terça-feira, 26 de março de 2013

Hoje não deu

Senti na pista o resultado dos excessos da semana passada. No treino e fora dele.
Pela primeira vez na vida quebrei um treino inteirinho. Dos 20 tiros de 300m, consegui fazer apenas dois dentro do tempo proposto, que era de 1:07-1:09. O resto explodiu a até 1:15. Em condições normais, seria um fracasso absoluto. Hoje, fiquei muito satisfeita por conseguir concluir as séries.
Fiz tudo errado na semana passada: não corri 10km na quarta, aí compensei os volumes, correndo 14km na sexta (quando seriam apenas 6km), os 22km de sábado no domingo (encurtando a pausa de recuperação) e, pra completar, 10km ontem (pra fechar a conta com os 8km de domingo que faltavam). Meu treinador vai ficar de cara quando checar as anotações da minha planilha, mas vou explicar pra ele o que já expliquei na pista pro Juliano e pro Cristian hoje: corri ontem só pra dar uma aliviada na minha cabeça. Na sexta fiz os 14km pelo mesmo motivo, estava uma manhã linda, era cedo, eu estava bem - e sabia que o resto do dia seria longo e muito difícil.
O que realmente acabou com meu treino de hoje foram os outros acontecimentos: minha mãe em surto na clínica nova, sem dormir, em furiosa agitação, desde ontem de manhã. Hoje eu tive diarreia pela manhã novamente - o que não é de espantar; espantoso foi a comida de ontem ter parado no meu estômago dado o grau de tensão.
Hoje fui na casa de minha mãe pegar coisas, depois fui na clínica anterior em busca de outras coisas que lá ficaram. Neuza foi comigo, ela sabia tudo que faltava. (E ainda terei que voltar lá pra tentar resgatar mais umas coisinhas, afff.) E na sequência fomos ver a mãe.
Foi muito perturbador. Eu nunca tinha visto minha mãe em pleno surto. O olhar dela... A demência furiosa. Entendi por que as babás ficavam tão nervosas e eventualmente assustadas. E por que atendentes de clínica podem querer evitar contato com pacientes como ela (embora isso seja inadmissível, porque em teoria deveriam estar preparadas para lidar com essa situação). Hoje ela não se alegrou ao me ver. Me reconheceu, mas estava tão brava que nem cumprimentou, nem tomou muito conhecimento. Falou comigo para pedir que eu tirasse as "luvas" (contenções para as mãos, para evitar que se machuque, que ataque quem chega perto e que fique mexendo na contenção de cintura que a mantém presa pela cintura a uma poltrona) e para irmos embora.
Uma coisa é o estado de confusão permanente, e até mesmo os ataques de rabugice, quando ela se incomoda e fica reclamando. Em alguns momentos chega a ser cômico. Ou tragicômico. Enfim, a mãe é minha, eu que cuido e me importo, e eu prefiro rir sempre que dá, ou ao menos sorrir, manter qualquer nível de leveza possível. Não vou chorar por bizarrices, como usar brincos de orelha nos dedos dos pés, ou querer enfiar a fralda como se fosse uma blusa, ou colocar pasta de dente no cabelo, e querer aplicar desodorante na escova de dente. Tudo isso ela fez, tudo isso é light.
Outra coisa bem diferente é o que vi hoje. É um estado de fúria sombria. Psicótica. O olhar dela revela a natureza perversa da doença. Não fiquei muito tempo com ela para não me tornar motivo de mais agitação ainda. E é claro que uma parte de mim não quer ver minha mãe nesse estado - porque mal dá para identificar minha mãe ali. Mas não sinto medo ou repulsa. Percebo a natureza amedrontadora e assustadora da doença que avança com ferocidade pelo cérebro de minha mãe. Mas mantenho a serenidade. Isso não me desestabiliza (não muito). Isso é a doença.
O que me angustia e tensiona é o esforço para mantê-la bem cuidada e amparada. Para que tudo seja o menos ruim possível. Isso me esgota física, mental, emocionalmente.
Bem, hoje vou dormir menos preocupada. Tive certeza de que minha mãe está sendo bem cuidada. Por pior que ela esteja se comportando, por mais trabalho que esteja dando, está sendo muito bem tratada - com cuidado, atenção, respeito e compaixão por seu estado vulnerável. Está limpa, vestida, arrumada, alimentada e medicada. A nova clínica é realmente um lugar muito bom. Minha mãe foi mantida em seu quarto hoje - e o quarto sempre está impecavelmente arrumado, a cama estendida com colcha. Tudo limpo e em ordem. As roupas no armário cuidadosamente dobradas e organizadas.
Eu ligo várias vezes por dia para saber como ela está. Não se trata de ficar em cima vigiando, eu quero saber o que está acontecendo, quero me manter informada - e não abro mão de participar das decisões sobre os cuidados com ela. Hoje tive o insight de que simplesmente cuido dela como ela sempre cuidou de mim. Minha mãe jamais me largaria num hospital ou instituição. Jamais deixaria que outros assumissem minha custódia. Eu sigo o exemplo. :)
Na última ligação de hoje, a atendente disse que minha mãe finalmente estava dormindo! Ferrada no sono. Maravilha. Tomara que amanhã ela acorde mais pacífica.
E eu, como minha mãe, vou seguir em frente, desempenhando minhas várias atividades. Inclusive o treino para maratona e as responsabilidades de tutora.