domingo, 17 de fevereiro de 2013

As voltas que o mundo dá



No dia 18 de fevereiro de 2012, sábado, corri pela última vez antes da cirurgia realizada em 2 de maio para retirar a hérnia de disco em L5-S1. Eu teria um treino de 14km, fiz 8km, me arrastando e sofrendo tanto que parei e voltei o resto caminhando (e para eu parar no meio de um treino, é porque era extremo).
No dia seguinte, domingo, 19, me arrumei toda pra correr. Lembro com total clareza que fui até a porta, abri e pensei: "Não vou. Não dá". E só depois de abortar o treino é que caiu a ficha: eu estava quase manca. Não conseguia mais correr porque estava com dor - dor que até então eu não havia notado porque meu limiar é altíssimo, e eu sou muito persistente e disciplinada, treino dado é treino feito, e sempre acho que não é nada sério e que vai passar. Dessa vez era sério, dessa vez não passou. E na planilha de treino eu anotei: "DOR. Dor o tempo todo. Acho que preciso de médico agora".
Era uma crise da hérnia de disco. Eu tive a primeira em novembro de 2009, foi quando descobri a hérnia. Na verdade, a protrusão tornou-se hérnia no dia 1º de novembro. Fui levantar de um sofá e caí sentada, com uma dor que nunca havia sentido. Uma fisgada. Tive a segunda crise em agosto de 2010. Em maio de 2011, treinando com altos e baixos, fiz minha melhor maratona, 3h25min. Agora era a terceira crise. Eu sabia que isso ocorreria volta e meia. E sabia que teria que fazer fisioterapia e pegar leve no treinamento até a crise passar. Tudo bem. Eu podia conviver com isso. E com o desconforto crônico na lombar. Porque, mesmo quando não doía, a hérnia se fazia lembrar por uma sensação desconfortável, uma pressão, um aperto. Eu vinha sentindo mais pressão desde setembro, e não estava conseguindo treinar bem. Estava perdendo a velocidade, simplesmente não conseguia evoluir. E a corrida estava se tornando muito difícil, um sofrimento. A TTT 2012 foi um exercício de total superação. E foi também o golpe decisivo para a hérnia.
No dia 23 de fevereiro, fiz uma ressonância que mostrou que minha hérnia estava imensa, pressionando as raízes do ciático pelo lado esquerdo - por isso eu sentia cada vez mais dor na perna esquerda, dor que primeiro era só na nádega, depois desceu pra lateral do joelho e foi parar no pé como dormência nos dedos. Levei a ressonância para um traumatologista olhar naquela semana. Ele me disse que meu caso era cirúrgico. E propôs, com a maior naturalidade, fazer uma artrodese, ou seja, remover o disco entre L5-S1, colocar um espaçador entre as vértebras e fixar uma na outra com pinos. "Você vai perder apenas 5% do movimento da coluna, não tem problema", disse esse médico.
Enquanto ele falava, eu me encolhia na cadeira, horrorizada. Saí de lá quase correndo e quase chorando, na verdade só não chorei porque estava no meio da rua. Também saí decidida a não me deixar mutilar de maneira alguma. O médico não falou, mas eu soube que, se fizesse essa cirurgia, minha vida nunca mais seria a mesma. Adeus corrida, adeus dança do ventre, adeus minha vida normal.
Conversei com meu treinador, Átila Viero de Conti, e optamos pela fisioterapia. Comecei no dia 28 de fevereiro. Em março eu parecia estar melhorando, embora a dor jamais cessasse, só diminuísse. Eu não corria, mas fazia musculação leve e dança do ventre.
