sábado, 1 de dezembro de 2018

Delonix regia

Este ano elas voltaram com tudo.
Inclusive a minha favorita, a rainha do Parcão, cujas flores trago tatuadas.
Enchem meus olhos, coração e mente de cor.








sábado, 6 de outubro de 2018

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O semeador de palavras - 3 - versão final

Eduardo desce do carro de aplicativo e corre escada acima para dentro do prédio da faculdade de arquitetura. Passa o cartão de identificação na roleta de acesso, sobe ligeiro os três lances da escadaria até a sala 409. Uma folha de papel A4 colada na porta indica: “Curso de escrita criativa”. Cabelo e roupas respingados, os All Star molhados, checa a hora no celular e entra de mansinho na sala.
O professor interrompe o que estava dizendo para dar boas-vindas. Eduardo se acomoda numa cadeira perto da porta. Os olhos azuis dão uma rápida sondada no resto da turma. Pouca gente naquele enclave das humanas em território das exatas. Nove com ele – quatro mulheres, cinco homens, espalhados em um semicírculo irregular na sala mal-ajambrada, três paredes ocupadas por estantes do chão ao teto repletas de maquetes, na outra o quadro, uma mesa enorme na lateral direita, cadeiras pelo restante do espaço. Enquanto o professor lê um informativo enfadonho sobre o curso, Eduardo cata o bloco e o estojo na mochila. A chuva martela o concreto e o metal do lado de fora. A pedido do professor, os alunos começam a se apresentar. Três do jornalismo, um da filosofia, uma do direito, três das letras. E ele.
“Estudo agronomia”, diz Eduardo, deixando exposta a timidez. “Gostava de escrever no ensino médio. Só escrevia por obrigação, mas gostava. Fiquei sabendo desse curso e me inscrevi. Não é pra publicar nem nada. Só pra escrever mesmo.”
“Vai semear palavras”, brinca o professor.

A lua cheia surge de dentro do mar, rasgado por uma faixa de reflexo prateada. De dentro do carro, Eduardo observa calado a paisagem deslizante. Pede para o motorista desligar o ar e abrir os vidros. Rodam assim por mais vinte minutos.
“Chegamos”, diz o motorista. “Vou estacionar aqui perto. Me avise quando quiser que venha buscá-lo.” 
Eduardo agradece e desembarca. Para na calçada, de frente para a porta larga e as duas vitrines enormes da livraria. Os olhos azuis tímidos observam a movimentação lá dentro. Muita gente, o ruído das conversas e a música ambiente escoam-se até a rua com a luz de tom quente que compõe o ambiente sofisticado da loja.
“Chegou ele!”, exclama a mulher que surge na porta com um largo sorriso na boca e nos olhos, as pernas compridas e ágeis a passos firmes, o vestido de seda floral ondulando da cintura para baixo. Atrás dela, três homens, dois deles de mãos dadas com suas acompanhantes. “Susana”, cumprimenta Eduardo em tom afável. O comitê de recepção exibe dentes de vários formatos e tons em sorrisos de genuína alegria.
No instante seguinte Eduardo vê-se envolto em saudações, apertos de mão, abraços, beijos. Fotógrafos e fãs com celular para as selfies formam um pequeno cortejo que serpenteia livraria adentro, dissolvendo-se diante da mesa e cadeira reservadas para o escritor. Eduardo acomoda-se, pega a caneta do bolso do blazer. Diante dele, as pessoas que lotam a livraria começam a se organizar em uma fila comprida e compacta. O mestre de cerimônias anuncia o início da sessão de autógrafos de O semeador de palavras, romance de estreia do jovem autor, sucesso de público e crítica, que começará a ser filmado no outono.

domingo, 16 de setembro de 2018

Vergonha planetária

A extrema direita brasileira - ou seja o que for isso - bateu novo recorde de estupidez. Surreal. Por um lado é cômico. Por outro - pelo que realmente importa - é trágico. E assustador. Uma horda ignorante e agressiva, refratária à verdade, à história, aos fatos. Os representantes desse bando postaram críticas e desaforos na site da embaixada da Alemanha contestando a informação de que o nazismo foi um movimento de extrema direita. A história é contada na reportagem do El Pais, neste link aqui:

Parte dessa massa talvez possa ser educada, mas tem o contingente cego de ódio, que simplesmente não enxerga e não aceita nada que contrarie que suas crenças. Entre os cegos de ódio, uma escória coloca na prática o pior do discurso de seu candidato, cometendo uma série de crimes na internet, invadindo perfis e páginas nas redes sociais, querendo barrar a oposição e a rejeição.


sábado, 15 de setembro de 2018

Faxina

Opinião é uma coisa. Discurso de ódio é outra.
Nas eleições de 2014 fiz uma limpa em minhas redes sociais quando os eleitores de Aécio Neves partiram pra baixaria. Na ocasião também eliminei alguns da esquerda pelo mesmo motivo.
Depois disso reduzi minhas redes ao mínimo, tirando pessoas que não fazem parte do meu círculo social e/ou não têm muito a ver comigo nem interagem. Nada pessoal, além do desejo de ter na minha timeline pessoas que me interessam e que se interessam por mim.
Durante o impeachment, outra depuração.
Hoje comecei uma nova limpeza. Não se trata de visão política. Trata-se de visão de mundo. De valores. De moral. De ética.


