segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Meu altar

Essa é uma parte muito especial de minha casa.
Meu altar reúne imagens budistas de grande significado para mim - Samantabhadra, Vajradhara, Prajnaparamita, Sua Santidade o Dalai Lama, Padmapani e meu lama Padma Samten, além do Buda Shakyamuni - e é enfeitado com cristais e rochas. Faço prostrações diariamente, ao acordar e antes de deitar, e recito as preces de refúgio e de bodhicitta. Às vezes faço de má vontade, que vergonha, mas faço.
Houve períodos em que não fiz, em que deixava o altar fechado, às moscas. Mas espero que essa fase de relaxamento espiritual não volte a acontecer - até porque ela sempre acarreta oscilações em todo o resto de minha vida. Me sinto muito mais estável em meu estado natural de felicidade e alegria quando estou bem conectada à atividade espiritual. Tudo flui melhor - mesmo quando dá tudo errado, hehehe.
Mudei meu altar de lugar há cerca de dois meses. Antes ele ficava espremido em uma prateleira de uma estante de metal. Aí tive a brilhante idéia de espalhar tudo em cima da lareira.
No recuo da lateral esquerda, há duas estátuas de gatos, e um armarinho com pequenas estátuas de egípcios. Não fazem parte do altar, mas estão por ali, e me parece natural, tendo em vista o quanto gosto de gatos e o quanto fui egípcia (e ainda sou).
À direita, tenho o que um amigo denominou de "Reino da Mãe Oxum". Porque sou uma budista batuqueira, tenho uma forte conexão com a Nação e com os orixás, especialmente com Oxum, senhora minha mãe. No recanto dedicado à Senhora Mãe coloquei uma fonte. Adoro fontes, gosto do som e do movimento da água. Ver a água correr, até no chuveiro, me conecta instantaneamente ao presente e à impermanência do samsara, à impossibilidade de se agarrar a qualquer experiência. A fonte tem tudo a ver com Oxum, dona da água doce, das cachoeiras. O som dessa fonte me faz lembrar do riso de Oxum numa cachoeira e do tilintar de suas muitas pulseiras enquanto ela dança, se penteia e se olha no espelho.
Meu altar fica no ambiente onde estão minha cama e meu escritório. Durmo e trabalho com essa energia.

sábado, 25 de outubro de 2008

Chove chuva

Outro sabadão chuvoso. Da última vez que postei aqui estava mais ou menos a mesma coisa.
E eu estava mais ou menos no mesmo mood preguiçoso, marcha-lenta.
Mas aconteceram montes de coisinhas desde então.
Uma delas foi a geral médica a que me submeti depois de uns dias me muito mal-estar, iniciados exatamente na semana do post anterior. Fiquei ultra-indisposta, não corri durante uma semana inteira, trabalhei pouco, estava me arrastando. Os exames mostraram que meu corpo estava apenas refletindo um surto de instabilidade emocional/espiritual.
No emocional, a doença de minha mãe estava taxando meus nervos severamente. Desde abril/maio eu estive tão ocupada tratando de questões práticas que nunca me permiti sentir a dor e o medo que a situação me causa. A pessoa que cuidou de mim nessa vida não vai mais cuidar, agora eu cuido dela. Houve a inversão de papéis, me tornei a mãe de minha mãe. Isso desencadeou uma espécie de síndrome de pânico. Mas o medo de morte não era do ego em si, era o medo da morte de minha mãe. Medo infantil de ficar sozinha, desamparada. Além do medo adulto de ter que dar conta de cada vez mais coisas. Em uma única sessão com minha ex-terapeuta consegui integrar tudo isso e dissipar a enorme pressão interna. Foi olhar pra dentro de mim e tudo clareou.
No espiritual foi a mesma coisa. Olhar pra dentro. Ouvir meu coração e minha intuição.

sábado, 11 de outubro de 2008

O original

Uma coisa leva a outra.
De Chris Isaak, me atirei nos posts de Roy Orbison no youtube. Isso sim é cantar.
Sim, sim, eu gosto de coisas muito duvidosas, umas cantorias que estão mais pra miado, mugido, latido, cacarejo, grasnado. Mas tenho noção pra discernir uma coisa da outra. :)

