato, paladar, tato e consciência. Não creio que ele tenha entendido muita coisa, hahaha, mas o tema tem estado muitíssimo presente em minha vida, dado que venho me dedicando a observar minhas experiências sensoriais e a atuação de minha consciência sensorial. Gostar, não gostar, ser indiferente. As reações sensoriais aos fenômenos. Escrevi o tal bilhete e no dia seguinte dou de cara com o assunto no livro que estou traduzindo! Noooossa!
Isso me acontece com freqüência. Penso em algum ensinamento, e ele aparece na obra budista que estou traduzindo naquele momento. É mágico!
Hoje assisti a um ensinamento de Sua Eminência Jetsun Kushok sobre o Prajnaparamita. As palavras de Sua Eminência foram como uma recapitulação do livro que estou traduzindo; fiquei lá ouvindo embasbacada, extasiada. E estar na presença dela e dos monges e lamas que a acompanhavam foi uma bênção, minha mente se sossegou e reduziu o ritmo samsárico desatinado. Vi bodhisattvas em atividade. Entre eles estava meu professor perfeito, minha conexão direta com o Buddhadharma, Lama Padma Samten. Não posso descrever a alegria que sinto cada vez que encontro meu lama.
Daqui a poucas horas receberei de Sua Eminência a iniciação do Prajnaparamita, o Sutra do Coração. Sou uma criatura muito afortunada, certamente acumulei mérito infinito em vidas passadas (e agora estou torrando tudo com meu relaxamento, affff...), pois tenho uma forte conexão com o Prajnaparamita. Tive a honra, o prazer e a felicidade de traduzir o livro de Sua Santidade o Dalai Lama sobre o Sutra do Coração. E essa é a prática básica do Cebb, o centro budista de meu lama. E agora receberei a transmissão oral e a iniciação de uma lama de enorme realização, emanação de Vajrayogini. É uma chuva de bênçãos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Target

Houve um tempo em que eu me irritava com os manés que me brindam com elogios duvidosos ou comentários tacanhos enquanto dou duro correndo pela rua ou pedalando. É chato ser gostosa!!! Hahaha, jura... O critério da turma verbosa não é beleza. Eles falam qualquer coisa pra qualquer uma que passar. Parei de me aborrecer por isso: não é nada pessoal.
Sou alvo de comentários simplesmente por ser mulher. Os caras se acham no direito de abordar mulheres sozinhas ou em grupos em que não haja um homem. Mentalidade machista. E, como disse meu grande amigo e confidente Alex: "Educação não é como sujeira, que todo mundo tem no corpo."
Uma conhecida comentou: "Se dizem o que dizem pra mulheres da nossa idade, imagina o que não ouvem as meninas..."
Eu e uma companheira de corrida dizíamos que iríamos agradecer os comentários favoráveis. "Gostou, querido? Muito obrigada! Acha que eu estou bem? Maravilha!"

Coroas preparadas e seu escudo masculino anticomentários


Os mais sensacionais são os elogios que arrasam com a pessoa. Um cara disse pra minha irmã quando ela corria no Parcão: "Pra tua idade, tu tá muito bem." Hahaha, ela podia voltar pra casa sem essa. Uma amiga foi chamada de "coroa preparada" por um garoto quando corria na Redenção. Pô, coroa é foda... Sempre achei esse termo péssimo. E agora que ele muito bem se aplica a mim, affffffff... é dose.
Pra evitar abalos na auto-estima ou comportamento anti-social, a coroa preparada aqui corre com o mp3 bombando. Ou tenta arrumar um acompanhante masculino, o que é uma dificuldade... Um homem do lado é a garantia de não ouvir nada. Meu treinador disse que vai mandar fazer uma burka pra mim. "Bem bonitinha, estampada com flores."
Mas nem tudo é abordagem rasteira, e as exceções valem ouro. A mais engraçada foi quando passei por dois garotos. Um deles me olhou, sorriu e disse pro amigo: "Ela é mais forte que eu!" Ficamos os três rindo. Já ouvi coisas realmente simpáticas de homens e mulheres, já vi olhares amistosos de admiração, sorrisos francos. Quando isso acontece, o dia fica mais radiante, e o treino fica mais leve.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Pé de chinelo