#EleNão
#mulherescontraofascismo

Superar é não desistir #2

O sábado chuvoso começou com treino pegado na BPro. O braço esquerdo está quase zerado. Já consigo fazer supino de novo com o mesmo peso de antes de quebrar o braço.
Fiz uma fratura há dois meses e meio. Ia postar, comentar a recuperação, mas preferi me resguardar naquele período. Só que foi algo tão bom que merece ser compartilhado. Vá que apareça alguém por aqui que passe por situação semelhante.
Foi assim: fraturei o rádio do braço esquerdo no dia 1º de julho, domingo. Caí de bike ao desviar de uma criança que apareceu do nada na minha frente. Na hora senti um pouco de dor, mas nada que me impedisse de pedalar mais uns 10km até chegar em casa.
Estava com uma amiga fisioterapeuta quando caí, e à noite, ao conversarmos, ela me tranquilizou: "Em 23 anos de prática e de biker, nunca vi ninguém fraturar o braço e conseguir continuar pedalando". Mesmo assim, ela insistiu em que eu fosse num traumatologista no dia seguinte. A noite foi difícil, o braço doía, não havia posição confortável. Fomos juntas à clínica na segunda à tarde. (De manhã eu trabalhei, fui de carro pra editora e depois pro médico.)
Pra nossa total surpresa e consternação, o raio X mostrou uma fratura total do rádio. Saí da clínica com uma tala enorme, imobilizando da mão ao ombro. Assim:


No momento em que levantei do asfalto após o acidente, meu primeiro pensamento foi: "Não!!! Meu treino amanhã!". Fui dormir sabendo que na segunda-feira não iria rolar. E suspeitando que teria que ficar off por uns dias. Quando soube da fratura, quase comecei a chorar - só por causa do treino. Mas havia uma coisa boa: minha fratura era totalmente estável. A cabeça do rádio quebrou toda e encaixou completamente dentro do osso, tipo uma tampinha. O médico disse que eu havia dado sorte, porque essas fraturas costumam estilhaçar, em vários casos é preciso colocar prótese no cotovelo (!). (Uma colega de treino na BPro que é fisioterapeuta não creditou à sorte, mas à minha constituição física e ao meu preparo. Já a minha amiga fisioterapeuta concluiu que tenho genética de E.T., hahaha.)
Na quarta-feira, resolvi dar uma passada na BPro pra contar o que havia acontecido. Estava lá chorando as pitangas pro meu treinador, quando resolvi ousar: "Daria pra montar um treino pra eu fazer a partir da semana que vem?". "Claro que sim", ele respondeu na hora. Nada daquele nheco-nheco de repouso. "Vou começar a montar hoje", complementou. "Posso vir a partir de amanhã então?" "Claro." Mazahhhh!!!
E foi isso. Fraturei no domingo. Engessei na segunda-feira. Na quinta-feira voltei a treinar. De tala. Um treino bem mais leve, é óbvio. Mas o suficiente pra manter o corpo ativo e o moral elevado.
Na sexta-feira, dia 6, consultei com um especialista em cotovelo. Que médico maravilhoso! Ele confirmou todo o diagnóstico anterior. E, como minha fratura era 100% estável, disse que eu poderia remover a tala na segunda-feira seguinte e deixar o osso consolidar por si - mas sem fazer força com o braço esquerdo. Saí do médico direto pra BPro, feliz da vida.
Treinei com a tala ainda na segunda-feira, dia 9. Depois do treino, Roger, um dos professores, me ajudou a tirar o aparato. Dali em diante, vida quase normal. Claro que o braço incomodava, alguns movimentos causavam bastante dor, eu tinha que manter em mente que havia uma fratura.
Voltei ao médico no dia 20 de julho, sexta-feira. O novo raio X mostrou a fratura consolidada. Tive alta para voltar a treinar normalmente. "Normalmente", não igual ao que treinava antes. Tive de encarar uma reabilitação. O braço ficou fraco, encurtado, sensível. Mas as perdas foram bem menores do que seriam caso eu tivesse mantido o gesso e parado de treinar.
Felizmente treino em um local onde a interrupção da atividade só é recomendada quando não há possibilidade de adaptar exercícios. Fui cuidada e incentivada. E pude exercitar algo inerente em mim: a garra.
Quem quer dá um jeito, quem não quer dá desculpa.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