The devastatingly handsome

Saí da cama nesse sábado chuvoso em que tenho 18km para fazer sem a presença de mi amor de treinador, que foi pro Rio de Janeiro acompanhar parte de sua equipe na meia-maratona, e fiz minhas prostrações com "Piece of Me", de Britney Spears, ao fundo (estou num surto com essa música). Estava no i-Tunes, na minha coleção de pop, e logo depois veio "Primeiro Instante", de Jimi Joe, que ouvi duas vezes direto, amo, amo. Enquanto esquentava o leite em minha nova e fabulosa aquisição - um microondas!!!, coisa que nunca havia tido até segunda-feira passada - ouvi "The Only One I Know", dos Charlants", e "Would I Lie to You Baby", de Charles & Eddie.
E aí veio ele, um de meus favoritos ever. "Ladies and gentlemen, the devastatingly handsome Chris Isaak!" Foi como ele foi anunciado num show em homenagem a Smokey Robinson, onde cantou "My Girl". Devastadoramente bonito, de fato. E devastadoramente adorável. "My Girl" eu vi no youtube há pouco, no i-tunes ouvi a preciosa "One Day", do álbum "Always Got Tonight", que só tenho no computador, e que fiquei ouvindo até entrar no youtube pra pegar um vídeo pra postar aqui.
Meu ex-marido sempre diz que não tenho o direito de gostar de Chris Isaak e Roy Orbison porque de modo geral abomino o rock, o folk e whatever dos anos 60/70, com exceção de Led Zeppelin e Jimi Hendrix, e sou muito mais ligada em música negra e eletrônica. Mas a questão é que sou apaixonada pela música americana dos anos 50 pra trás. E Chris Isaak é muito anos 50.
Gosto de Chris Isaak e Roy Orbison pelos mesmos motivos: a simplicidade, a suavidade com que cantam, parece uma coisa tão natural pra eles. Eles têm um jeito singelo, meigo, doce, cantam suas músicas de corações partidos e amores perdidos com uma voz que vem da alma. Soam sinceros, verdadeiros.
Essas duas canções de Roy Orbison cantadas por Chris Isaak ilustram exatamente o que eu admiro em ambos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Macaco louco

Fiz o post sobre shamata hoje de manhã, após ter sentado (em tentativa de meditação) por uns 15 minutos. A tradução do texto de Kalu Rinpoche eu havia feito ontem à noite.
Depois fui treinar. E lá na pista o macaco começou a saltitar loucamente, carregando o elefante. O treino foi pesadíssimo - o mais pesado que fiz até hoje, 10 x 600m + 200m. E ali pela metade a mente começou a surtar. Ficava achando que não ia dar, pensava: "Bem, vou fazer mais lento." Mas fiz tudo dentro, não quebrei nenhum tiro, apesar das micagens mentais. A mente elaborava uma paisagem, mas o corpo estava noutra. E o corpo não ficaria tão exausto se a mente não se agitasse tanto e não desperdiçasse tanta energia jogando contra.
Depois dessa performance mental, entendi por que minha atenção havia se voltado para o diagrama de shamata há uns dias. É exatamente do que estou precisando.

Shamatha

As imagens e o texto abaixo descrevem a meditação shamatha, ou permanência serena, que consiste basicamente em liberar a mente da agitação e da obtusidade, trazendo-a para um estado de repouso pacífico e alerta. O texto é do livro de Kalu Rinpoche.
Estou numa fase de domar a mente, seja ela um elefante ou um cavalo. :)


