quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Muito amor envolvido


Que todos os seres sejam felizes.
Que todos os seres encontrem as causas da felicidade.
Que todos os seres fiquem livres do sofrimento.
Que todos os seres fiquem livres das causas do sofrimento.

Não fazia muito que eu havia enviado uma mensagem via WhatsApp dizendo "muito amor envolvido" e um amigo postou esse cartaz no Facebook. Ressoou com o que eu estava pensando, sentindo e havia conversado também recentemente, também via WhatsApp.
Não quero mais "olho por olho" na minha vida. Quero fazer o que me faz bem, quero tratar os outros como gostaria de ser tratada. Mas preciso abrir um parêntese para o meu coração mau (afffff):
Ainda não estou pronta para ser assim com azinimiga. Ah, Valesca Popozuda, grande pensadora contemporânea, pra essas é vida longa e beijinho no ombro. E indiferença olímpica, ou, quando passam da conta, o famoso "rindo muito do seu recalque" e o mais famoso ainda "Get a life".
Gente frustrada, recalcada, mal-amada, rancorosa, invejosa e patética em geral, gente que, em vez de cuidar da sua vida, cata a vida alheia, faz fofoca e intriga, se faz de coitada, se expõe ao ridículo e ao desprezo, manda energia ruim e inacreditavelmente paga pra outros fazerem isso também - pra esse pessoal ainda não estou muito disposta. Mas até esses eventualmente despertam o meu melhor. Quando olho em profundidade, e ao mesmo tempo distanciada, sinto compaixão e desejo felicidade. O problema é que ainda não consigo sustentar essa visão e escorrego pra reação neutra/hostil. Não desejo mal (não só porque sou boa, mas também por medo, porque sei que volta), mas não desejo bem e ergo uma barreira pra ficar isolada.
Se eventualmente já sinto compaixão por quem me deseja mal (e acha que eu faço o mesmo, como se eu estivesse na mesma e, mais ainda, ficasse pensando neles e, mesmo se e quando isso ocorresse, não evitasse plantar sementes ruins pelo simples fato de saber o que acontece depois), que dirá pelas pessoas que amo e quero bem ativamente. É pra essas que meu coração sempre diz: "Dê uma chance". Against all odds.
Pro orgulho tento não dar ouvidos faz tempo. Ouço a experiência lembrando que sempre pode ser aprimorada - e é preciso experiências novas. A razão realmente pode ter razão. Mas o amor e a compaixão operam milagres, e é muito melhor ter felicidade e paz do que ter razão.
"Muito amor envolvido" viralizou. Vírus do bem. Com muito amor e compaixão envolvidos dá pra curar todas as feridas e males. Essa é uma experiência interna, individual, no sentido de não envolver expectativas românticas e/ou reciprocidade. É o desejo de ver os outros felizes e de ser causa de felicidade.
Pra mim, dar uma chance não se refere a dar uma chance para algo que está "fora", para "o outro". É dar uma chance para mim mesma, para o meu coração. Para o meu amor e compaixão pelo "outro". E por mim mesma. Dar uma chance de ser uma pessoa melhor.

* * *

Pois bem, nada como ouvir o coração. Ontem ouvi dois discursos do meu. O budista, firmemente comprometido com bodhicitta, e o não budista, por assim dizer, que reage com apego/desejo, raiva/aversão, medo e todos os demais venenos.
Não postei o texto ontem porque fiquei perturbada com minhas emoções aflitivas. Ser indiferente ou desdenhosa em relação a outros não combina com a realidade que busco construir. E deixei tudo ali em cima como um lembrete do que acontece quando não ouço o bom coração.
Conversei com minha tutora, perguntei como me desengachar de conexões cármicas negativas. Tratei diretamente da situação mais complicada, quando a outra pessoa me vê como inimiga e me deseja mal. A resposta foi metta bhavana. "Não há como uma pessoa para quem você deseja o bem lhe causar mal", disse Regina. Na verdade, o "outro", o "não eu", não causa mal. Sou eu mesma que me causo mal quando reajo mal ao que vejo como externo a mim.
Lembrei da famosa parábola budista:

O Buda estava debaixo da árvore do esclarecimento quando alguém que tinha ouvido falar que ele era uma pessoa iluminada veio para testar o seu autocontrole. Ficou em frente ao Buda e começou a xingá-lo, chamando-o de todos os nomes possíveis, e não houve nenhuma reação do Buda. Algum tempo depois essa pessoa cansou-se e foi embora, descansou um pouco, voltou e começou novamente. Abusou da família do Buda e proferiu todo insulto que pôde pensar, mas ainda assim não houve reação. Ele ficou bem cansado e então perguntou ao Buda: “Eu o estou difamando de todas as maneiras que posso pensar, e ainda assim você não diz nada?”. O Buda olhou para ele e disse: “Se alguém lhe dá um presente e você não o aceita, com quem fica esse presente?”.

Para não aceitar "presentes", metta bhavana.
Para ter muito amor envolvido de verdade, metta bhavana.
Então, para aqueles que amo, para aqueles que quero bem - e com os quais ainda assim muitas e muitas vezes entro em conflito - e para aqueles que me querem mal, proclamo de coração e com muito amor e compaixão envolvidos:

Que você seja feliz.
Que você encontre as causas da felicidade.
Que você fique livre do sofrimento.
Que você fique livre das causas do sofrimento.