sábado, 29 de outubro de 2016

Giros e desbloqueios

A espiral ascendente segue em movimento. Cada volta fecha um ciclo. E dá início a outro. No movimento circular, passa-se pelo mesmo ponto continuamente, mas em outro nível, de uma distância diferente - ou seja, com outra visão.
Vejo a realidade com olhos budistas (quase cegos talvez, mas budistas - e aos poucos a visão vai melhorando). Quando digo que fecho um ciclo, que termino uma coisa, não quero dizer que aquilo acabou, que não vai mais existir para o todo sempre. O que eu digo é que aquela forma de ver cessou. Que minha visão mudou. Apenas isso.
Não existe começo. Não existe fim. Existe fluxo incessante.
Minha visão de mim está mudando dia a dia. Da noite para o dia, às vezes. Como nessa noite. Acordei às 4h depois de um sonho sobre afastamento e distância. E com uma nova percepção sobre as sensações de abandono e rejeição, o cerne dos desafios desta minha vida. E sobre meus mecanismos de fuga e negação. E sobre a minha relutância em me aceitar plenamente. Em aceitar coisas que não quero admitir que existem em mim.
Para fugir, para não ver, não sentir, não tomar contato, lançava mão do bloqueio. Só que não funcionava. Esses bloqueios no fim das contas eram autobloqueios. Eu deixava de ver e acessar partes minhas. Aquelas que eu não aceitava. Que não condiziam com a imagem que eu queria fazer de mim - e que queria que os outros fizessem de mim.
Cresci querendo ser amada. Ser aceita. Pertencer. Fui um corpo estranho na minha família. "O gênio do Martin." A inconveniente. Inadequada.
Uma parte de mim sempre quis ser como todo mundo. Outra parte sempre quis ser o que era. A diferentona. Esquisitona. Conheci vários diferentões como eu. Casei com um. Namorei vários. A terapia mostrou que eu nunca seria "como todo mundo". E o principal: que algumas coisas em mim não mudariam, mesmo que eu quisesse. Os sintomas. Eu simplesmente teria que aprender a conviver com eles. Aceitá-los. Aprender a manejá-los. Não ser tão reativa. Tão intensa. Caminho do Meio.
Não posso mudar o passado em termos de eventos. Mas posso mudar minha visão dos eventos passados. E, ao mudar a visão, mudo a minha realidade - passada, presente e futura. Reescrevo a ficção da minha vida.
Nas últimas sessões, minha sagaz terapeuta começou a sinalizar minha relutância em admitir determinados sentimentos conflitantes. E a me inquirir sobre eles. E minhas resistências foram afrouxando. Desde domingo passado, o processo de autoaceitação acentuou-se. E estou registrando publicamente aqui no blog. Por quê? Porque a autoaceitação não me basta neste momento. O gênio do Martin quer ser aceito socialmente como é. Ou pelo menos reconhecido. Quer se manifestar. Quer se expressar. Quer ser visto. Talvez por eu estar repassando o primeiro setênio, a primeira infância, quando o gênio do Martin foi identificado como algo negativo, inaceitável, que não deveria ser.
Hoje o Lama Padma Samten referiu-se à cerimônia de espalhar cinzas como "exposição das cinzas". Expus as cinzas de minha mãe. E estou me expondo. Para mim e para o mundo. Saindo de dentro de mim. Me inteirando.
Estou sendo a energia que quero atrair.