Essa ilustração é a reprodução de um desenho tibetano que representa nove cenas, os nove estágios do caminho de shamatha.
Há dois personagens: o homem, ou sujeito meditante, o observador; e o elefante, que representa sua mente. Para desenvolver shamatha, a mente usa duas ferramentas: a atenção e a recordação. A machadinha afiada representa a acuidade da atenção vigilante, e a corda com um gancho é a lembrança da prática. Visto que muitas distrações interrompem seu estado alerta e vigilante, o meditante deve retornar a ele por meio de lembranças constantes. A vigilância é a acuidade na base da meditação, e a recordação assegura sua continuidade. O estado de shamatha tem dois obstáculos principais: o primeiro é a agitação ou dispersão criada pela fixação em pensamentos e emoções passageiros; o segundo é o torpor ou moleza, a obtusidade mental. O torpor é representado pela cor preta do elefante, e a agitação pelo macaco. O fogo que diminui ao longo do caminho representa a energia da meditação. Conforme avançamos, a prática requer menos e menos esforço.
As seis curvas ou voltas no caminho marcam seis platôs sucessivamente dominados pelas seis forças da prática: ouvir as instruções, assimilá-las, lembrar-se delas, vigilância, perseverança e hábito perfeito. Ao lado da estrada há diferentes objetos: um lenço, algumas frutas, uma concha cheia de água perfumada, pequenos címbalos e um espelho, representado os objetos dos sentidos: objetos tangíveis, sabores, odores, sons e formas visuais que distraem o meditante, que se desvia do caminho de shamata ao ir atrás deles.

(1) Na base da ilustração, no primeiro estágio, há uma distância bem grande entre o meditante e sua mente. O elefante da mente é guiado pelo macaco, ou sua agitação. O grande fogo mostra que a meditação requer um monte de energia. Os obstáculos são os piores possíveis; tudo está preto.

(2) No segundo estágio, o meditante chega mais próximo do elefante devido à atenção. O macaco — a agitação — ainda conduz a mente, mas o ritmo diminui. A obtusidade e a agitação diminuem; algum branco infiltra-se no preto do elefante e do macaco.

(3) No terceiro estágio, o meditante não mais caça a sua mente: agora estão cara a cara. O macaco ainda está à frente, mas não conduz mais o elefante. O contato entre o meditante e a mente é estabelecido pela corda da recordação. Ocorre uma forma sutil de obtusidade, representada pelo coelhinho. A escuridão da obtusidade e da agitação diminui.

(4) No quarto estágio, o progresso torna-se mais claro, e o meditante chega ainda mais perto do elefante. A brancura do macaco, do elefante e do coelho aumenta. A cena torna-se mais calma.

(5) No quinto estágio, a situação inverte-se. O meditante conduz o elefante da mente com a atenção e recordação contínuas. O macaco não conduz mais, porém o coelho ainda está lá. A cena adquire ainda mais clareza. Em uma árvore próxima, um macaco branco pega uma fruta branca. Isso representa a atividade da mente de se engajar em ações positivas. Apesar de essas ações normalmente precisarem ser cultivadas, ainda há distrações no contexto da prática de shamata; é por isso que a árvore é preta e está fora do caminho.

(6) No sexto estágio, o progresso está mais definido. O meditante conduz, e a recordação é constante; ele não tem mais que colocar sua atenção na mente. O coelho se foi, e a situação torna-se cada vez mais clara.

(7) No sétimo estágio, a cena torna-se muito pacífica. A caminhada não mais requer direção. A cena torna-se quase que completamente transparente. Umas poucas manchas pretas indicam pontos de dificuldade.
(8) No oitavo estágio, o elefante anda domado com o meditante. Não há virtualmente mais nenhum preto, e a chama do esforço desapareceu. A meditação tornou-se natural e contínua.
(9) No nono estágio, mente e meditante estão completamente em repouso. São como velhos amigos acostumados a estar juntos calmamente. Os obstáculos desapareceram, e shamatha é perfeita.
As cenas seguintes, sustentadas pelo raio de luz que emana do coração do meditante, representam a evolução da prática no coração desse estágio de shamatha. A realização de shamatha é caracterizada pela experiência de alegria e radiância, ilustrada pelo meditante voando ou cavalgando sobre as costas do elefante.
A última cena refere-se às práticas combinadas de shamatha e vipashyana. A direção é invertida. Mente e meditação estão unidas; o meditante senta-se escarranchado na mente. O fogo revela uma nova energia, a da sabedoria, representada pela espada flamejante da sabedoria transcendente, que corta os dois raios negros das aflições mentais e da dualidade.

