segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Coisa bem boa


Ontem corri uma maratona de revezamento num quarteto.
Foi a primeira competição desde que mi amor de treinador iniciou um trabalho voltado à minha educação para tolerar melhor o esforço e não afrouxar o ritmo quando bate o cansaço. E foi a primeira vez em que me senti melhor na volta que na ida.
As competições haviam se tornado um enorme sofrimento pra mim. Já no primeiro quilômetro eu começava a odiar estar lá, me indagando por que afinal me submetia a uma experiência tão desagradável. Pensava em parar, em caminhar, em nunca mais competir, em trotar - e seguia correndo nesse (mau) humor contraproducente, de má vontade - como se eu corresse por obrigação e não por prazer. Claro que terminava as provas mal. Os nervos tão retesados quanto meus músculos e articulações.
Desde a maratona de maio, que foi um turning point na minha relação com a corrida (e com a vida em geral), eu voltei a ter muito prazer em treinar, basicalmente na pista. Mas as rodagens na rua não me animavam tanto (e eu andei falhando os treinos), e as competições eram um total desgaste.
Conversei com Edu sobre isso depois da meia-maratona no mês passado, que foi um verdadeiro suplício. E desde então estou treinando a resistência - física e emocional - na pista, em tiros médios e curtos combinados, com intervalos curtos, e em fartleks. Nos primeiros treinos eu achei que jamais fosse conseguir agüentar aquilo - e sequer aprender a fazer. Claro que agüentei. Errei todos os ritmos no início, mas depois fui encaixando. Na semana passada, a terceira disso, fiz tudo direitinho. E o cansaço físico e o sofrimento mental diminuíram muito. O corpo e a mente se ajustaram. Prática. Disciplina. Concentração. Como sentar para meditar.
E ontem foi a mesma coisa. Foi curioso observar the workings of my mind. And body.
Antes de largar eu estava ultranervosa. Mas assim que comecei a correr dei a primeira encaixada: não havia por que estar nervosa, estava treinada e tinha total condição de fazer aquilo.
Pra variar, saí feito uma doida, e logo senti os antebraços formigando, sinal de que estava num ritmo insustentável. Aí encaixei de novo.
Ali pelo km 2, tive um surto das idéias fracas de sempre, de que não ia agüentar, de que era pesado demais e tal, mas o corpo não acompanhou a mente, eu percebi claramente que estava numa ótima, e encaixei outra vez.
Antes da virada nos 5,25km, lembrei do que Edu me disse, de que eu precisava aprender a segurar o ritmo na volta, não afrouxar na virada - pelo contrário, pensar que a partir dali era o fim e que tinha que dar tudo e até tentar negativar. Não negativei, mas não afrouxei.
Fiz minha corrida mais constante. E nos metros finais consegui abrir um pouco a passada, ao contrário do que sempre acontecia; quando avistava a chegada eu muitas vezes afrouxava.
Cheguei inteira, bem. Corri no tempo que estou treinada pra fazer. E não senti o calor que castigou muita gente. (Eu gosto de calor, tenho uma boa resistência a altas temperaturas, passo mais trabalho no frio.) Dei duro, me puxei, não estava lá passeando, não teve nada de moleza. Mas estava confortável porque estava preparada para e disposta a passar por aquele esforço. E uma coisa é esforço, outra é sofrimento. Havia uma motivação e um foco. E não havia motivo para sofrer. Nunca houve. Simplesmente criei uma paisagem mental de sofrimento nas corridas e me meti lá dentro.
Não consegui sustentar a paisagem mental de conforto o tempo todo. Houve vários momentos de sofrimento, a mente oscilou bastante. Mas foi como uma prática de shamatha: a mente se desviava do objeto de concentração e era trazida de volta.
Quando Paulão massageou minhas pernas, notei que elas estavam soltas, relaxadas. Como minha mente.
:)
Tudo em minha vida serve pra praticar aquilo em que acredito.
:)