quarta-feira, 13 de setembro de 2017

TPB

Transtorno de personalidade borderline.
Só é diagnosticado após os 18 anos, mas pode se manifestar na infância.
No meu caso começou muito cedo, anos antes da alfabetização. Lembro das minhas unhas ruídas até a metade. Lembro de me olhar no espelho e não saber quem era aquela menina sombria (e feia - eu me achava muito feia) que eu via refletida. Lembro da sensação de vazio. Lembro do medo paralisante de me perder, de ficar sozinha. Lembro da dor. Lembro da tristeza. Lembro do desamparo.
Ambiente muito hostil. Abuso. Mãe doente.
Ontem, prestes a completar dois anos de terapia, tive uma sessão extraordinária. Pela primeira vez pedi para ser medicada. Eu já tomo uma medicação, mas por sugestão da terapeuta, porque eu nunca quis por livre vontade. Já havia usado antidepressivos, parei por conta própria no verão. No outono a coisa desandou, e há alguns meses tomo lamotrigina, "antiepilético usado também atualmente como estabilizador de humor para os casos de pacientes com o espectro bipolar". (Só agora, pra escrever aqui, fui pesquisar a bula da lamotrigina. Sei que é para estabilizar meu humor, mas não sabia que era no espectro bipolar.)
"Para quê?", perguntou Letícia, quando eu disse que queria ser medicada. "Para não sentir o que eu sinto, para não sentir as coisas do jeito que eu sinto. Para não me sentir do jeito que eu me sinto." Porque tenho feito tudo o que posso para me manter estável. Trabalho. Alimentação. Meditação. Treino. Mas nada basta. Do nada vem a turbulência. Onda. Ventania. Explosão. Não consigo prever. Não consigo impedir. E me desgasto muito no esforço de reestabilização.
Pela primeira vez pedi para ser medicada e pela primeira vez perguntei qual era o meu diagnóstico clínico. O que é isso que eu tenho? Letícia foi reticente e muito cuidadosa. Mas é isso. Transtorno de personalidade borderline. Muito bem resumido na Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_personalidade_lim%C3%ADtrofe). Ler esse artigo foi ler uma descrição de mim mesma. Foi um alívio. Não é um rótulo, eu não sou isso. Sou muito maior que isso. Mas isso faz parte da minha personalidade. É algo com que tenho que viver. Aprender a conviver. Não posso ser outra pessoa, mudar a personalidade não é algo exatamente viável. Mas posso me manter basicamente estável. Além da terapia, comecei a usar a risperidona, um antipsicótico, "um composto que possui um efeito eficaz sobre um certo número de transtornos, geralmente relacionados com o pensamento, com as emoções ou com as atividades. (...) Melhora também a ansiedade, a tensão e o estado mental causados por estes transtornos, sendo também utilizada para manter os distúrbios sob controle".
O transtorno de personalidade borderline causa muito, muito sofrimento. Mas não apenas isso. Tem também um lado muito positivo: "Pessoas com TPB são excepcionalmente idealistas, alegres e amorosas". Eu sou assim. E pretendo me manter mais nesse polo, próximo dele. Isso é possível.