Kalu Rinpoche, Luminous Mind: The Way of the Buddha (Mente Luminosa: O Caminho do Buda)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

30 de Setembro - Dia do Tradutor

Foi ontem, mas eu estava ocupadíssima - concluindo uma tradução.
Eu nem sabia dessa data, mas um amigo mandou e-mail me cumprimentando.
Como tradutora, quero ser como Marpa!!!
Marpa Lotsawa, ou Marpa o Tradutor (1012-1097), foi um dos grandes lamas budistas tibetanos. Visitou a índia várias vezes, e lá recebeu transmissões de ensinamentos de Naropa e Maitripa, entre outros. Foi o sucessor de Naropa, e teve o grande Milarepa como discípulo.
Marpa era de uma família abastada, e não seguiu a vida monástica; manteve-se casado e cuidando dos negócios.
Marpa foi fundamental na transmissão do Buddhadharma no Tibete, dedicando-se por muitos anos a traduzir as escrituras budistas do sânscrito para o tibetano.

domingo, 28 de setembro de 2008

Observação da paisagem

Na semana passada, vi um antigo objeto de desejo/apego. Foi um acontecimento totalmente fortuito, irrelevante em termos práticos, mas causou uma ventania semelhante à que agitou a cidade nesse início de primavera.
A mente cavalga sobre ventos, diz Lama Yeshe no livro que traduzi. E minha mente esteve prestes a sair ventando sabe-se lá por quais veredas, como o cavaleiro da história budista ali embaixo, que se deixa conduzir pelo cavalo desembestado. Mas não dessa vez. Fiquei firme em meio à ventania, puxei as rédeas e fiz o cavalo ir a trote para poder observar a paisagem e decidir um rumo. Essa tem sido uma experiência de observação do apego/desejo.
Percebi que não tenho apego pelo ex (e deve ser por isso que nunca tive ciúme, coisa que sempre me intrigou), e sim pela experiência pessoal, interna, de que desfrutei em função dele. Ou seja, é um apego por determinados tipos de ventos... Concluí que não sinto falta do ex, mas dos ventos, das sensações. E essas sensações sob certo aspecto independem dele, são projeções de minha mente, que atribuiu características a uma base. A famosa imputação, ou rotulamento, dos fenômenos pela mente dualista.
O que me manteve apegada a essa experiência específica sempre me pareceu maior do que uma mera vertigem samsárica. Vi possibilidades de usar esse relacionamento - ou as sensações que ele me proporcionava - na prática budista. Usar a energia do desejo de modo positivo. Espero descobrir se tenho como fazer isso.

sábado, 27 de setembro de 2008

Quem leva quem

Um homem está à beira da estrada, e de repente vê um cavalo aproximando-se num galope desenfreado. Ele pergunta ao cavaleiro: "Aonde você vai com tanta presssa?" Este responde ao passar: "Não sei, pergunte ao cavalo!"
Historinha clássica do budismo para ilustrar a agitação mental. Ou aprendemos a controlar a mente, ou somos levados de arrasto por nossos padrões baseados na ignorância, desejo e ódio, os três venenos principais, as fontes de toda lambança.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Samsara noturno

O tantra compara as experiências de morte, bardo e renascimento às de sono, sonho e despertar. Eu estava relendo sobre isso ontem, ao revisar a tradução do livro de Lama Yeshe.
E eis que minha noite foi agitada por três sonhos, o primeiro deles muito perturbador. Há um tempo, um sonho como esse causaria a sensação de pesadelo. Mas agora não mais. Durante o sonho e ao despertar, consigo manter um nível de calma e lucidez que evitam a sensação de sufoco, de estar sendo levada de roldão. A experiência se desenrola, mas consigo manter certo controle sobre ela, e principalmente sobre mim. Meu autocontrole é experienciado como destemor, eu simplesmente olho a situação, decido o que fazer e parto pra ação sem hesitar. Há um distanciamento emocional, eu não me deixo levar pelas sensações de aflição e medo. O termo que me ocorre é frieza, mas não me parece exato. Talvez firmeza.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Eu no meu pior

Minha pessoa e minha prática espiritual melhorariam muito se eu não dirigisse. Meu comportamento no trânsito é uma vergonha. Não tanto nas ações de corpo (deve ser porque não ando armada...), mas nas de fala e mente... que desastre! Os ventos tornam-se um furacão de impaciência e ódio.
Estou há anos tentando melhorar, mas que dificuldade. Zero paciência. Tento recitar mantras pra ficar mais centrada, e um dia desses interrompi a recitação pra xingar um motorista. Francamente... Mas essa foi tão de última que desde então estou mais pacífica. Ou seja, dois dias.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Lunática

