quinta-feira, 20 de outubro de 2016

3 meses

A melhor coisa que fiz no último ano foi ter voltado à terapia.
A sessão de ontem foi daquelas. Anda, vira e mexe, todas as minhas dificuldades remontam ao abandono do pai. Há anos as sensações ligadas ao trauma vêm à tona. Vieram de novo com o fim de meu primeiro relacionamento longo com uma mulher. Mulher essa que reúne características - para o bem e para o mal (que na verdade é para o bem também) - da minha mãe e do pai sobre o qual não sei quase nada.
Eu já sei há tempo que os finais de relacionamento são especialmente dolorosos para mim porque remetem a memórias infantis. Mas até agora eu não tinha muita clareza sobre o tipo de memória. Ontem comecei a ver melhor que minha dor não é apenas a memória do abandono, mas a dor pela falta de memória do pai. Além da dor da perda, a dor desse vazio que nunca me ocorreu preencher.
Meu pai foi embora quando eu tinha um ano e meio de idade; morreu quando eu tinha 30 anos. Nunca em todo esse tempo sequer cogitei procurá-lo. Nas primeiras vezes que me perguntaram: "Mas por que você nunca procurou?", isso me soou totalmente absurdo. "Como assim? Por quê? Para que faria isso?", eu pensava. Ontem percebi que absurdo foi eu jamais ter sequer cogitado fazer isso.
Por que não cogitei? Porque fui criada sem que a palavra "pai" fosse mencionada, a não ser para dizer que nosso pai tinha nos abandonado (e ele jamais nos procurou mesmo), que era cafajeste e machista. Para completar, me diziam: "Ela tem o gênio do Martin", o que não era de forma algum um elogio.
Nunca me ocorreu procurar o cafajeste machista que nos abandonou e que tinha um gênio horrível como o meu. Mais triste ainda foi que nunca me permiti sentir saudade, muito menos sentir o amor que eu tinha por ele quando bebê. Não senti a dor da separação. Não senti curiosidade em conhecer. Não senti nada. Quando comecei a sentir, mal consegui lidar. E definitivamente não consegui entender a violência da manifestação. Só agora tudo está se reencaixando.
Ontem fiz buscas por meu pai na internet. Martin Barreto de Brito. Não encontrei nada que pudesse me levar a primas (que sei que tenho) ou eventuais meio-irmãos.
As poucas coisas que ouvi sobre meu pai sem o viés totalmente negativo foram as escassas lembranças do meu tio, irmão de minha mãe. Que explicou que não fomos exatamente abandonadas. E que Martin não era um monstro completo.
Meu tio também confirmou no mês passado o que eu sempre soube, minha memória mais antiga: minha irmã era a preferida da família materna - a começar por minha mãe. Ela nasceu aqui. Eu nasci no Rio. Eu nunca pertenci, eu nunca fui realmente dessa família, eu sempre me senti um corpo estranho. E claro que sempre ouvi que isso era coisa da minha cabeça. 52 anos depois, meu tio, padrinho da minha irmã, mas o único aqui que via isso claramente, confirmou o que eu sempre soube e sempre negaram.
Talvez eu jamais possa preencher o vazio de memórias do pai. Mas posso fazer muitas coisas. Dissipar as dores que recalquei até agora. Olhar para meu pai (e minha mãe) com amor, sabedoria e compaixão. Meus pais fizeram o melhor que podiam. E sou imensamente grata. Por tudo. Porque antes de tudo sou budista. E me vejo cada vez mais como senhora do meu carma.
Ao aceitar meu pai e minha mãe como eles eram, ao valorizar suas qualidades e o que fizeram por mim, posso me aceitar. E me valorizar. E aceitar e valorizar minha ex-namorada, para sempre minha amada ex-futura-mulher. Guardar as boas memórias - porque desse relacionamento e dos anteriores eu tenho memórias (que de várias formas eu tentava deletar).
Posso me ver e me relacionar com os outros de modo inteiramente diferente. Isso já começou. Inclusive e especialmente no aspecto profissional, que foi o motivo para eu voltar a me tratar. Estou mandando muito bem na editora. Três livros fechados em 50 dias. E agora já envolvida em uma nova parceria para outros projetos ligados às minhas habilidades de jornalista, editora e tradutora. Empolgante. E empolgada. Brilhando.
Me parece muito natural que meu longo processo de cura e crescimento chegasse ao ápice durante um relacionamento com outra mulher. Minha infância foi com minha mãe, minha avó e minha irmã. Meu arquétipo masculino tomou emprestadas várias características de minha mãe.
Amar Rita e me entregar a esse amor por inteiro, mente-coração-corpo, abriu o caminho para eu poder acessar meus sentimentos recalcados. Uma mulher tão parecida com meus pais me possibilitou o resgate deles - e o meu próprio. Tive a felicidade de encontrar o que precisava, ter percebido a oportunidade e aproveitado a experiência.
Ontem, pela primeira vez em toda a minha vida, não consegui falar por alguns momentos. Sufoquei. Sentada na frente da minha terapeuta, instigada por ela, senti a garganta fechar com a vazão da dor da qual sempre tentei fugir. Ao abrir esse compartimento hermético, deixar a luz e o ar entrarem e liberar o que estava encerrado, me iluminei mais um pouco. Essa luz me permite colorir minhas memórias com vários matizes. Rita, mãe, pai, eu - ninguém é de uma cor só. Todos temos nuances. Coisas maravilhosas, boas, mais ou menos, ruins, péssimas. O lance é reconhecer essa verdade básica, aceitar todos como são e se ater às coisas positivas. Nutrir o belo. Em mim. Nos outros. Nas minhas memórias. Neste exato momento.
Minha ex está em um novo relacionamento. Antes, pior ainda que a separação era ver o espaço que eu havia ocupado na vida e no coração d@ ex ser preenchido por outra pessoa. Dessa vez não.
Finalmente não me sinto mais abandonada e rejeitada. E não sinto raiva, nem ressentimento, nem ciúme por causa do abandono e rejeição. Senti no início, ainda presa às emoções infantis. Mas passou. Agora, sinto amor, carinho, gratidão. Desejo sinceramente que a ex seja feliz. Que encontre o que procura. E que seja para a nova namorada o que eu gostaria que tivesse sido para mim. A melhor pessoa que ela possa ser. Exatamente o que desejo para mim e para todos os seres. (Opa, todos os seres ainda não. Mas tenho a firme intenção de chegar lá. :) Estou no caminho.)

Três meses que Lízia foi para São Paulo e que terminei o relacionamento.
Precisei ficar afastada das duas pessoas mais próximas para me aproximar de mim, do que havia de mais recôndito e sombrio em mim. Para encarar de frente aquilo de que sempre havia fugido e sempre tentara manter intocado.
E agora a sensação é muito parecida com o despertar de um sonho tenso.
E é exatamente isso.
Mais desperta. Mais lúcida.
LUX


Com frequência guardamos ressentimento porque não queremos livrar a outra pessoa.
Mas quem fica realmente enganchado: a que foi em frente ou a que está agarrada?