Sou uma mulher chinela. No doubt about it.
A bonita se puxou no salto alto ontem de tarde para uma sessão de shopping com a amiga. Grande compra de calcinhas, de todos os tipos, tamanhos e cores. Para todas as ocasiões.
Não é que a sandália detonou meu pé direito? Voltamos à casa da amiga, e troquei a sandália por um chinelo, para dar seguimento às compras. Mas já era. O pé fodeu master. Estou manca desde ontem de noite.
Claro que hoje fui meter peso e correr. Que nem farrista, enquanto estou mandando ver não sinto dor nenhuma, nunca. Vou pro treino toda ferrada, mas depois do aquecimento já é. Então, quando chego em casa... o barraco desaba.
A sandália maligna causou uma bolha gigante, de sangue, na sola do meu pé. Agora estou de meia e com um chinelo de inverno nesse calor boçal, tentando manter a bolha em um ambiente fofo. Uma outra bolha comum, acoplada a essa, já estourou. Uma beleza.
Enquanto isso, uma unha do pé esquerdo prepara-se para cair. Isso que uso tênis um ou dois números maiores. Afff.
Às vezes até minhas adoradas Havaianas, objeto de consumo favorito, esfolam a pele entre meus dedos. E sapatos são um perigo. Só posso usar quando não vou caminhar muito. Se é alto, corro risco de desabamento. Se é baixo, de solado fino, a sola do meu pé fica acabada.
Sexta vou na podóloga, e ela vai querer dar na minha cara.
Podólatras, tremei!

Mas uma coisa é certa: mesmo metendo o pé na jaca, garanto a pose em cima das tamancas. O barraco é chique.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Tarja preta

Getting myself bodied is getting me crazy. Eta vida loca!!! Haja estamina pra agüentar o tranco.
Mas a mulher aqui é tarja preta. Full charge. Tá sobrando.
Os dispostos se atraem e encontram-se de madrugada para animado intercâmbio no reino da safadeza. Safadistas juramentados, diria Odorico Paraguassu ao povo de Sucupira. Que fase!
Quanta diferença entre ter bossa e ser boçal. Educação não é como sujeira, que todo mundo tem no corpo. Sexyback também. E bom humor, esperteza, sagacidade e criatividade. Inteligência. Noção. Elegância. Savoir faire.
A palavra certa na hora certa. Do sutil pro pé na porta sem perder a graça e a classe. This is what do the trick. This is what it takes to make things get going.
A grande arte é conciliar a função com o treinamento, o trabalho, a casa e o sono. Haja disposição!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Ponto de vista

They say: Seeing is believing.
But the true question is:
What do you believe you've seen?

Dizem que é ver pra crer.
Mas a verdadeira questão é:
O que você acredita ter visto?

Spiritual Spy, música de um projeto chamado M-Seven. Só consegui duas faixas, essa e Invisible. Um clima melódico que muito combina com meu espírito empreendedor no estágio de warm-up ou chill-out.
E a frase é.


O que eu vejo? Brincadeira, diversão. Passatempo inocente. Exercício de liberdade e criatividade, isento de baixaria e complicação. Respeito e admiração. Sinceridade. Honestidade. Proximidade. Amizade. Carinho. Leveza. Intimidade descompromissada.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Conexão virtual

