sexta-feira, 27 de junho de 2008

Lucidez

"Não sei se estou ficando doida de vez ou se estou agindo certo, mas resolvi não me preocupar. Vou viver da melhor forma possível pelo tempo que for possível." Minha mãe me disse isso num entardecer de sábado, quando voltávamos de Belém Novo. Fomos lá pra ela ver o que poderia restar da casa de sua avó, onde ela ia na infância. Não restava nada, ela mal conseguiu identificar o terreno, hoje ocupado por casinhas tristonhas.
Ela foi e voltou dirigindo. Foi a primeira vez que pegou o carro em mais de um mês, o médico havia proibido. Mas agora ela está liberada para dirigir, basicamente trajetos curtos e conhecidos. E de preferência com algum acompanhante. Também pode continuar morando sozinha e tratando de sua vida.
Minha mãe tem 71 anos, e provavelmente está desenvolvendo o Mal de Alzheimer, doença degenerativa do sistema neurológico, sem cura. Ela está ciente do diagnóstico, está em tratamento com a medicação paliativa. Sua memória recente está severamente afetada. É uma situação muito difícil. Tudo que exige memória está sujeito a falhas. Inclusive o uso dos medicamentos que podem conter os sintomas da doença.
A memória recente de minha mãe está se desvanecendo, mas ela está utilizando mecanismos para driblar o esquecimento. Anota tudo, deixa coisas em cima da mesa como lembrete, procura manter tudo em lugares certos.
Mais importante que esses truques é a sabedoria que minha mãe está manifestando. É a prática do ensinamento budista: "Se tem solução, não há por que se preocupar. Se não tem solução, não há por que se preocupar." A doença de minha mãe é chamada de demência senil. Mas ela nunca esteve tão lúcida.