No dia 1º de abril, eu soube que estava ferrada quando acordei. Fui sair da cama e não consegui. A dor tinha atingido um outro nível. Doía o tempo inteiro. Doía tanto que eu mal conseguia me mexer. Dali em diante, eu saía da cama me virando de bruços (o que doía horrores - qualquer movimento à noite me fazia acordar; depois disso, passei a dormir como uma múmia, deitava e ficava imóvel para só sentir a dor "básica") e escorregando pra fora da cama. Primeiro um pé no chão, depois o outro. E aí vinha um dos piores momentos do dia: erguer o tronco. Com os pés no chão, eu me empurrava para a vertical com os antebraços no colchão, depois as mãos. Era um suplício. Que prosseguia na ida para o banheiro, arrastando os pés. Sentar na privada e levantar eram manobras insuportavelmente dolorosas. Inclinar-me na pia para escovar os dentes e lavar o rosto, outro tormento. E aí tinha que me vestir. Calcinhas e meias exigiam malabarismos. Amarrar os tênis também. Tudo ficou difícil. E tudo provocava uma dor alucinante. O meu maior terror era a possibilidade de ficar resfriada. Espirrar levava a dor ao ponto máximo. Até hoje eu ainda tenho medo de espirrar, sempre me contraio involuntariamente.
Tive então a brilhante ideia de consultar com meu neurologista clínico, Francisco Rotta. Ele propôs a última tentativa conservadora: gabapentina, uma droga neurológica para tentar reverter a ciatalgia. Lembro exatamente da sensação quando tomei a primeira dose: logo que a gabapentina começou a fazer efeito, eu senti uma vertigem, uma perda de lucidez. Uma tremenda chapação. Cheguei a tomar 1,8 GRAMA de gabapentina por dia, mais 300mg de tramadol, um opioide. Eu passava os dias meio zonza. E a dor maldita não passava nunca. Diminuía um pouco, mas pouco.
Na manhã de 23 de abril de 2012, segunda-feira, ligaram do consultório do neurocirurgião Albert Brasil, com quem eu tinha horário marcado para junho, propondo uma consulta para o dia seguinte, terça-feira, 23. Agendei. E em seguida liguei para o Rotta para passar o boletim da semana anterior. Quando eu disse que a dor seguia praticamente igual, ele falou o que eu temia: o tratamento conservador havia fracassado. A gabapentina não tinha funcionado e não iria funcionar. E eu iria para a cirurgia. E logo. Contei para ele da consulta com Albert Brasil, e Rotta achou ótimo, disse que, se Albert pudesse me operar, que eu fizesse com ele, porque seria um dos médicos que ele iria me sugerir.
Aí foi tudo muito rápido. Fui para o hospital no dia 1º de maio. Fiz uma ressonância naquela noite (e a hérnia tinha ficado maior ainda desde 23 de fevereiro, num dos cortes da ressonância ela simplesmente estrangulava o ciático, que nem aparecia na imagem). Na quarta-feira, dia 2, Albert Brasil removeu a hérnia. E a dor que me devastava física e mentalmente (porque eu já estava fora de mim pela medicação pesada e por pensar que talvez passasse o resto da vida com dor crônica - coisa que Albert disse que poderia acontecer, caso a cirurgia não desse certo).
De 18 de fevereiro a 2 de maio de 2012, eu senti dor constante e cada vez maior. Dor neural, uma coisa enlouquecedora, pois não passa nunca. Mesmo assim, continuei tentando levar a vida mais normal possível. Fiz aula de dança do ventre até a véspera da internação, porque era um momento de felicidade. Dor eu sentia de qualquer jeito, então pelo menos podia me alegrar nas aulas. Dirigia (na finaleira, entrar e sair do carro me fazia suar de tanta dor, trocar marchas era horrível, e eu ficava economizando, hehehe), ia ao supermercado (e tinha que carregar as sacolas e guardar as coisas), toda a função doméstica básica (um dia fui varrer o terraço, e essa foi uma experiência inesquecível - vassoura e hérnia não combinam). Trabalhava, o que era um martírio, pois o pior de tudo era ficar sentada. Todo dia eu acordava pensando: "Vou melhorar", e dormia pensando: "Amanhã estarei melhor". Houve alguns momentos de dúvida e desespero, mas foram poucos. Eu sou otimista. E resiliente. E isso faz uma enorme diferença.