Tão longe, tão perto. Tão improvável, tão plausível. Tão distante e tão etéreo, e ao mesmo tempo tão penetrante, tão dentro, tão envolvente. Tão presente.
Três mil quilômetros e 24 anos pulverizados no universo virtual.
Internet. Msn. Orkut. E-mail.
Telefone celular. Mensagens de texto e multimídia.
Comunicação instantânea em um mundo atemporal.
A experiência de contato e intimidade no universo virtual reafirma a ausência de solidez da realidade convencional. Tudo vacuidade e luminosidade. Tudo uma simples criação da mente.
Na realidade convenciomal, a mente não aceitaria as distâncias, rechaçaria o contato, iria dar um fora e dar o fora. No mundo virtual, a mente mostra-se aberta e receptiva, curiosa, menos julgadora. E as coisas acontecem.
Minha mente une-se a outra, e ambas criam uma paisagem e abrem espaço para uma experiência inusitada de proximidade e troca. E eu me encanto e me dissolvo nesse sonho de duas mentes luminosas.
É uma tremenda diversão. Passatempo samsárico.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Corpo de luxo

Este corpo só me dá prazer! Às vésperas de completar 44 anos de uso, meu agregado físico é um objeto completamente eficiente. Pode não ser o veículo para a iluminação, mas está percorrendo o caminho desta vida numa ótima. Embora seja veículo de inúmeras ações não-virtuosas, também tem prestado serviços na geração de méritos.
Sinto-me muito confortável nesta pele. E desfruto intensamente do prazer de utilizar meu corpo para correr, caminhar, pedalar, comer, me movimentar. E para sentar e meditar. Para focar minha mente na respiração, nos batimentos cardíacos. Para praticar o Dharma!!! Para trabalhar. Os olhos vêem os textos que minha mente traduz, e meus dedos digitam.
Meu corpo gerou outro ser, e a gravidez foi uma tremenda experiência física, além de emocional. Curti cada estágio, e a dor do parto foi simplesmente uma cólica, que encarei na boa, sem nenhum tipo de anestesia. Nada de sofrimento, nada de mal-estar. Apenas fiquei cansada de fazer força. É trabalho de parto mesmo. Gostaria de gerar outro filho com este corpo, mas nunca tratei disso realmente.
Um amigo referiu-se a meu corpo como "corpo de luxo" este ano, e achei o máximo! É mesmo um corpo de luxo, forte e saudável, muito resistente, que raramente adoece. Associado a uma mente em desenvolvimento.
Quem está de aniversário? Vejo a data como algo relacionado mais a meu corpo que minha mente. Este corpo tem 44 anos, a mente existe desde tempos sem princípio, e um dia trocará de corpo outra vez. Talvez esse seja um dos motivos para eu não encanar com minha idade. Não é "minha". É do meu corpo. Ele está envelhecendo, não minha mente. De qualquer forma, meu corpo está envelhecendo com graça. E, francamente, temer a idade e o envelhecimento é tão tolo quanto temer a morte. É tudo samsara. Vai acontecer de qualquer jeito. Por outro lado, não vai acontecer – não da maneira sólida como se imagina – porque tudo é vazio. E luminosidade, brotando e se dissolvendo na base de tudo. Samantabhadra!


Lembrei de minhas duas máximas budistas favoritas:

"Se há solução, não há por que se preocupar. Se não há solução, não há por que se preocupar."

"Nunca se sabe o que virá primeiro: o dia de amanhã ou a próxima vida."

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A Aspiração de Samantabhadra


Ho
Tudo que aparece e existe, todo samsara e nirvana
Têm uma só base, dois caminhos e dois resultados.
É a exibição de percepção e ignorância.
Por meio da aspiração de Samantabhadra,
Possam todos ficar plenamente despertos
Na cidadela do dharmadhatu.

A base de tudo é não-composta,
Uma inexprimível vastidão auto-surgida
Sem os nomes “samsara” e “nirvana”.
Se isso é conhecido, o estado de buda é atingido.
Sem conhecer isso, os seres vagueiam pelo samsara.
Possam todos os seres dos três reinos
Conhecer a base inexprimível.

Eu, Samantabhadra
Conheço naturalmente essa base
Sem causa e condição.
Estou livre dos defeitos da sobreposição e da negação de exterior e interior.
Não sou obscurecido pela escuridão da desatenção.
Portanto, a auto-aparência é não-obscurecida.
Se a autopercepção permanece em seu lugar,
Não há medo nem mesmo caso o mundo tríplice seja destruído.
Não existe apego aos cinco objetos desejáveis.
Na percepção auto-surgida e não-conceitual,
Não há forma sólida nem cinco venenos.

