quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Minha criança

No dia 8 levei minha mãe ao médico para uma revisão antes das férias. Faz oito meses que a levei ao médico pela primeira vez. Foi no dia 22 de abril. Ela morava sozinha, fazia todas suas compras, dirigia, geria seus gastos. Era independente.
Desde então tirei o carro. Tirei o cartão do banco. Na semana retrasada tirei o talão de cheques. Estou tirando tudo que fazia dela um ser autônomo para garantir sua segurança e conforto. E para ter um mínimo de tranqüilidade, para reduzir as chances de que algo ruim aconteça com ela, já que não moramos juntas (ainda).
Coloquei uma pessoa para cuidar dela de dia. Minha mãe não sai mais sozinha - felizmente ela não quer, porque eu não deixaria. Agora vou obrigá-la a sair para caminhar pelo menos três vezes por semana. Ela adorava caminhar, agora não mais. Ela era ágil, agora seus movimentos estão cada vez mais lentos e vacilantes. E isso e seu olhar são o que me causa um aperto indescritível cada vez que a contemplo. Vejo a doença avançando inexorável, insidiosa e velozmente, minando o corpo e a mente. Além disso ela está ficando velhinha e frágil.
Minha mãe era uma matraca, agora fica calada, às vezes ouvindo o que se fala, outras vezes perdida em si mesma, com o olhar fixo no vazio. E eu me indago sobre o que se passa em sua mente. E sinto algo que não posso descrever, algo como um desespero surdo, dor e tristeza veladas. Talvez ainda não esteja sentindo plenamente porque estou muito ocupada pensando, planejando e agindo. Mas espero ter méritos para que a serenidade com que estou passando por essa experiência seja genuína, e não um represamento de emoções. Que eu esteja realmente acolhendo e dissipando meu sofrimento naturalmente, sem ter chiliques por não estar me apegando a nada nem rejeitando coisa alguma.
Perguntei ao médico se ela é feliz, se esse conceito ainda é aplicável. Ele disse que o conceito cabível é conforto; ela pode se sentir confortável, e é isso que se pode proporcionar a ela.
Vou levar minha mãe pra praia depois do Ano Novo. Ela irá com uma acompanhante. Espero que se sinta confortável. Ela adorava ir pra praia. Talvez seja o último verão em que ela saiba que está em seu apartamento na praia. Pensar nisso evidentemente me causa um arrepio. Mas, dentro de minha serenidade e determinação para cuidar dela, não penso no que vai acontecer no futuro. Vou na onda.
No ano passado, minha mãe acordou no dia 22 de dezembro e não lembrou que era meu aniversário. Lembrou mais tarde - e chorou ao se dar conta de que não havia lembrado ao acordar. Agora ela aceita o esquecimento, de modo geral ela não sofre mais com isso - o que é um conforto para ela e para mim.
Às vezes brincamos com a situação, conseguimos dar umas risadinhas. Como hoje, ao falarmos sobre Neusa, que ficará com ela a partir de agora, no lugar da Clélia, que saiu porque não poderia ir pra praia. Neusa esteve na casa da minha mãe ontem. Foi hoje de novo, e minha mãe não lembrava quem era. Amanhã Neusa vai de novo, e ficamos comentando que periga ela ter esquecido outra vez, e sorrimos. Minha mãe anotou o nome de Neusa na geladeira pra não ter que perguntar a todo instante. Mas vai chamá-la de Clélia por um tempo.
Às vezes ela fica infeliz por ver o quanto está se tornando dependente. Mas isso dura pouco, graças a deus. Em certa ocasião ela chorou ao concluir que havia se tornado uma mala que só dava trabalho. Tive vontade de me atirar no chão aos gritos. Sheer dispair, full force. Sei lá de onde tirei nervos pra confortá-la. Espero que essa idéia não lhe volte à mente, esquecida de vez. Tudo menos isso.
Outras vezes ela se rebela com o cerceamento de sua liberdade, reclama e se irrita, diz que não está tão mal para ser tratada como abobada ou criança. Graças a deus isso também dura pouco. Ela esquece tudo.
De fato, minha mãe cada vez mais é tratada como criança. A diferença é que, ao contrário de uma criança, ela não pode ser ensinada. O que ela desaprender estará perdido. Mas, enquanto houver conceitos, que ela possa se sentir confortável, cuidada. Amada como uma criança.