#mulherescontraofascismo #elenão #mucb


Resistência ao avanço do fascismo, do discurso de ódio e do atraso. Resistência a tudo que atenta contra a liberdade e a diversidade.
Por uma sociedade inclusiva. Por um estado laico.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O semeador de palavras - 2

Eduardo desceu do carro de aplicativo e correu escada acima para dentro do prédio da faculdade de arquitetura. Passou o cartão de identificação na roleta de acesso, subiu ligeiro os três lances da escadaria até a sala 409. Uma folha de papel A4 colada na porta indicava “Curso de escrita criativa”. Cabelo e roupas respingados, os All Star molhados, checou a hora no celular e entrou de mansinho na sala.
O professor interrompeu o que estava dizendo para dar boas-vindas. Eduardo se acomodou numa cadeira perto da porta. Os olhos azuis deram uma rápida sondada no resto da turma. Pouca gente naquele enclave das humanas em território das exatas. Nove com ele – quatro mulheres, cinco homens, espalhados em um semicírculo irregular na sala mal-ajambrada, três paredes ocupadas por estantes do chão ao teto repletas de maquetes, na outra o quadro, uma mesa enorme na lateral direita, cadeiras pelo restante do espaço.
Enquanto o professor lia um informativo enfadonho sobre o curso, Eduardo catou o bloco e o estojo na mochila. A chuva martelava o concreto e o metal do lado de fora. A pedido do professor, os alunos começaram a se apresentar. Três do jornalismo, um da filosofia, uma do direito, três das letras. E ele.
“Estudo agronomia”, disse Eduardo, deixando exposta a timidez. “Gostava de escrever no ensino médio. Só escrevia por obrigação, mas gostava. Fiquei sabendo desse curso e me inscrevi. Não é pra publicar nem nada. Só pra escrever mesmo.”
“Vai semear palavras”, brincou o professor.

A lua cheia surgia de dentro do mar, rasgado por uma faixa de reflexo prateada. De dentro do carro, Eduardo observava calado a paisagem deslizante. Pediu para o motorista desligar o ar e abrir os vidros. Assim rodaram por mais vinte minutos.
“Chegamos”, disse o motorista. “Vou estacionar aqui perto. Me avise quando quiser que venha buscá-lo.”
Eduardo agradeceu e desembarcou. Parou na calçada, de frente para a porta larga e as duas vitrines enormes da livraria. Os olhos azuis tímidos observavam a movimentação lá dentro. Muita gente, o ruído das conversas e a música ambiente escoavam-se até a rua junto com a luz de tom quente que compunha o ambiente sofisticado da loja.
“Chegou ele!”, disse a mulher que surgiu na porta com um largo sorriso na boca e nos olhos, as pernas compridas e ágeis a passos firmes, o vestido de seda floral ondulando da cintura para baixo. Atrás dela, três homens, dois deles de mãos dadas com suas acompanhantes. “Susana”, cumprimentou Eduardo em tom afável. O comitê de recepção exibia dentes de vários formatos e tons em sorrisos de genuína alegria.
No instante seguinte Eduardo viu-se envolto em saudações, apertos de mão, abraços, beijos. Fotógrafos e fãs com celular para as selfies formaram um pequeno cortejo que serpenteou livraria adentro, dissolvendo-se diante da mesa e cadeira reservadas para o escritor. Eduardo acomodou-se, pegou a caneta do bolso do blazer. Diante dele, as pessoas que lotavam a livraria começaram a se organizar em uma fila comprida e compacta. O mestre de cerimônias anunciou o início da sessão de autógrafos de O semeador de palavras, romance de estreia do jovem autor, sucesso de público e crítica, que começaria a ser filmado no outono.

domingo, 9 de setembro de 2018

Dia do veterinário


E hoje pela manhã Lelonid resolveu escalar a janela.
Ainda está em tratamento, mas evidentemente está se sentindo ótimo.
E com isso eu me sinto feliz, aliviada.
Cada momento como esse faz tudo valer a pena.