A lucidez incessante da percepção
São as cinco sabedorias de uma só natureza.
Por meio do amadurecimento das cinco sabedorias
Surgiram as cinco famílias do primeiro Buda.
Da expansão adicional da sabedoria
Surgiram os 42 budas.
Como exibição das cinco sabedorias
Surgiram os 60 bebedores de sangue.
Desse modo, a percepção da base jamais tornou-se confusa.
Como eu sou o primeiro buda,
Por meio de minha aspiração
Possam os seres dos três reinos do samsara
Reconhecer a percepção auto-surgida
E expandir a grande sabedoria.

Minhas emanações são incessantes.
Eu manifesto bilhões inconcebíveis,
Exibidas como o que quer que dome os seres.
Por meio de minha aspiração compassiva,
Possam todos os seres dos três reinos do samsara
Escapar dos seis estados.

De início, para os seres atordoados,
A percepção não surgiu na base.
Essa obscuridade da inconsciência
É a causa da ignorância atordoada.
Dessa inconsciência
Emergiu a cognição aterrorizada, enevoada.
O eu, o outro e a animosidade nasceram disso.
Por meio da intensificação gradual do hábito
Começou a entrada seqüencial no samsara.
Os cinco kleshas venenosos (emoções perturbadoras) desenvolveram-se.
As ações dos cinco venenos são incessantes.
Portanto, visto que a base da confusão dos seres
É a ignorância desatenta,
Por meio da aspiração feita por mim, o buda,
Possam todos reconhecer a percepção intrínseca.

A ignorância inata
É a cognição distraída, desatenta.
A ignorância rotuladora
É sustentar que o eu e o outro são dois.
As duas ignorâncias, inata e rotuladora,
São a base da confusão de todos os seres.
Por meio da aspiração feita por mim, o buda,
Possa a obscuridade densa e desatenta
De todos os seres samsáricos ser dissipada.
Possa a cognição dualística ser esclarecida,
Possa a percepção ser reconhecida.

Dualismo é dúvida.
Da emergência da fixação sutil
O hábito grosseiro desenvolve-se gradualmente.
Comida, riqueza, roupas, lugares, companhias,
Os cinco objetos desejáveis e os parentes amados –
Os seres são atormentados pelo apego ao agradável.
Essa é a confusão mundana.
Não há fim para as ações do dualismo.
Quando o fruto da fixação amadurece,
Nascidos como pretas (fantasmas famintos) atormentados pelo anseio –
Como são tristes sua fome e sede.
Por meio da aspiração feita por mim, o buda,
Possam os seres desejosos
Não rejeitar o anseio do desejo
Nem aceitar a fixação do apego.
Pela cognição relaxada, assim como ela é,
Possa sua percepção assentar-se.
Possam eles atingir a sabedoria da discriminação.

Por meio da emergência de uma sutil cognição receosa
De objetos que aparecem externamente
Cresce o hábito da aversão.
Nascem a animosidade grosseira, violência física e matança.
Quando o fruto da aversão amadurece,
Quanto sofrimento há no inferno, fervendo e ardendo.
Por meio da aspiração feita por mim, o buda,
Quando a forte aversão surgir
Em todos os seres dos seis estados,
Possa ela ser relaxada sem rejeição ou aceitação.
Com a percepção assentando-se,
Possam os seres atingir a sabedoria da clareza.

Com a mente tornando-se inflada,
Nasce uma atitude de superioridade em relação aos outros,
De orgulho feroz.
Experiencia-se o sofrimento da disputa.
Quando o fruto dessa ação amadurece,
O ser nasce como um deus e experiencia morte e queda.
Por meio da aspiração feita por mim, o buda,
Possam todos os seres com mentes infladas
Relaxar na cognição como ela é.
Com a percepção assentando-se,
Possam eles realizar a igualdade.

