domingo, 2 de novembro de 2008

No Dharma

Cheguei há pouco do Cebb - Centro de Estudos Budistas Bodisatva. Passei o fim de semana lá, em retiro, ouvindo ensinamentos sobre bodhicitta, a mente que busca a iluminação para o benefício de todos os seres. O professor foi monge Gabriel, que estuda na universidade monástica Dzongsar Shedra, na Índia, perto de Dharamsala, sede do governo tibetano no exílio e residência oficial de Sua Santidade o Dalai Lama.
Freqüento o Cebb há dez anos, e esse foi apenas o segundo retiro que fiz. O primeiro foi no ano passado, com o lama Padma Samten. Sou uma praticante budista muito relapsa, mas estou tentando melhorar. E já vi que para isso é fundamental manter contato com a Sangha. Essa coisa de praticar apenas no dia-a-dia fica muito solta. O simples fato de estar freqüentando pelo menos um evento do Cebb por semana já me deixou muito mais conectada.
Tenho a bênção de traduzir obras budistas com freqüência, e isso mantém minha conexão. Mas está na hora de praticar mais. Especialmente o sentar. Acalmar o corpo e a mente. No retiro, meu corpo pareceu causar mais agitação do que a mente. Não consigo ficar muito tempo sentada em meio-lótus, meus joelhos doem, parece que minha consciência transfere-se pra eles. Afffff.. Sem falar que os joelhos ficam tão altos que tenho que sentar em cima de duas almofadas para mantê-los baixos como devem ficar. Eta dureza!
O caminho para a iluminação assenta-se sobre o binômio sabedoria e compaixão. Preciso estudar mais, mas preciso especialmente praticar mais. Ou vou acabar sendo uma budista teórica. E todo mundo sabe que, na prática, a teoria é outra...

Esse é monge Gabriel. Tenho enorme carinho e admiração por ele. Monge Gabriel tem grande interesse pela tradução de textos. Temos em comum o desejo de aprimorar a linguagem do Dharma em português. Monge Gabriel está trabalhando para concretizar meu sonho de tradutora e estudante budista: a criação de um dicionário em português que ofereça sinônimos para termos tibetanos e sânscritos e, mais que isso, verbetes com a explicação aprofundada dos termos originais. Porque simplesmente não há como traduzir termos do tibetano e do sânscrito para palavras dos idiomas ocidentais. Os termos originais exprimem conceitos profundos, sofisticados, complexos e extremamente sutis. Então, nos idiomas ocidentais, o que se pode fazer é usar uma palavra a grosso modo, como uma sigla ou abreviatura, ou uma sinalização. Se ao menos usarmos essas palavras de forma padronizada já será muito bom. Hoje em dia, cada um traduz como acha melhor.

O hábito não faz o monge. E eu não quero ser monja - por enquanto. Mas sinto que elementos da tradição podem sim ajudar muito a gerar e manter a motivação. Por isso, peguei uma tchuba e uma meia-tchuba emprestadas de minha amiga Regina, e levei para minha querida costureira Teka. Um dos resultados é essa tchuba da foto. Teka fez mais uma assim, em azul, e uma meia-tchuba, que é apenas a saia, na cor denominada de "beringela" pela funcionária simpática que me atendeu no Empório das Sedas. Pra mim é roxo, outra cor que eu muito aprecio (minhas unhas, aliás, estão pintadas de roxo essa semana).
De tchuba, de axó ou de saree não me sinto fantasiada. Tenho identidades ligadas a essas culturas. Identidades ligadas basicamente à espiritualidade.