Eu mal lembro da internação porque no hospital realmente pegaram pesado nos painkillers. Tramadol na veia, gabapentina, calmante para dormir. Muito de tudo. Na manhã antes da cirurgia, eu mal parava em pé de tão doidona. E ria, faceira e animada. Eu não tinha mais nada a perder, se não operasse, ficaria aleijada porque a hérnia ia destroçar o ciático. Era tudo ou nada. Fui pro bloco na maca, e lembro de uma enfermeira me olhar e dizer: "Que bonita essa mulher", o que foi um momento de glória. Bonita de camisolão, cara de drogada e com o cabelo lavado com desinfetante pré-operatório! Cheguei na sala, o anestesista veio conversar, disse que iria começar a injetar alguma coisa. Não lembro se já tinham me tirado da maca, acho que não.
Acordei na sala de recuperação, meu tio estava lá, minha filha e meu ex-marido. Vi Albert e disse: "Quero ir pro quarto!" Ele riu, perguntou como eu estava. "Ótima, não sinto nada. Quero ir pro quarto. Por favor, por favor. Não me deixa aqui essa noite." Eu só poderia ir depois de fazer xixi, disse ele. E me fez jurar que eu não sairia da cama, nem faria nada até ele vir me ver de manhã. Prometi. Mas eu não conseguia fazer xixi. Fiquei lá pedindo pra ir embora, as enfermeiras de início ficaram putas, mas logo viram que eu era uma paciente boazinha e estava bem, e só queria ir pro meu quarto. Uma delas disse: "Posso botar uma sonda". "Sim! Sim! Por favor, qualquer coisa, só quero dormir no meu quarto." Ela colocou a sonda, fiz xixi e me despacharam. Minha filha ficou comigo naquela noite. E eu passei chamando o enfermeiro de hora em hora - pra fazer xixi, hahaha! Porque não parou mais a vontade. E eu tinha prometido ficar na cama.
Na quinta-feira, 3, Albert Brasil chegou no meu quarto de manhã e, conforme o combinado, me tirou da cama. E eu me mexi pela primeira vez sem dor nenhuma, nada. Nem conseguia acreditar. Foi um dos momentos mais felizes de minha vida. Não posso descrever a dor que eu sentia, também não posso descrever o que senti ao perceber que não sentia mais dor.
Saí do hospital no sábado, 5 de maio. E não tomei mais remédio nenhum. E aí tive uma síndrome de abstinência. Não dormi duas noites, ficava inquieta, me remexendo na cama, ligada, esquisita. E tinha umas sensações estranhas durante o dia também, agitação. Disseram para eu tomar remédio se sentisse dor. Eu não sentia nada, não tomei. Mas era óbvio que eu deveria ter retirado a gabapentina aos poucos.
No dia 10 comecei a fisioterapia. Para total espanto da fisioterapeuta, cheguei lá pra avaliação caminhando. Sozinha. Eu não podia dirigir. Então fui a pé (escondida). Mas voltei de táxi.
Estava tudo indo muito bem, mas aí voltei a sentir uma dorzinha na lateral do joelho esquerdo. Surtei. Total. Liguei pro Albert, que disse que era normal, que era dor residual. Nada de pânico. E uma dose de ataque cavalar de Decadron (corticoide) por dois dias apenas. E depois um Naproxeno (antiinflamatório) pegado por mais uns dias. Sem fisioterapia. Falei com Rotta também, ele disse a mesma coisa. E explicou que eu poderia sentir dor ou desconforto por uns três meses, até seis (e os dedinhos do pé ficaram dormentes por bastante tempo mesmo). Mas era normal, e eu ficaria bem.
Voltei pra fisioterapia. Mas eu queria voltar a treinar. E agora? Eu era uma batata quente, ninguém sabia o que fazer comigo. Albert Brasil disse que não existe protocolo pra gente que nem eu, porque meu corpo é diferente, minha recuperação é diferente, minha ideia de vida normal é diferente, minhas expectativas são diferentes. Falei com Átila, perguntei se ele faria a reabilitação. Ele disse que sim. Rotta achou ótima a ideia do meu treinador assumir o processo (não sei por que, ele não confia muito em mim...), conversou com Átila (e ambos parecem ter uma ideia muito semelhante a meu respeito, afff) e no dia 29 de maio eu voltei a ter planilha da Winners! De caminhadas e bike... Mas eu não tinha nem 30 dias de cirurgia e já estava treinando. E era isso que importava.
