domingo, 30 de outubro de 2016

Amor, saudade, carência, ciúme

Depois das enormes e violentas ondas de saudade da sexta-feira, os efeitos da ressaca passaram, e meu mar emocional está calmo nesse domingo lindo.
Enquanto tomava o café da manhã/tarde há pouco, tive um insight sobre como vejo amor, saudade e carência. É impressionante a quantidade de insights que tenho pela manhã. Em geral enquanto estou nas tarefas iniciais, preparando o café, lavando louça, arrumando o espaço dos gatos, essas coisas.
Amor é o desejo de que o outro seja feliz. É o conceito budista. É a minha visão faz tempo.
Saudade para mim é a recordação de experiências felizes. Minha saudade de uma pessoa amada é a recordação dos momentos felizes com ela. E, muitas vezes, o desejo de reviver essas experiências.
Carência no relacionamento amoroso para mim é o desejo de que o outro me faça feliz.
Saudade e carência são formas de apego, é claro.
O que percebi ao observar meu maremoto emocional recente foi uma sutil, mas importantíssima qualidade da saudade experimentada. Minha saudade tem origem no amor, no apego a uma experiência de amor e não de carência. Sinto saudade de estar feliz com uma pessoa que ficava feliz ao meu lado. Sinto saudade do amor que havia. Sinto saudade da felicidade compartilhada. Não da minha felicidade apenas. Os momentos de que realmente sinto saudade são aqueles em que a outra pessoa estava feliz simplesmente por estarmos juntas.
Não tenho a pretensão (nem a falta de noção) de proclamar que não existe carência em mim. Claro que existe. Claro que espero que as pessoas que amo me façam felizes (e fiquem felizes comigo mesmo que eu não faça nada para isso, só por estarem comigo). Mas sou muito mais amorosa que carente.
Se uma pessoa não é feliz comigo, tenho que soltar. Soltar a pessoa e, acima de tudo, soltar a minha carência, desapegar. Não há como eu me sentir feliz percebendo que não sou uma causa de felicidade ou sendo uma causa de infelicidade, ainda que involuntariamente.
Não é fácil. Mas é possível.
Para mim, tornou-se possível muito recentemente.
Hoje, o amor faz com que eu me sinta feliz ao ver a pessoa amada feliz.
Ainda existe carência. E eu senti essa carência agudamente ao ver a pessoa amada em um novo relacionamento. Mas, dessa vez, foi manejável. Porque dessa vez percebi a carência como o que ela é. Uma emoção extremamente arraigada em mim desde a primeira infância. Assim como o ciúme. E a sensação de rejeição e inadequação.
Meu pai desapareceu de minha vida quando eu tinha um ano e meio. Pouco antes disso, minha irmã nasceu. Eu tinha um ano e três meses. Foi quando eu vi pela primeira vez o meu objeto de amor, minha mãe, com outra pessoa no lugar que era meu. (E depois vi que eu era um corpo estranho na família como um todo, o que gerou mais obstáculos.) Por isso, já adulta, quando um relacionamento chegava ao fim, eu ficava arrasada primeiro por associar a separação ao abandono do pai. E depois ficava ainda mais arrasada quando via o ex com outra pessoa por associar à minha mãe e irmã. Claro que todo mundo sente isso, mas eu sentia de uma forma exagerada, desproporcional. Incapacitante.
Abandono, carência, ciúme, rejeição e inadequação entrelaçaram-se e se tornaram uma maçaroca emocional. Que tenho deslindado meticulosa e pacientemente. Nesse processo, meu conceito de cura emocional mudou. Entendi que curar minha criança interior, me curar não significa não sentir saudade, carência, ciúme, raiva, medo, dor, ressentimento. Significa lidar com essas emoções quando elas surgirem. Dar espaço para que venham à tona e se dissipem. Não rejeitar e não se fixar.
Caminho do Meio. Sempre. Em tudo.