domingo, 1 de março de 2015

A moeda é mérito

Retomei a atividade de preparação de textos do Lama Padma Samten após o retiro de verão. Lá conversei com Stela Santin, a gestora do Cebb, sobre meu desejo de contribuir para a divulgação dos ensinamentos do lama. E entrei para a força-tarefa que posta os ensinamentos no site do Cebb e nas páginas do Cebb no Facebook.
O primeiro fruto desta atividade está aqui:

http://www.cebb.org.br/a-moeda-e-merito/

E agora, ao postar aqui, caiu a ficha: que incrível "coincidência" o primeiro texto referir-se a trabalho e geração de recursos.
Cá está ele:

Os méritos movem o mundo
A questão do sustento do praticante é um tema muito importante, que de modo geral surge como um obstáculo. O meditador começa a praticar, a energia dele começa a se mover, e aí, no trabalho, ele se vê dedicando toda a sua energia para construir coisas que nem quer que sejam construídas. Como escapar disso? Afinal, é preciso pagar as contas.
Existe uma sensação de que temos um mundo regido por leis econômicas e por funcionamentos lógicos, que temos que pagar um preço para poder viver dentro dele e assim conseguir praticar o Dharma como uma coisa acessória, lateral. O praticante gostaria que o Dharma fosse o principal, mas não consegue fazer isso porque, afinal, é obrigado a fazer coisas para pagar as contas.
Mas existe um jeito de mudar isso. O processo é o seguinte: é essencial aprender a gerar méritos. Não precisamos gerar reais, nem dólares, nem euros, precisamos gerar méritos. A moeda é mérito. Esse é o ponto. O funcionamento do mundo se dá por méritos. Podemos ver o funcionamento econômico, mas isto é uma pequena parte do todo. Não nos damos conta de que a moeda é mérito.
Geração de méritos significa o quê? Que estamos fazendo alguma coisa positiva e aquilo está melhorando a vida dos seres em alguma direção. Se fizermos o contrário, pode perdurar por um tempo, mas tem uma hora em que afunda. A forma como vivemos gera impacto sobre nós mesmos. Melhor gerar méritos em vez de gerar carmas.
Vamos supor que estamos empregados em uma organização e aí pensamos: “Estou trabalhando só para ganhar dinheiro”. É melhor que estejamos beneficiando todos ao redor e que nossa função também seja benéfica para as pessoas de fora. Se não for, que seja ao menos neutra, mas que não seja uma função negativa, que vá causar problemas. Porque neste último caso, mesmo que você tenha sustentação econômica, haverá um momento em que aquilo ali vai ser derrubado. Por quê? Porque começamos a fazer ações cármicas, os seres atingidos começam a gerar “anticorpos” para essa ação. Haverá um momento que eles irão ter sucesso e nos derrubar. Então é melhor termos uma atividade econômica ligada à geração de méritos.
Com as empresas é a mesma coisa. Não é uma questão econômica simplesmente. Se uma empresa está gerando obstáculos, gerando dificuldades para as pessoas, ela vai ser atingida por estar gerando carmas e não méritos. Não importa o tamanho da empresa, se não gerar méritos, um dia vai quebrar, ou vai ser fechada, ou vai surgir algum problema. Isso é certo, é matemático. Se o McDonald’s quiser sobreviver, vai ter que melhorar a qualidade dos lanches, vai ter que produzir uma coisa cada vez mais natural, com certeza.
Para gerar mérito é preciso exercitar a sabedoria: entender os seres no lugar onde eles estão (pelo ponto de vista deles, não do nosso), se alegrar com as coisas positivas que os outros vivem e ser um instrumento para isso, entender as limitações inevitáveis da vida e das coisas, evitar as ações causais que vão produzir problemas, promover as ações causais que vão produzir coisas boas, ter estabilidade de não se perturbar diante dos problemas, ter a capacidade de pacificar as situações aflitivas que os seres experimentam, ter a capacidade de promover as qualidades positivas que eles têm, ter a capacidade de interromper a negatividade aflitiva sobre os outros e entender que a nossa natureza é o aspecto secreto e se move assim. Aí está tudo resolvido. É só fluir. Esse é o bodhisattva, ele anda pelo mundo sem problema.
Com essa sabedoria, fazemos uma lenta migração para o modo de vida do bodhisattva. Podemos dizer: “Bom, é assim, sou um bodhisattva operando como caixa no Banco do Brasil”, “sou um bodhisattva atuando como promotor público”, “sou um bodhisattva atuando como oficial de justiça” — como policial, como carcereiro, como médico, como psicólogo, como psiquiatra.
Não é preciso uma atitude radical do tipo: “Vou pedir demissão e aparecer lá pelo Cebb”, melhor não. Não peça demissão, continue no lugar em que está, mas treine a geração de méritos. Você fica no mesmo lugar, só que a atividade agora é outra, não é a geração de recursos, agora é geração de méritos, você está ajudando, está verdadeiramente melhorando o ambiente ao redor e produzindo os benefícios possíveis. Com o tempo, você vai se sentir hábil ao andar em qualquer lugar porque vai gerar méritos.
Minha sugestão é esta: não peça demissão de coisa alguma, aproveite o lugar em que está para testar isso, comece a gerar méritos nesse lugar. Melhore tudo que você está fazendo, melhore as relações em todas as direções. A vida vai ficar muito mais feliz. Essa felicidade já é a manifestação de bodhichitta.