Agora meu blog está equipado com um link para as fases da Lua.
Vi isso de manhã no site do Instituto Caminho do Meio, do meu lama. Aí fui atrás pra colocar aqui também, porque sou ligada na Lua e sinto nitidamente sua influência em minha vida.
Ontem de noite saí rapidamente pro pátio e dei de cara com uma Lua enorme, branca e brilhante acima de minha cabeça. Foi um momento de pureza, eu havia acabado de lavar a cabeça e me senti inundar de luar.
As últimas semanas foram tão tumultuadas que eu havia esquecido da Lua - sem falar do tempo encoberto, que acaba desviando meu olhar do céu. E ontem, depois de uma manhã ensolarada e radiante, topei com a Lua a cintilar por cima do meu telhado.
Fase de expansão, de colheita.

domingo, 14 de setembro de 2008

De cabeça feita

Acordei às 6h30 espontaneamente. Se estivesse cansada, não iria correr. Mas percebi que estava desperta e disposta. Cobri a cabeça e fui. Afinal, tudo que fiz nas últimas três semanas é exatamente para isso: para me agilizar e me soltar. Para me governar.
Fiz a coisa certa. E corri bem num lindo dia de sol.
Minha filha foi comigo, e isso só aumentou a sensação de plenitude.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Rainha das Dakinis

Essa é Vajrayogini, ou Vajravarahi, consorte de Heruka Chakrasamvara e a mais importante das dakinis tântricas. Ela é Sarva-buddha-dakini, a dakini que é a essência de todos os Budas.
Vajrayogini é de cor vermelha radiante, seu corpo arde com o calor da chama yogue e está cercado pelas labaredas da sabedoria. Seu cabelo revolto cai solto pelo pescoço e costas; seu rosto tem uma expressão semi-irada. Ela está nua, adornada com ossos humanos. Seu colar de crânios corresponde às 16 vogais e 34 consoantes do alfabeto sânscrito, simbolizando a purificação da fala.
Na mão direita ela segura uma faca de tosquiar com um punho de vajra - um cutelo vajra - que usa para cortar os apegos. Na mão esquerda ela traz uma taça de crânio cheia de sangue ou mahasukha (a grande bem-aventurança), que serve como vinho a seus devotos. Sobre o ombro esquerdo ela apóia um khatvanga ou cajado mágico. Ela dança em cima de dois cadáveres, o que representa seu domínio sobre o ego e a ignorância.
Vajrayogini com freqüência é associada ao triunfo sobre a ignorância e sobre os excessos. Sua prática é considerada muito adequada para aqueles com forte apego desejoso.
Vajrayogini é uma deidade de meditação tântrica. Ela simboliza:
- o aspecto feminino plenamente iluminado, indômito, ardente e energético de um Buda (shakti/kundalini);
- o aspecto de sabedoria que conduz ao estado de Buda;
- como dakini, é a guia compassiva e apaixonada e o aspecto inspiracional que conduz o praticante à iluminação.

Dakinis são a representação feminina da energia iluminada. Em tibetano, o termo é khandroma, que significa aquela que atravessa o céu, ou aquela que se move no espaço. A tradução poética é dançarina dos céus, ou andarilha dos céus. As dakinis dançam no céu azul e límpido de shunyata, a vacuidade.
Dakini é a energia em movimento na vacuidade, que é a base de onde brotam e onde se dissolvem todos os fenômenos.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Uma coisa só