No dia 19 de junho, fiz meu primeiro trote!!! Na esteira. Foram 8x 30 segundos, com pausa ativa de 1 minuto e 30 segundos. No dia 21 de junho, voltei a fazer musculação. Tudo de leve. Mas tudo voltando.
No dia 4 de outubro, voltei a treinar na pista do CETE. Foi bom, mas estranho. Eu estava tão, tão, tão lerda... Parecia que nunca mais voltaria a correr como antes. Eu tinha acabado de completar quatro meses de cirurgia.
Por essa época, fui ver Rotta, que me deu alta oficialmente. Disse que eu estava curada, que minha recuperação tinha sido ótima. E que, caso eu tenha algum problema de coluna no futuro, será uma coisa nova, não um problema causado por má recuperação. Maratona? Sim, poderia fazer - se eu não sentir dor. "Você sabe que não é saudável, mas tem coisa bem menos saudável", disse ele. Por isso eu amo esse médico. Ele me entende, ele sabe que fiz a cirurgia pra ter minha vida normal de volta. E minha vida normal inclui a maratona e muitas outras atividades. Talvez eu não tivesse tido que operar se, com a primeira crise, tivesse mudado de vida, ido pra natação, sei lá. Não sei e não me interessa. Eu adoro me esbaldar. E vou continuar enquanto puder.
Eu senti que voltaria a correr no dia 1º de dezembro, na Corrida Monumental do Grêmio. Fui pra fazer os 9km pensando que, se fechasse em 45 minutos, seria uma beleza. Completei 8,6km (conforme meu GPS) em 39:20, média de 4:34, conforme já registrei aqui no blog. No dia seguinte, completei sete meses da cirurgia. No dia 16, corri 10,6km na Meia Maratona do SESC em 45:28.
Falei com Rotta e Átila, e ambos concordaram que eu poderia antecipar a volta pra maratona, inicialmente prevista para o segundo semestre de 2013, para o primeiro semestre. Assim poderei correr de novo em Porto Alegre, dia 9 junho. Vou começar a treinar na próxima terça-feira.
E ontem, sábado, 16 de fevereiro, aqui em Capão da Canoa, um ano depois de ter corrido pela última vez antes de todo esse calvário, fiz os melhores 5km de minha vida, em 21:19. De noite, na areia fofa e esburacada, no escuro, com um pouco de vento. (Enquanto me esfalfava no percurso ingrato, lembrei que na Summer Night Run de 2012, no dia 11 de fevereiro, eu estava mal, só fui assistir.)
Meu treinador estava aqui ontem. Assim como esteve na minha melhor maratona, quando nem era meu treinador ainda, e eu passei nos 21km, e ele gritou: "Vamos, Lúcia, vamos! Tá muito bom!" E esteve enquanto eu tentava sair da última crise de hérnia. E esteve lá no hospital. E esteve durante a reabilitação. O lema da Winners Assessoria de Corrida é "Juntos somos Winners". Eu sou uma prova viva - e muito ativa - disso.
Existe risco de eu ter problema na coluna de novo? Sim. Eu tenho uma protrusão em L4-L5. Tenho 49 anos. E tenho sentido um pouco de pressão na lombar (hoje, por exemplo, estou sentindo - correr na areia é punitivo para mim, e é algo a evitar cada vez mais, assim como ladeiras e piso irregular). Minha coluna não é mais a mesma. Então por que eu continuo treinando tanto? Porque eu gosto. Tem gente que gosta de comer, de beber, de fumar, de ir a shopping, de viajar, de ler, de ver TV. Eu gosto de treinar. E é o que vou continuar fazendo enquanto minha saúde permitir - e espero ser uma velha coroca maratonista.