quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Shamatha

As imagens e o texto abaixo descrevem a meditação shamatha, ou permanência serena, que consiste basicamente em liberar a mente da agitação e da obtusidade, trazendo-a para um estado de repouso pacífico e alerta. O texto é do livro de Kalu Rinpoche.
Estou numa fase de domar a mente, seja ela um elefante ou um cavalo. :)


Essa ilustração é a reprodução de um desenho tibetano que representa nove cenas, os nove estágios do caminho de shamatha.
Há dois personagens: o homem, ou sujeito meditante, o observador; e o elefante, que representa sua mente. Para desenvolver shamatha, a mente usa duas ferramentas: a atenção e a recordação. A machadinha afiada representa a acuidade da atenção vigilante, e a corda com um gancho é a lembrança da prática. Visto que muitas distrações interrompem seu estado alerta e vigilante, o meditante deve retornar a ele por meio de lembranças constantes. A vigilância é a acuidade na base da meditação, e a recordação assegura sua continuidade. O estado de shamatha tem dois obstáculos principais: o primeiro é a agitação ou dispersão criada pela fixação em pensamentos e emoções passageiros; o segundo é o torpor ou moleza, a obtusidade mental. O torpor é representado pela cor preta do elefante, e a agitação pelo macaco. O fogo que diminui ao longo do caminho representa a energia da meditação. Conforme avançamos, a prática requer menos e menos esforço.
As seis curvas ou voltas no caminho marcam seis platôs sucessivamente dominados pelas seis forças da prática: ouvir as instruções, assimilá-las, lembrar-se delas, vigilância, perseverança e hábito perfeito. Ao lado da estrada há diferentes objetos: um lenço, algumas frutas, uma concha cheia de água perfumada, pequenos címbalos e um espelho, representado os objetos dos sentidos: objetos tangíveis, sabores, odores, sons e formas visuais que distraem o meditante, que se desvia do caminho de shamata ao ir atrás deles.

(1) Na base da ilustração, no primeiro estágio, há uma distância bem grande entre o meditante e sua mente. O elefante da mente é guiado pelo macaco, ou sua agitação. O grande fogo mostra que a meditação requer um monte de energia. Os obstáculos são os piores possíveis; tudo está preto.

(2) No segundo estágio, o meditante chega mais próximo do elefante devido à atenção. O macaco — a agitação — ainda conduz a mente, mas o ritmo diminui. A obtusidade e a agitação diminuem; algum branco infiltra-se no preto do elefante e do macaco.

(3) No terceiro estágio, o meditante não mais caça a sua mente: agora estão cara a cara. O macaco ainda está à frente, mas não conduz mais o elefante. O contato entre o meditante e a mente é estabelecido pela corda da recordação. Ocorre uma forma sutil de obtusidade, representada pelo coelhinho. A escuridão da obtusidade e da agitação diminui.

(4) No quarto estágio, o progresso torna-se mais claro, e o meditante chega ainda mais perto do elefante. A brancura do macaco, do elefante e do coelho aumenta. A cena torna-se mais calma.

(5) No quinto estágio, a situação inverte-se. O meditante conduz o elefante da mente com a atenção e recordação contínuas. O macaco não conduz mais, porém o coelho ainda está lá. A cena adquire ainda mais clareza. Em uma árvore próxima, um macaco branco pega uma fruta branca. Isso representa a atividade da mente de se engajar em ações positivas. Apesar de essas ações normalmente precisarem ser cultivadas, ainda há distrações no contexto da prática de shamata; é por isso que a árvore é preta e está fora do caminho.

(6) No sexto estágio, o progresso está mais definido. O meditante conduz, e a recordação é constante; ele não tem mais que colocar sua atenção na mente. O coelho se foi, e a situação torna-se cada vez mais clara.

(7) No sétimo estágio, a cena torna-se muito pacífica. A caminhada não mais requer direção. A cena torna-se quase que completamente transparente. Umas poucas manchas pretas indicam pontos de dificuldade.
(8) No oitavo estágio, o elefante anda domado com o meditante. Não há virtualmente mais nenhum preto, e a chama do esforço desapareceu. A meditação tornou-se natural e contínua.
(9) No nono estágio, mente e meditante estão completamente em repouso. São como velhos amigos acostumados a estar juntos calmamente. Os obstáculos desapareceram, e shamatha é perfeita.
As cenas seguintes, sustentadas pelo raio de luz que emana do coração do meditante, representam a evolução da prática no coração desse estágio de shamatha. A realização de shamatha é caracterizada pela experiência de alegria e radiância, ilustrada pelo meditante voando ou cavalgando sobre as costas do elefante.
A última cena refere-se às práticas combinadas de shamatha e vipashyana. A direção é invertida. Mente e meditação estão unidas; o meditante senta-se escarranchado na mente. O fogo revela uma nova energia, a da sabedoria, representada pela espada flamejante da sabedoria transcendente, que corta os dois raios negros das aflições mentais e da dualidade.

Kalu Rinpoche, Luminous Mind: The Way of the Buddha (Mente Luminosa: O Caminho do Buda)