Pelo desenvolvimento do hábito do dualismo,
Da agonia de louvar a si mesmo e denegrir os outros,
Desenvolve-se a competitividade briguenta.
Nascido como um asura (deus invejoso), morto e mutilado,
O ser cai no inferno como resultado.
Por meio da aspiração feita por mim, o buda,
Possam aqueles que brigam por causa da competitividade
Relaxar sua animosidade.
Com a percepção assentando-se,
Possam eles atingir a sabedoria da atividade desimpedida.

Por meio da distração da apatia desatenta,
Por meio de torpor, obscuridade, esquecimento,
Inconsciência, preguiça e atordoamento,
O ser vagueia como um animal desprotegido, é esse o resultado.
Por meio da aspiração feita por mim, o buda,
Possa a luz da atenção mental lúcida surgir
Na obscuridade do atordoamento entorpecido.
Possa a sabedoria não-conceitual ser atingida.

Todos os seres dos três reinos
São iguais a mim, o buda, na base de tudo.
Ela tornou-se a base da confusão desatenta.
Agora, eles envolvem-se em ações sem sentido.
As seis ações são como o atordoamento de sonhos.
Eu sou o primeiro buda.
Eu domo os seis tipos de seres por meio de emanações.

Por meio da aspiração de Samantabhadra,
Possam todos seres sem exceção
Ficar despertos no dharmadhatu.

A Ho
Daqui em diante, quando quer que um yogue poderoso,
Com percepção lúcida e sem atordoamento,
Fizer essa poderosa aspiração,
Todos os seres que a ouvirem
Estarão plenamente despertos dentro de três vidas.

Quando o sol ou a lua são agarrados por Rahu
Quando há clamor ou terremotos,
Nos solstícios ou na mudança de ano,
Se ele gerar a si mesmo como Samantabhadra
E recitar isso para que todos ouçam,
Todos os seres dos três reinos
Serão gradualmente libertos do sofrimento
E finalmente atingirão o estado de buda
Por meio da aspiração desse yogue.


Do Tantra da Grande Perfeição que Mostra a Sabedoria Penetrante de Samantabhadra, Capítulo 9, que apresenta a poderosa aspiração que torna impossível que todos os seres não atinjam o estado de buda.
Tradução a partir da versão em inglês. Possa ser de benefício!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A Prece de Kuntuzangpo


Ho! Tudo – aparência e existência, samsara e nirvana – tem uma base única, não obstante dois caminhos e duas fruições, e magicamente exibe-se como percepção ou ignorância.
Por meio da Prece de Kuntuzangpo, possam todos os seres tornarem-se budas, completamente perfeitos na esfera do dharmadhatu.

A base de tudo é não-composta, e a grande vastidão auto-surgida, além da expressão, não tem o nome de samsara, nem de nirvana. Realizando apenas isso, você é um buda; sem realizar isso, você é um ser vagando pelo samsara.
Rezo para que todos vocês, seres dos três reinos, possam realizar o verdadeiro significado da base inexprimível.

Eu, Kuntuzangpo, realizei a verdade dessa base, livre de causa e condição, que é apenas a percepção auto-surgida. Ela é isenta de nódoas por expressão externa e pensamento interno, afirmação ou negação, e não é manchada pela escuridão da desatenção mental. Portanto, essa exibição automanifesta é livre de defeitos.
Eu, Kuntuzangpo, permaneço como percepção intrínseca. Muito embora os três reinos venham a ser destruídos, não há medo. Não há apego às cinco qualidades desejáveis dos objetos dos sentidos. Na consciência auto-surgida, livre de pensamentos, não existe nem forma sólida, nem os cinco venenos.

