terça-feira, 4 de julho de 2017

O que se salva (?)


Finalmente voltando à vida normal. Na quinta-feira o que já estava ruim piorou e ficou péssimo. Tétrico. Durante a noite, o resfriado transformou-se em infecção intestinal. E às 5h saí de casa em busca de atendimento.
Choque de Brasil, desse Brasil em franca derrocada. Os hospitais não atendem mais na emergência, exceto em casos com risco de morte. Nem pelo plano de saúde. Tentei o Clínicas. Me mandaram embora. Duas mulheres que estavam lá na porta, provavelmente aguardando crianças em atendimento, me sugeriram a UPA da Zona Norte. Eu nem sabia que isso existia. Fui. Fui de Cabify. E quem não tem carro, nem muita grana, vai como? A pé? Espera ônibus? Criancinhas? Idosos?
Cheguei na UPA às 5h30. Não havia ninguém. Só eu. Insone, acabada de tanta diarreia e enxaqueca. Imaginei que seria atendida em minutos.
Não no Brasil da apatia, da indiferença, da preguiça, da procrastinação. Da incompetência. Da ineficiência.
Demoraram tanto, mas tanto pra fazer o meu cadastro que peguei a troca de plantão. Às 7h. Ou seja, 1h30 pra botar meia dúzia de dados no sistema e me encaminhar. Fui atendida por volta de 7h30. Saí daquele local deprimente quase às 9h. Totalmente zonza. Deveria fazer 1 litro de soro. Fiz a medicação endovenosa e pedi pra tirarem o soro. E fui embora. Estava exausta, enfraquecida, precisava deitar, não aguentaria ficar mais de uma hora sentada fazendo soro.
Na área de enfermagem havia outras pessoas, que com certeza estavam lá desde antes de eu chegar. Ou seja, passaram a madrugada naquele lugar precário. Sem sequer macas para os pacientes poderem deitar. Uma mãe com um bebê de colo se acomodava como podia na cadeira desconfortável.
Quando saí, o saguão já estava cheio. Gente de todas as idades. Quanto tempo mofariam ali? Quatro horas, me disse um motorista da Cabify. Oito horas, me disse outro motorista.
Minha insatisfação com o Brasil está se transformando em ódio. Uma elite corrupta e seus lacaios igualmente corruptos saqueando esse país com tamanha violência que não sobra dinheiro para nada.
O atendimento nessas espeluncas que deveriam ser postos de saúde é uma afronta à dignidade. O local em si é revoltante. Pode estar limpo, mas é tudo velho, decadente. Do sistema de computador à cadeira pra fazer soro. Tudo obsoleto. Isso do que tem ali, né? Porque falta tudo. Falta medicamento. Falta mão de obra.

Saí daquela UPA rezando pra chegar em casa e poder me deitar. Rezando pra nunca mais ter a infelicidade de acabar num lugar daqueles. E rezando pelas pessoas que estavam lá. E por todas as pessoas que têm a infelicidade de precisar ir lá.
Por fim, mas não por último, saí desejando todo o dano possível e imaginável para essa horda de políticos, governantes, juízes, funcionários públicos, empresários e gentalha corrupta em geral. Para eles e para os deles. Afinal, não é o que a sua total falta de caráter acarreta para milhões de pessoas? Que morram eles, que matam milhões de fome, de falta de educação, de perspectiva. Ladrões do futuro de milhões de jovens e crianças. Ladrões do futuro de gerações ainda por vir. Morte é pouco pra essa gente. Mas já seria um começo. Afinal, segundo os homens de bem, bandido bom é bandido morto. No caso desses criminosos, já estou quase concordando. Até porque para a cadeia não vão. Quando vão, logo saem. E dê-lhe roubalheira e fraude.

No meio da desolação, uma coisa boa. O médico que me atendeu. O médico que me atendeu, me atendeu de verdade. Sem pressa. Com cuidado. Com atenção. Me ouviu e me examinou. E prescreveu o tratamento adequado (confirmado depois pelo meu médico). Graças a ele, saí medicada e melhorei um pouco. Segui o tratamento prescrito e fui me recuperando.
Quem dera que pelo menos os médicos fossem todos assim. Mas já se sabe que não. Porque o que tem aos montes é médico que recebe salário e não comparece nos postos. Ou que vai e atende de qualquer jeito. Quando não tenta extorquir.
Assim como o médico que me atendeu, com certeza existem milhões de outras pessoas do bem trabalhando bem. Que nós possamos nos livrar dos maus. Amém.