quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Haja paciência

"Somos como pedaços de madeira. Tentar aparar nossas arestas ásperas com veludo e seda não vai funcionar. Precisamos de uma lixa. As pessoas que nos incomodam são a lixa. Elas vão nos aplainar. Se considerarmos aquelas que são extremamente irritantes como nossas maiores ajudantes no caminho, podemos aprender muito. Elas deixam de ser problema e em vez disso tornam-se desafios."

Quando eu digo que sou muito afortunada, que tenho muito mérito, não é exagero. Às vezes creio que inclusive falho em manter essa percepção. Porém, quando ela se manifesta, como há pouco, é uma bênção.
Acabo de traduzir o trecho acima. Faz parte de um comentário sobre a Paciência, uma das Seis Paramitas, as qualidades fundamentais para a iluminação, pilares da ética budista.
Enquanto traduzia, um desconhecido veio aqui no blog e se deu ao trabalho de postar comentários agressivos, provavelmente porque se sentiu agredido pelo que escrevi sobre o patético evento da autocensura do Santander Cultural, subserviente a conservadores incultos e de índole ditatorial. Conservadorismo e índole ditatorial evidentemente não se restringem à direita, muitíssimo pelo contrário, como qualquer um que leia um mínimo de história sabe bem. E o episódio da exposição Queermuseu mostrou isso, com conservadores de direita e de esquerda unidos nos ataques a uma mostra que nem ao menos foram ver.
Paciência não é meu forte nas Seis Paramitas. (Nenhuma das Paramitas é meu forte - ainda.) E eu realmente não tenho paciência com gente agressiva e ignorante/intolerante. Agora, se eu perco a paciência, obviamente me rebaixo ao nível do que abomino e que me impacienta.
Que bênção já ter essa percepção. Que bênção maior ainda estar traduzindo um trecho especificamente sobre a paciência quando ela se fez necessária. Em vez de ceder aos meus baixos instintos, tentei me manter pacífica. Pacífica me mantive.
And let´s give credit where credit is due: minha prática da paciência e minha prática budista em geral estão evoluindo sim. Nada de progresso espantoso. Mas progresso sim.
Não é a primeira vez que percebo a nuvem negra da irritação se avolumar e avançar ligeira pelo céu de minha mente e, ao perceber, dissipá-la ou ao menos soprá-la embora. Isso tornou-se a prática habitual. No caso da Queermuseu. No trânsito. No trabalho. No treino. Nos relacionamentos.
Não é fácil. Não é automático. Não é perfeito. Mas já é um belo começo.