Na clareza incessante da percepção, singular na essência, não obstante surge a exibição das cinco sabedorias.
Do amadurecimento dessas cinco sabedorias, emergem as cinco famílias do Buda e, por meio da vastidão de sua sabedoria, aparecem os 42 Budas pacíficos. Por meio do poder surgido das cinco sabedorias, manifestam-se os 60 Herukas irados.
Desse modo, a percepção da base jamais é equivocada ou errada.
Eu, Kuntuzangpo, sou o Buda original de tudo, e por meio dessa minha prece, possam todos vocês, seres que vagam pelos três reinos do samsara, realizar a percepção auto-surgida, e possa a grande sabedoria de vocês aumentar espontaneamente.

Minhas emanações vão se manifestar continuamente em bilhões de maneiras inimagináveis, aparecendo em formas para ajudar vocês, seres que podem ser treinados.

De início, vocês são seres deludidos porque não reconhecem a percepção da base.
Não têm em mente, portanto, que o que ocorre é delusão – o próprio estado de alheamento e a causa de extravio. Desse estado delusivo vem um súbito desfalecer e a seguir uma sutil consciência de medo oscilante.
Dessa oscilação surge uma separação do eu e a percepção dos outros como inimigos. Gradualmente, a tendência de separação se fortalece, e a partir disso inicia-se o círculo do samsara.

Desenvolvem-se então as emoções dos cinco venenos – as ações dessas emoções são infindáveis. Vocês carecem de percepção porque são desatentos, e essa é a base de seu extravio.
Por meio de minha prece, possam todos vocês reconhecer sua percepção intrínseca!

Ignorância inata significa desatenção mental e distração. Ignorância imputadora significa pensamentos dualistas em relação ao eu e aos outros.
Ambos os tipos de ignorância são a base da delusão de todos os seres.
Por meio da prece de Kuntuzangpo, possam todos vocês, seres que vagueiam pelo samsara, dissipar a névoa da ignorância, dissipar os pensamentos que se agarram à dualidade!
Possam vocês reconhecer sua própria percepção intrínseca!

Pensamentos dualísticos criam dúvidas; do apego sutil a essa mentalidade dualística, tendências dualísticas tornam-se mais fortes e mais densas. Comida, riqueza, roupas, casa e amigos, os cinco objetos dos sentidos e nossa amada família – todas essas coisas causam tormento ao criar anseio e desejo.
Todas essas são delusões mundanas; as atividades de se agarrar e fixar são infindáveis. Quando a fruição do apego amadurece, vocês nascem como fantasmas famintos, atormentados por cobiça e desejo, miseráveis, famintos e sedentos.
Por meio da prece de Kuntuzangpo, possam todos vocês, seres desejosos e luxuriosos que têm apegos, nem rejeitar o desejo anelante, nem acolher o apego aos desejos. Deixem a consciência relaxar em seu próprio estado natural, então sua percepção será capaz de se manter por si. Possam vocês obter a sabedoria do discernimento perfeito!

Quando objetos externos aparecem, surge a consciência sutil do medo. Desse medo, o hábito da raiva torna-se cada vez mais forte. Finalmente, vem a hostilidade, causando violência e assassinato. Quando a fruição dessa raiva amadurece, vocês sofrem no inferno, fervendo e ardendo.
Por meio da prece de Kuntuzangpo, possam vocês, seres dos seis reinos, quando a raiva intensa surgir para vocês, não rejeitá-la, nem aceitá-la. Em vez disso, relaxem no estado natural e obtenham a sabedoria da clareza!

Quando sua mente fica cheia de orgulho, surgem pensamentos de competição e humilhação. À medida que esse orgulho torna-se cada vez mais forte, vocês experienciam o sofrimento das contendas e do abuso. Quando a fruição desse karma amadurece, vocês renascem nos reinos dos deuses e experienciam o sofrimento da mudança e a queda para renascimentos inferiores.
Por meio da prece de Kuntuzangpo, possam vocês, seres que desenvolveram orgulho, deixar a consciência relaxar no estado natural. Então sua consciência será capaz de se manter por si.
Possam vocês consumar a sabedoria da equanimidade!

