sábado, 13 de março de 2010

Voltando a fluir

A roda de minha vida concluiu um giro nesta semana. Foi como ajustar o foco da visão, ou ver nitidamente um novo padrão no caleidoscópio, os pedacinhos coloridos se arranjaram em nova e linda formação.O trabalho e o treinamento, as duas coisas mais importantes da minha vida "civil" - a família e a espiritualidade não contam, porque envolvem muito mais que "eu" - voltaram a andar em frente. O movimento começou na metade de fevereiro, depois de um 2009 desastroso e um início de 2010 totalmente inauspicioso.
O trabalho vinha mal há anos. Pelo que me lembro desde 2005. Jamais me faltou trabalho, e sempre tive o bom karma de só traduzir bons livros, que me interessam por um motivo ou outro. Mas me faltava tesão pra trabalhar. Eu simplesmente não tinha vontade. Não era preguiça, era um desânimo, um cansaço anormal. Como me disse uma pessoa com um insight incrível: "Você sentava pra trabalhar, olhava pro livro e parecia que ele estava em grego." Era bem isso. Levava horas pra traduzir umas poucas linhas, tudo me dispersava. O horror, o horror. Gastava uma quantidade absurda de energia. Claro que não conseguia ter prazer no trabalho, embora tenha continuado amando o que faço mesmo nessa fase negra.
Isso mudou dias antes de meu último tombo. Eu já vinha trabalhando bem, estava engrenando - e mal podia acreditar. Aí, quando voltei do hospital suturada, fez-se a clara luz: "Agora chega, cansei disso tudo. Essa fase acaba aqui." E acabou mesmo.
E voltei a ter um prazer enorme em traduzir. Eu sento pra trabalhar, e a coisa acontece. O ritmo agora é outro. A paisagem mental é radiante!
No treino aconteceu a mesma mudança de paisagem. Quando levantei depois daquela queda, vi meu joelho rasgado e fiquei segurando a borda dilacerada no lugar, concluí: "É isso, então. Agora não falta mais nada." O tombo foi o fechamento com chave de ouro da fase da uruca.
Voltei a treinar há três semanas. Não está sendo como o trabalho. Ainda me sinto pesada, fraca, sem ritmo, termino os treinos de língua de fora - trotes de 40min, 45min, 50min, no máximo 60min a pau e corda... É tudo bem difícil, e eu ainda não me sinto plenamente à vontade: tenho medo de cair, tenho medo de estourar as hérnias de disco (elas andam se manifestando, não me deixam esquecer que existem), tenho pavor só de pensar no sofrimento que foram as corridas da metade de 2009 em diante, aquela sensação de simplesmente não conseguir fazer... Mas estou seguindo minhas planilhas à risca. E os medos estão se dissipando, e eu consigo sentir prazer pelo menos quando termino, a sensação de dever cumprido, um pequeno desafio vencido. Está sendo um dia depois do outro mesmo.
Não sei se vou conseguir voltar a correr como antes. Se vou ter vontade de competir, se vou ter condições de fazer outras maratonas. Isso me causa uma certa angústia, mas esta se desfaz diante do que realmente importa: voltar a ter prazer com a corrida, durante a corrida.
A retomada das aulas de dança me fez um bem enorme. E nesta semana voltei a fazer musculação. Como na corrida, estou fazendo pouco e cansando muito. Mas ali já existe o prazer. Embora hoje eu esteja manca depois do treino de coxa de ontem.