quarta-feira, 13 de março de 2013

Game over


Daqui a pouco mais vou levar minha mãe pra uma clínica. Vou tirá-la da casa dela pra sempre.
Eu sabia que esse dia chegaria desde 22 de abril de 2008, após a primeira consulta com o neurologista, quando eu vi pela primeira vez a aplicação de um teste chamado Mini Mental (MMSE, mini mental state examination), que detecta perdas cognitivas. Naquela consulta eu tive a constatação de que minha mãe estava mesmo doente - e sofri um choque ao ver a gravidade da situação, exposta cruamente pelo Mini Mental (que até nem foi tão ruim perto de outros que ela faria depois - até não haver mais necessidade ou condições de fazer) e pela entrevista dela com o médico.
Minha mãe morava sozinha, dirigia, tinha uma vida completamente independente. Eu decidi levá-la a um neurologista de minha confiança porque ela andava apresentando lapsos de memória anormais e o que eu sabia que eram crises de ansiedade. Uma das memórias mais tristes de minha vida é de um dia em que fui na casa dela e a mesa estava cheia de papeizinhos com lembretes. E uma lâmpada. Perguntei por que aquela lâmpada ali. "Porque preciso lembrar de comprar uma lâmpada", disse ela. Foi quando eu percebi o quanto as coisas estavam ficando difíceis pra ela, o quanto ela estava esquecendo tudo. Ali doeu. Ali eu soube. Ali eu vi o que viria.
Na consulta, descobrimos que as crises de ansiedade haviam sido provocadas pelo uso errático de um antidepressivo. E o médico me disse que era provável que ela tivesse Alzheimer (o que foi confirmado em seguida pelo diagnóstico de exclusão de outras doenças). Já nessa consulta, o médico sugeriu que minha mãe parasse de dirigir e tivesse uma acompanhante em casa. Ela surtou, saiu do consultório indignada. Mas ainda em 2008 tirei o carro, o cartão do banco, o talão de cheque e comecei o trabalho de persuadir minha mãe a ter uma acompanhante. Começamos com uma pessoa três vezes por semana, só de dia. No final do ano minha mãe já tinha uma acompanhante em tempo integral.
Minha mãe parou de dirigir depois de um passeio que fizemos até a Zona Sul em junho ou julho. Ela foi dirigindo - e no trajeto ela percebeu o quanto estava vacilando. Voltamos já comigo na direção. Ela nunca mais me pediu pra dirigir. Nesse passeio, ela me disse uma coisa comovente, mais ou menos assim: "Não sei se estou ficando maluca, mas resolvi não me preocupar mais. Essa doença não tem cura, eu me preocupar com o futuro não vai adiantar nada. Vou aproveitar o que puder enquanto puder". Foi um alívio para nós duas. Ela decidiu relaxar.
Durante um curto período, ela tomou um remédio para mascarar os efeitos do Alzheimer. Quando levei o remédio, foi a primeira vez que ela perguntou: "O médico acha que é Alzheimer mesmo?". Eu confirmei. E conversamos sobre o que aconteceria. Eu disse que iria cuidar de tudo, que ela teria que se conformar com a minha ingerência, que ela não poderia mais ser independente, mas que não precisaria se preocupar, porque eu sempre estaria com ela. No final dessa conversa, minha mãe falou: "Mas um dia eu terei que ir para uma clínica". Eu respondi: "Sim, mãe. Um dia eu vou te levar para uma clínica. Mas não tem por que se preocupar com isso, porque, nesse dia, você não vai mais saber que está em casa". E ela: "É mesmo." Nunca mais falamos disso.
Esse dia é hoje. Daqui a pouco.