sábado, 29 de outubro de 2016

Parada no tempo

Alguns dias são difíceis.
Sextas-feiras em geral são melancólicas.
Faz tempo. Mas, quando sinto o que sinto agora, parece que foi ontem.
E é como se uma parte de mim estivesse congelada no tempo. Esperando você voltar.
Uma parte de mim está congelada no tempo. E ainda espera você voltar.
E é essa parte que escreve agora. É essa parte que sente saudade, que deseja você, que anseia pela vida que sonhava ter a seu lado. Que coleciona milhões de pequenas memórias doces e singelas. Que quer dormir no seu ombro, com as pernas enroscadas, com Vicky e Kaky por cima de nós. Que não entende o que faltava pra você. Que não compreende por que você nunca foi feliz comigo como eu era com você.
É essa parte que sofre horrivelmente com uma separação que não queria e ainda não quer. E que não consegue elaborar.
É essa parte que eu reprimo todos os dias o tempo todo.

Não vou postar isso hoje. Talvez não poste nunca.
Mas precisava escrever. Porque a saudade hoje estava me sufocando.
Não sei se é saudade de você ou das coisas que eu sentia com você, por você.
Quando sinto essa dor, a única coisa que me conforta é saber que você está bem. Que seguiu sua vida. Que encontrou uma pessoa para compartilhar as coisas de que gosta. Alguém mais compatível, mais de acordo com o que você busca. E fico feliz por você. Sinceramente.
Aí lembro da minha inadequação na sua vida. Lembro das coisas que você pensa a meu respeito, das coisas que me disse muitas vezes sobre o quanto a minha forma de ser lhe perturbava e irritava. A começar pela forma como eu bebo água e como. Aí, mesmo a parte de mim que segue esperando você entende que acabou. E que não poderia ser diferente. Porque pra você eu simplesmente não sirvo. Aí minha parte congelada na espera entende por que você foi embora tantas vezes. Por que nunca conseguiu ficar de verdade. Inteira. E por que eu nunca pude ser eu mesma com você. Por que eu vivia tensa, intimidada e, por reflexo, na defensiva. Por que eu não conseguia viver e manifestar plenamente o meu amor imenso por você. Por que sempre havia uma hostilidade mútua e velada entre nós.
Essas reflexões não me causam dor. Pelo contrário. Me tranquilizam. Porque é olhando para isso que eu vou em frente. E não vou atrás de você. Porque, por mais que eu ame você, por mais que eu quisesse ficar com você, eu não queria, não quero e não poderia e não posso ser o que você sonhava, desejava, imaginava, queria, exigia.
Amar você me fez rever minha identidade sexual. Me fez crescer. Me fez melhor. Mais tolerante. Mais sábia. Mais compassiva.
Outras sextas-feiras virão.
Numa delas, ou em algum outro dia qualquer, vou voltar a este post. Vou reler. E vou postar porque essa parte congelada e à espera terá se dissipado no meu eu maior, que amadureceu e se aprimorou em virtude do meu amor por você e da nossa separação.

Nota de sábado, 29 de outubro
Não se passaram 24 horas e resolvi postar. Como mais uma ação de me assumir plenamente como sou. Não para os outros (apenas). Antes de mais nada e acima de tudo para mim mesma.
Não é uma questão de sair do armário. É uma questão de abrir o armário interno. Na real, um cofre. Ou a masmorra onde me aprisionei.
Passei a vida inteira querendo ser aceita como sou. A aceitação tem que começar por mim. Tenho que aceitar todas as minhas múltiplas facetas, algumas conflitantes. Essa, de momento, é a que eu mais reprimia. Agora está aqui. Exposta. Como as cinzas de mãe. Tema do post que virá a seguir.