Por aumentar o hábito da dualidade, por louvar a si mesmo e denegrir os outros, sua mente competitiva conduz à inveja e à luta, e vocês renascem no reino dos deuses invejosos, onde há muita matança e injúria. O resultado dessa matança é que vocês caem no reino do inferno.
Por meio da prece de Kuntuzangpo, quando a inveja e os pensamentos competitivos surgirem, não se agarrem a eles como inimigos. Apenas relaxem em sossego, e então a consciência pode manter seu estado natural. Possam vocês consumar a sabedoria da ação desobstruída!

Por serem distraídos, descuidados e desatentos, vocês se tornam obtusos, confusos e esquecidos.
Por serem inconscientes e preguiçosos, vocês aumentam sua ignorância e a fruição dessa ignorância é vaguear em desamparo pelo reino animal.
Por meio da prece de Kuntuzangpo, possam vocês, seres que caíram na cova escura da ignorância, brilhar a luz da atenção mental e com isso consumar a sabedoria livre de pensamento.

Todos vocês, seres dos três reinos, na verdade são idênticos ao Buda na base de tudo. Mas seu entendimento equivocado da base causa seu extravio, por isso vocês agem sem meta.
As seis ações kármicas são delusão, como um sonho. Sou o Buda primordial, aqui para treinar as seis classes de seres por meio de todas as minhas manifestações.

Por meio da prece de Kuntuzangpo, possam todos vocês sem exceção atingir a iluminação no estado do dharmadhatu.

E Ho! Daqui em diante, quando quer que um yogue muito poderoso, com sua percepção radiante e livre de delusão, recitar essa prece muito poderosa, todos aqueles que ouvirem irão consumar a iluminação dentro de três vidas.

Durante um eclipse solar ou lunar, durante um terremoto ou quando a terra tremer, nos solstícios ou no Ano Novo vocês devem visualizar Kuntuzangpo.
E, se vocês rezarem em voz alta, de modo que todos possam ouvir, então os seres dos três reinos serão gradativamente liberados do sofrimento por meio da prece do yogue e por fim irão consumar a iluminação.


* Tradução a partir de uma versão em inglês.
Possa ser de benefício!

sábado, 1 de dezembro de 2007

Flamboyant

O verão é minha estação favorita. Gosto de calor, de sol forte, dos dias longos. Gosto muito do verão em Porto Alegre, daqueles dias insuportavelmente abafados. Gosto da cor dos dias de verão, gosto do cheiro. Sinto-me muito mais ativa e mais viva, e tudo ao meu redor parece mais intenso. E eu sem dúvida fico muito mais intensa.
Um pouco antes do começo do verão, vivo meus dias favoritos do ano, durante a florada dos flamboyants. Tenho paixão por flamboyants. Minha árvore favorita, originária de Madagascar e das ilhas do Índico. Nada mais natural uma mulher como eu, muito flamboyant, muito tropical, gostar de uma árvore com esse nome e aparência, que floresce em dezembro, meu mês predileto.
Porto Alegre tem vários flamboyants, conheço muitos deles e costumo visitá-los durante suas floradas. Um dos mais majestosos fica pertíssimo de minha casa, em uma esquina da Lucas de Oliveira. O Parcão tem dois maravilhosos, um deles fica no meu trajeto de corrida, adoro passar por baixo dele, embora tenha que saltitar por suas raízes salientes. Na Redenção, estou acompanhando o crescimento de um que, desde bem pequeno, enche-se de flores. As ruas perto da escola de minha filha estão pontilhadas de flamboyants, eu e ela nos deliciamos a observá-los na quarta passada, quando fui buscá-la.
Os flamboyants aguçam meus sentidos e, com isso, minha atenção. Nessa época, ando sempre ligada por onde passo, à cata dos flamboyants com suas flores flamejantes, que a mim parecem extremamente sensuais. Quanto mais avermelhados, mais me encantam.
O Buda despertou embaixo de uma figueira bodhi. Minha aspiração é um dia despertar embaixo de um flamboyant.