Vajradhara é a palavra budista de que mais gosto. Ou a que mais gosto de dizer, aquela que mais ocupa minha mente, isso em termos de surgir do nada, de brotar espontaneamente. Quando vi o termo vajradhara pela primeira vez tive o clic. Naquela ocasião, vajradhara não referia-se ao Buda Vajradhara, mas era o título honorífico de um guru de grande realização.
O mais notável é que antes de conhecer a palavra eu já conhecia uma representação de Vajradhara e sua consorte Vajradhatvishvari - essa ali de cima, aqui em detalhe:E essa imagem me tantaliza na mesma medida que as representações de Samantabhadra e sua consorte Samantabhadri. Para mim o budismo é essencialmente Samantabhadra e Vajradhara.
Eu só uni a palavra vajradhara à deidade Vajradhara um dia em que estava com meu lama e mostrei a imagem a ele e perguntei se poderia ser Samantabhadra, como dizia no site de onde a capturei. O lama disse que não, pois Samantabhadra (ou Kuntuzangpo) é sempre representado nu e sem adornos. Ele disse que provavelmente tratava-se de Vajradhara, mas não entramos em muitos detalhes. Ele apenas disse que no fundo Samantabhadra e Vajradhara são a mesma coisa, o Buda Primordial.
O assunto ficou por isso até hoje, quando, por ter resolvido postar algo sobre Heruka Chakrasamvara, acabei me entretendo a olhar imagens e aí fui ler mais sobre Vajradhara (também mencionado no livro de Lama Yeshe que estou traduzindo).
E então pela primeira vez caiu a ficha: a palavra que vivo repetindo e as imagens que mais admiro e volta e meia estou olhando são tudo a mesma coisa!!! Extraordinário, como diz meu amado lama.

Devaneio crepuscular

Ao entardecer é comum me bater uma melancolia, uma nostalgia, uma languidez, uma saudade... É a sensação mais difusa que conheço, porque não se refere a nada nem ninguém especificamente. A sensação manifesta-se espontaneamente, às vezes associada a alguma pessoa com quem eu esteja envolvida de momento, mas é muito mais profunda. Talvez seja melhor dizer que é muito mais antiga do que qualquer coisa ou pessoa de que eu me lembre. Parece uma sensação ancestral.
Esse devaneio é a essência do intangível em mim.
Vontade de estar em casa. Mas que casa?
Bem, em termos materiais tenho o bom karma de morar em um lugar de que gosto muito. Hoje, quando veio a sensação, fui pro terraço e fiquei esparramada numa cadeira, cercada por meus gatos e minhas plantas. É a minha casa nesse momento dessa vida. E é uma casa onde me sinto confortável, tranqüila. É a primeira casa de que gosto nessa vida. A primeira casa onde me sinto em casa. Mas ainda não é "a" casa, creio.
Tenho a sensação de que "a minha casa" ficará perto d'água. Não sei de rio ou mar. O que sei é que, sempre que me sinto desanimada ou superficialmente infeliz, tenho vontade de ir pra perto d'água. Em geral tenho vontade de pegar o carro e ir pra Ipanema pela avenida à beira-lago. Já fiz isso algumas vezes. Simplesmente vou até lá, fico uns minutos e volto. Preciso olhar a água, uma grande massa líquida.
Outras vezes sinto um desejo imenso de ir olhar o mar. Nunca fui porque aí é muita mão, muito gasto, muito tempo... Além disso, o mar ideal está ainda mais longe que o de Pinhal ou Tramandaí. É o mar da Massambaba, perto de Cabo Frio. Praia aberta, mar grosso, revolto, gelado. E azul. Nesse vídeo a Massambaba está bem mais dócil do que no dia em que a vi.

Heruka Chakrasamvara

Estou traduzindo um livro de Lama Yeshe sobre práticas tântricas. Heruka Chakrasamvara era a deidade principal de Lama Yeshe. Embora eu tenha um conhecimento extremamente limitado, ADORO as imagens tântricas.
Nessa, Heruka Crakrasamvara, deidade irada, de cor azul, com doze braços e três rostos, está abraçado e em união sexual com sua consorte Vajravarahi, de cor vermelha. Ele veste uma pele de tigre, de pé em meio a chamas de sabedoria, e pisoteia dois cadáveres.
Heruka segura vários atributos nas mãos, simbolizando suas perfeições mágicas. Os dois braços principais seguram o vajra e o gantha (cetro e sino), demonstrando que ele superou a dualidade.
Como uma emanação do Buda Akshobhya (elemento água), a deidade transforma a energia do ódio em sabedoria iluminada.
Acima de Heruka Chakrasamvara estão os bodhisattvas Manjushri, Chenrezig e Vajrapani; abaixo, Paldem Lhamo, a Deidade Protetora de Heruka e os esqueletos dançarinos Citipati.
Que possa ser de benefício!