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O semeador de palavras

Chovia. O sol radiante da manhã perdera o brilho para as nuvens no começo da tarde. Por volta das 16 horas, o calor agradável se transformara em um bafo opressivo. E agora o chuvisco tímido das 18 horas havia engrossado em chuva caudalosa. Eduardo desceu do carro de aplicativo e correu escada acima para dentro no prédio da faculdade de arquitetura.
Chegou dez minutos atrasado para a primeira aula do curso de escrita criativa. Entrou de mansinho na sala e se acomodou numa cadeira perto da porta. Cabelo e roupas respingados. Os All Star molhados. Os olhos azuis tímidos deram uma rápida sondada no resto da turma. Pouca gente naquele enclave das humanas no território das exatas. Nove com ele, quatro mulheres, cinco homens, espalhados em um semicírculo irregular na sala mal-ajambrada, três paredes ocupadas por estantes repletas de maquetes, na outra o quadro.
Enquanto o professor lia um informativo enfadonho sobre o curso, Eduardo catou o bloco e o estojo na mochila. A chuva martelava o concreto e o metal do lado de fora. Os alunos começaram a se apresentar. Três do jornalismo, um da filosofia, uma do direito, três das letras. E ele.
“Estudo agronomia”, disse Eduardo. “Gostava de escrever no ensino médio. Só escrevia por obrigação, mas gostava. Aí, fiquei sabendo desse curso e resolvi me inscrever. Não é pra publicar nem nada. Só pra escrever mesmo.”
“Vai semear palavras aqui”, brincou o professor.
 
O anoitecer trouxe uma brisa discreta e uma temperatura sensata depois de um dia de calor indecente. A lua cheia surgia escandalosa de dentro do mar, rasgado por uma faixa prateada. De dentro do carro, Eduardo observava calado a paisagem deslizante. Pediu para o motorista desligar o ar e abrir os vidros. Assim rodaram por mais vinte minutos.
“Chegamos”, anunciou o motorista. “Vou estacionar aqui perto. Me avise quando quiser que venha buscá-lo.”
Eduardo agradeceu e desembarcou. Pela porta larga e pelas vitrines enormes, observou por um instante a livraria cheia.
“Chegou ele!” Lá vinha Susana, sua agente, as pernas compridas e ágeis na caminhada da vitória, passos à frente do editor e do produtor e diretor de cinema, mais um pequeno séquito. Um comitê de recepção com vários tons e formatos de dentes exibidos no sorriso do sucesso.
Eduardo foi cercado por saudações, apertos de mão, abraços, beijos, fotógrafos e fãs com celular para as selfies. O cortejo da badalação serpenteou livraria adentro, enfim dissolvendo-se diante da mesa e cadeira onde o escritor se acomodou para a sessão de autógrafos de O semeador de palavras, seu romance de estreia que começaria a ser filmado no outono.

Exercício para o curso de escrita criativa. Técnica de narrador câmera. Premissa desenvolvida a partir do depoimento de um colega, o Eduardo que estuda agronomia e resolveu fazer o curso porque gostava de escrever nos tempos de escola. Meu primeiro conto. Quem escreve um conto corrige muitos pontos.
 

domingo, 2 de setembro de 2018

21 dias de naltrexona

A importância de fazer terapia e de confiar no parecer profissional. Eu não via motivos para voltar à medicação, relutei por três semanas. Ainda mais que as drogas propostas eram inteiramente novas. Cedi à gentil e firme insistência do terapeuta e comecei a usar a naltrexona. Não notei nada. Foi um ótimo sinal - sem reações. Em duas semanas de uso, constatei o acerto da decisão quando me dei conta de que havia reagido muito bem a uma sequência de eventos estressantes.
A naltrexona está funcionando exatamente conforme o esperado: reduzindo as oscilações de humor. Não se trata de ficar estável no sentido de não oscilar. Trata-se de diminuir a amplitude da oscilação, a intensidade.
Ao inibir as oscilações exageradas, a medicação me deixa mais funcional no dia a dia e proporciona mais espaço para o tratamento terapêutico, para lidar com os conteúdos que vêm à tona sem paralisar e/ou afundar. E espaço para não reagir automática e excessivamente às experiências.


Um dos eventos estressantes recentes foi a sexta cirurgia de Lelonid há menos de um mês. O cuidado, as preocupações emocionais e materiais. O medo. E aí, na sexta-feira, emergência no veterinário às 23h30. Momento de grande desorganização. Seguido de rápida reorganização. E, com terapia e naltrexona, de uma percepção fundamental. A doença de Lelonid, como a de minha mãe, não tem cura. É normal eu me frustrar e até me irritar com o desgaste gerado pelo cuidar constante. É cruel eu me sentir culpada pelos meus sentimentos e por não estar fazendo o suficiente. Há um limite para o que eu posso fazer.
Há muitos limites que preciso enxergar.
Há muitos limites que preciso estabelecer.
Há muitos limites que preciso respeitar.