quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A urna de minha mãe. Chegou aqui em casa no dia 21 de maio do ano passado. No dia seguinte, levei para o Cebb. Foi depositada numa prateleira do altar, onde está até agora.
Neste sábado, o Lama Padma Samten conduzirá uma pequena cerimônia para espalhar as cinzas no Bosque de Amitaba. Regina, minha tutora, havia falado sobre isso na semana passada. Hoje pela manhã confirmou.
Fiquei emocionada. Mais um ciclo se fecha. Senti como se minha mãe considerasse que, agora que estou me organizando na vida, ela pode ir embora de vez. Obviamente é apenas um simbolismo mental meu. Mas me fez bem pensar isso. Sentir assim.
Lembro do desconforto que senti quando as cinzas chegaram aqui em casa. Uma caixa de madeira. Um saco de plástico com um pó fino, bege claro. O que sobrou do corpo de minha mãe. Um corpo que estava totalmente devastado pelo avanço furioso do Alzheimer. Com uma mente ainda mais destroçada. A morte de minha mãe foi a melhor coisa que poderia acontecer. Um alívio. Pra mim. E para o que restava dela - que felizmente era pouco, mas ainda assim restava. E eu me sentia despedaçar quando imaginava o que restava de consciência nela.
Fiquei olhando a caixinha. Parada. Inerte. Embotada. Mais ou menos como me senti durante a longa derrocada dela. Nunca senti nada. Não tinha tempo. Não tinha energia. Não tinha coragem. Eu só sentia angústia. Pressão. Urgência. Mas nunca me desesperei. Raramente chorei. Eu só olhava e pensava o que eu poderia fazer. Mais perto do fim, só olhava petrificada, sabendo que não havia mais nada que eu pudesse fazer além de desejar que ela morresse logo e não sofresse. Não sofresse mais, porque eu sei que ela sofria. Isso eu sentia. Mas não me deixava sentir. Porque qualquer coisa que eu sentisse mais intensamente em relação à agonia de minha mãe me faria surtar. O horror. O desespero recalcado de vê-la viva como uma planta. Morrendo lentamente. Murchando como uma planta.
Ir na clínica era um suplício. Eu tinha vontade de me jogar no chão e gritar. De sair correndo. De vir pra casa e me deitar, me esconder. Sumir. Fugir. Fugir do que eu sentia.
Até hoje não sinto o que sinto a respeito da doença de minha mãe.