sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Adeus, Bibi

Cheguei da clínica veterinária há pouco. Fui me despedir de Bibi, a gata de minha mãe, de 19 anos de idade, e autorizar a eutanásia. Assisti ao procedimento rezando o mantra de Tara Vermelha. Que Bibi possa ter um renascimento veloz e auspicioso. Ela sem dúvida merece.
Por quase 19 anos, Bibi foi objeto de amor e cuidado de minha mãe. Deixou de ser há pouco tempo, com o agravamento do quadro de Alzheimer. Levei Bibi para o veterinário na sexta-feira passada, com desidratação aguda provocada por insuficiência renal crônica (e irreversível). Os exames detectaram também anemia e infecção severas. Em uma semana não houve melhora. Ela poderia continuar viva para morrer aos pouquinhos. Não fazia sentido. A eutanásia foi um ato de misericórdia, mas mesmo assim estou arrasada.
Já estava arrasada desde sexta passada. Levei Bibi pro veterinário, minha mãe foi junto. Depois que voltou pra casa, minha mãe não perguntou pela gata NENHUMA vez. Na quarta-feira, levei-a pra visitar Bibi, mais pela gatinha, que realmente ficou muito feliz ao ver sua dona, que amava profundamente e de quem tinha muito ciúme. Ao ver Bibi, minha mãe disse: "Parece a Bibi". Mas não reconheceu a gata. Por um lado isso é uma bênção, pois ela não vai sentir falta. Mas por outro mostra a velocidade com que a doença está apagando as memórias de minha mãe. E aproxima-se o dia em que ela não saberá mais quem somos eu e os outros membros de nossa minúscula família. E que eu terei que interná-la também.
O fato de saber que a eutanásia era a melhor solução não diminui minha tristeza e dor. Desolação geral.
Lembro sempre do dia em que Bibi chegou na casa da praia. Minha irmã e cunhado encontraram Bibi na rua, era um dia muito quente de sol forte, ela era minúscula e parecia muito fragilizada pela fome e sede, tivemos medo de que não resistisse. Mas Bibi mostrou-se uma vitoriosa, e no final da tarde já corria pela sala da casa aos pulinhos, indo e voltando da cozinha, onde enchia a pancinha de leite.
O nome Bibi deriva de "Biafra", que foi como meu tio disse que a gata esquálida deveria se chamar. Minha mãe queria chamá-la de Lila, mas o nome não emplacou, e ficou Bibi.
Eu tenho a mais absoluta certeza de que Bibi resistiu firme por 19 anos aguardando o momento em que pudesse partir sem partir o coração de sua dona. Se ela tivesse morrido antes, minha mãe teria uma crise nervosa. E, na condição de saúde dela, uma crise nervosa pode assumir proporções desastrosas. Qualquer mínima alteração na rotina aumenta a confusão e desordem mental. A leal e querida Bibi partiu hoje, dia 23 de novembro de 2012, por volta das 19h, em paz e sem dor, sabendo que sua dona também ficará em paz e sem dor no mundo cada vez mais exclusivo em que habita.