quinta-feira, 13 de agosto de 2009

É um milagre estarmos vivos


Na próxima quarta-feira, dia 19, meu amigo corredor Leandro Bauermann Oliveira fará 37 anos. No último sábado sua irmã adorável, Mariana, e sua supermãe, Rejane, organizaram uma festa-surpresa num restaurante. Fui lá com uma turma de amigos queridos da corrida. Lena, Filó, Márcio, Chibiaque e Marlene não conheciam Leandro, mas foram porque estão acompanhando a história dele por meu intermédio. E, como eu, comovem-se com a luta e a garra de alguém que, mais do que um sobrevivente, é um guerreiro iluminado. Paulinho e Lu, do Corpa, completavam a equipe de corredores.
Em fevereiro Leandro foi atropelado por um ônibus e teve a perna direita amputada no acidente. A esquerda foi preservada graças à coragem e fé de seus pais. Os médicos queriam amputar porque uma infecção por acinetobacter, uma bactéria letal e extremamente resistente a antibióticos, agravava a situação crítica - na real os médicos nem esperavam salvá-lo. Os pais entregaram nas mãos de deus e disseram aos médicos que, se fosse para o filho sobreviver, seria com a perna esquerda.
Não posso imaginar o que uma mãe sente ao ver o filho no estado em que Leandro permaneceu na CTI do HPS por vários dias. Em minha primeira visita, não consegui reconhecer meu amigo, ainda sedado e desfigurado pelos edemas. Meu coração ficou apertado. E me angustiava pensar o que Leandro sentiria ao saber da amputação caso sobrevivesse.
Assim que Leandro acordou para esse mundo de novo, fui vê-lo. E uma das primeiras coisas que ele me disse é que agora correria em uma outra categoria. Quando me disse isso, a situação dele era apenas estável, a infecção por acinetobacter persistia e não se sabia se, caso fosse mesmo mantida, a perna esquerda ainda seria funcional, porque as rodas do ônibus passaram por cima dela também.
Fiquei maravilhada com a grandeza de meu amigo. Com a resignação, com a tranquilidade com que encarou a perda. E com a determinação de voltar a correr, um estágio muito distante, porque ele ainda precisava vencer a infecção, sair da CTI pra um quarto, sair do hospital, recuperar o movimento da perna esquerda e do resto do corpo (nos primeiros dias ele não tinha força nem pra segurar um copo, todo corpo estava enfraquecido e com movimentos limitados), adaptar-se à condição de amputado, ver a possibilidade de uso de prótese, aprender a andar com ela e um dia então correr.
Depois de 101 dias, Leandro enfim voltou pra casa. E desde então é uma nova etapa de superações. Enquanto o coto e a perna esquerda cicatrizavam, Leandro efetivava uma sucessão de pequenas conquistas gigantescas: conseguir ficar sentado na cama, poder virar-se de lado na cama (ele ficou mais de três meses só de barriga pra cima, não podia se virar devido às lesões), ir pra cadeira de rodas, conseguir sentar no sofá da sala, na cadeira do computador. Ir ao banheiro. Tomar banho no chuveiro.
No mês de seu aniversário, Leandro deu um novo passo - literalmente: conseguiu ficar em pé! A perna esquerda ainda não tem flexibilidade no joelho, ou seja, fica esticada o tempo inteiro, o que é uma limitação inclusive espacial. Mas Leandro conseguiu apoiá-la no chão e em seguida começou a se deslocar com um andador.
Nessa semana, ele me contou pelo msn que foi pra fisioterapia no andador! Atravessou a rua andando!!! Meus olhos transbordaram enquanto lia a novidade no msn, e transbordam de novo enquanto escrevo aqui. E meu coração transborda de alegria. E de orgulho e admiração por meu amigo que jamais se lamenta, que não dá espaço pro baixo astral, que olha pra frente, que olha para as novas possibilidades, que olha para o que tem e o que busca, e não para o que perdeu. É tudo uma questão de olhar. :)