segunda-feira, 23 de maio de 2011

3:25:42

Minha quarta maratona. A melhor de todas. Até agora. :)
Superei amplamente a minha expectativa mais otimista, de fechar em 3h30.
E mais uma vez percebi que o que preciso mesmo é treinar a cabeça. Foi a maratona em que larguei menos nervosa, e isso foi bom. Eu me propus a fazer a prova apenas pra completar, sem me estressar com ritmo e tempo.
Eu tinha o objetivo de concluir entre 3h30 e 3h40. Mas não conseguia imaginar pra qual dessas pontas eu penderia. E é aí que começam os problemas da cabeça.
Para mim, o treinamento para essa maratona foi totalmente errático, instável e fraco. Eu achei que falhei muitos treinos e que oscilei demais nos que fiz. Meu volume semanal máximo foi de 90km, o que achei uma pobreza. Os tiros em pista então foram o mais completo fracasso na minha mente. Foram os treinos que eu menos fiz. Primeiro, porque comecei fazendo apenas uma vez por semana; segundo, porque foram os que eu mais falhei. Achei que fiz um treinamento apenas pra completar, mas não pra melhorar tempo. Evidentemente, eu estava totalmente errada.
Tenho certeza de que só consegui fazer o tempo de ontem por ter decidido não olhar pro relógio. Não olhei nenhuma única vez, a não ser pra ligar e desligar o cronômetro. Assim, eu não fazia a menor ideia do ritmo em que estava correndo. Simplesmente corri naquilo que meu corpo conseguia. A média geral foi de 4'51" por quilômetro. Minha volta mais fraca foi a 5'08", e isso no km 38, depois acelerei de novo (e não notei, achei que estava cada vez mais lerda). E aqui tem outro problema: eu achei que estava numa média de 4'50" nas voltas mais fortes, quando na realidade estava na faixa de 4'40". E, quando o ritmo caiu nos quilômetros finais e eu me aproximei dos 5', achei que já estivesse a 5'30" pra cima, eu me sentia trotando - e trotando devagar.
A coisa é que, se eu tivesse olhado pro relógio durante a corrida, teria começado com as seguintes ideias: "Huh, 4'40", isso é muito rápido, vou cansar, não vai dar pra segurar", e ficaria mais nervosa e insegura do que já estava. E é lógico que, se você acha que não vai conseguir, evidentemente não consegue. Mais adiante, cansada, em vez de correr a 5', iria mesmo despencar pra 5'30" ou mais, não porque o corpo não aguentasse mais, e sim porque a cabeça pensava isso.
Ontem comprovei inequivocamente o efeito pernicioso do relógio para a minha cabeça fraca. Comecei a reparar nisso nos treinos de rodagem. Se fico olhando pro relógio, fico me atormentando com pensamentos de "está forte", "está fraco", "apertei", "afrouxei" e simplesmente não consigo me concentrar na única coisa que interessa: correr. Em vez de observar o desempenho do corpo, fico observando os números do relógio. Aí em geral não acho que estejam bons, que eu esteja dentro. E, quando acho que está bom, começo a me estressar no esforço de manter aquilo de modo constante, sem oscilação. O que não é possível, é claro.
Na corrida da Adidas eu já havia ignorado o relógio e também consegui fazer um tempo bom, mas na ocasião não percebi o quanto o relógio no fim das contas me atrapalha. Naquela prova eu vi minha cabeça me sabotando em outro aspecto: me fazendo ceder ao cansaço, me dizendo que não dava pra aguentar mais. Essas ideias foram interceptadas pela presença de João Gabardo. Ele encostou em mim nos 2km finais e disse que ia me dar um gás. Eu disse que não conseguia fazer mais, ele não deu bola e me fez forçar o ritmo. Ainda me ajudou a ultrapassar uma corredora nos metros finais. Sozinha eu teria afrouxado e nem pensaria em passar pela outra.
O que me atrapalhou pra valer ontem e me atrapalha sempre é essa falta de autoconfiança geral, essa predisposição pra não dar tudo, pra não ir até o limite. E não é por covardia ou por querer me economizar. É muito pior: é por achar que meu limite fica abaixo de onde ele realmente está. Eu me subestimo. Acho que não sou boa o bastante, ou que não estou bem o bastante, ou que não treinei o bastante. E aí sim fico com medo: fico com medo de estar extrapolando, de estar querendo dar um passo maior que as pernas, de forçar tanto que terei um piripaque.
Em certos momentos das competições e treinos, essa insegurança tem efeito devastador. Eu entro em sofrimento não físico, mas mental. Meu treinador me chama de Cucamonga por causa disso.
Cucamonga atingiu o máximo da agitação ontem entre os quilômetros 17 e 19. Cheguei no pico do desânimo, tudo que eu queria era parar, o sofrimento parecia insuportável, tendo em vista que faltava mais da metade da prova. Uma parte de mim manteve a lucidez de ver que essa ideia era cretina, que eu estava apenas nervosa e insegura, mas que não havia motivo para pânico. O corpo estava bem, era só a cabeça surtando.
Minha cabeça surtou em boa parte dos 42,195km. Não sei exatamente o quanto. Sei apenas que surtou demais.
Minha corrida teria sido melhor e muito mais leve, feliz, alegre e divertida se eu tivesse sustentado a autoconfiança que senti plenamente por volta dos quilômetros 23 a 25. Foi o melhor momento da prova. Fiquei radiante, alegre e feliz por estar ali e tive a mais nítida certeza de que não só iria terminar a prova, como terminaria bem. Como de fato aconteceu.
Nunca me senti tão feliz ao cruzar uma linha de chegada! Mal pude acreditar quando avistei o relógio e percebi que fecharia bem abaixo de 3h30.
O mais notável de toda essa lambança é que só a mente Cucamonga não percebia o quanto eu estava correndo bem ontem. Passei por vários amigos corredores e treinadores em momentos variados, e todos me disseram que eu estava bem; quer dizer, todos viram que eu estava correndo bem e sem sinais de esforço excessivo ou sofrimento. Um deles me viu já perto da chegada, quando Cucamonga estava em total desespero, achando que dali a pouco eu estaria engatinhando; ele passou de bike e disse que nem ficou comigo porque eu estava com uma fisionomia ótima.
É exatamente isso que me dá certeza de que posso acabar com as autossabotagens: por mais atenção que eu dê a Cucamonga, essa parte de mim jamais assume o controle total das operações. Eu nunca abandono uma corrida ou treino, nunca afrouxo o ritmo a não ser que esteja realmente acabada. Eu (ainda) não consigo partir pra uma arrancada final, mas também passo longe de fazer corpo mole. E o melhor de tudo é que sempre sorrio muito naturalmente quando passo por outras pessoas e quando me aproximo da chegada. Porque nesses momentos eu tomo contato com a felicidade que sinto ao correr. A questão é essa: a felicidade e alegria estão sempre presentes. Mesmo quando me enredo em ideias de Cucamonga.