segunda-feira, 17 de junho de 2013

3:26:21

Há um ano eu ainda não podia correr. Havia recomeçado os treinos com caminhadas. Meu primeiro trote, de 30 segundos, foi no dia 19 de junho de 2012.
Ontem fiz a minha quinta maratona. A melhor de todas. Pela primeira vez não houve sofrimento mental. Todas as outras foram muito difíceis em termos mentais. Eu sentia medo, passava a corrida inteira me atormentando com pensamentos negativos. Um porre.
Ontem não senti medo. Cheguei para a largada feliz e animada. Com um nervosismo saudável. Larguei feliz da vida. Me mantive tranquila ao longo de todo o trajeto. Mesmo quando comecei a pagar a conta da falta de musculação neste ano e da interrupção dos treinos durante a viagem às vésperas da prova. Senti as pernas ficarem pesadas, sem força pra manter o ritmo em 4:45-4:50 depois dos 30km. Não deu pra fazer nas 3h23min planejadas pelo treinador. E daí? Daí nada. Depois de tudo que passei pra chegar até essa maratona, bem capaz que fosse me incomodar com mixaria. Se fizesse uma prova horrível, se tivesse cãibra, se sentisse a coluna, aí sim eu ficaria mal.
Não posso dizer que sofri ontem. Fiquei cansada. Muito cansada. Ficou bem difícil depois dos 35km. Mas nada insuportável. Sofrimento pra mim é outra coisa. Por isso, aliás, eu corro sempre sorrindo. Porque, por pior que a coisa esteja, por mais exausta que eu me sinta, por mais dor que eu possa estar aguentando, EU ESTOU CORRENDO. E estou correndo porque quero e porque posso. Não é uma obrigação, é uma escolha.
E ontem, quando a coisa ficou realmente difícil, Átila chegou de bike. Pedalou ao meu lado nos 3km finais, me ajudando a manter o ritmo possível naquele momento, em torno de 5:15. Mais do que o ritmo, a presença do treinador me ajudou a manter o ânimo, o foco e a autoconfiança que estavam indo pras cucuias. Ajudou a me fazer pensar menos no cansaço e mais na linha de chegada. Sozinha eu chegaria mais devagar.
Além de cuidar de mim, Átila foi incentivando todos os outros corredores pelos quais passamos, homens que estavam se arrastando naqueles quilômetros finais, sentindo muita dor e muito cansaço, que haviam chegado ao limite. Eles sim estavam sofrendo de verdade. Eu não. Eu estava acabada, exausta, mas não tinha dor. Então nada de pânico e nada de chorumela. Naquele sufoco pessoal, me alegrei por ver meu treinador se preocupando em dar uma força pra pessoas que ele nem conhece. Porque eu adoro isso na corrida. Todo mundo se incentivando até a linha de chegada. Eu empurrei um monte de gente, fui empurrada por muitas, muitas pessoas. Pra mim faz uma diferença enorme.
Meu companheiro de pista Amauri Celuppi cruzou a linha de chegada comigo, me acompanhou nos 500m finais, aquela eternidade sem fim. E me abraçou e me ergueu no ar depois do tapete - e foi um dos momentos mais plenos e alegres de minha vida. Maratona de novo!
E o carinho das pessoas antes da prova? E durante? Amigos, conhecidos, desconhecidos. Corredores e espectadores. E na linha de chegada? E depois? E o pódio com duas amigas? E o troféu recebido das mãos do Vanderlei Cordeiro de Lima, que ainda teve uma coisa simpática a dizer para mim e para todos os outros fãs dele?
Ontem mesmo, depois da premiação, já fui conversar com Átila sobre uma maratona para o segundo semestre. Quero festejar intensamente os 50 anos que estão chegando. Quero repetir a experiência de ontem. Porque a corrida, como todas as demais coisas de minha vida, está mais leve.