domingo, 18 de dezembro de 2016

Amem. Amém.


Muito do que escrevo surge de reflexões após conversas. De trocas. Às vezes é algo abordado mais de uma vez, com diferentes pessoas, em diferentes momentos. Como a pansexualidade. Foi indo, indo, indo até surgir a vontade de escrever.
Não foi preciso só vontade pra escrever e me posicionar. Exigiu coragem. Mais importante talvez tenha sido a maturidade. Às vésperas dos 53 anos, I stand on my feet and on my ground.
Minha terapeuta perguntou por que me expor assim. Reconhecimento e aceitação talvez resumam.
A começar por autorreconhecimento e autoaceitação. Saber quem eu sou, como eu sou. Me reconhecer, me aceitar e me apresentar naturalmente. Nada a ostentar. Nada a ocultar.
Depois de ficar à vontade comigo mesma, comecei a me sentir mais e mais à vontade socialmente.
E, em termos sociais, acho importante me posicionar de forma mais ostensiva. Porque pra mim é mais fácil do que pra imensa maioria.

Foi facílimo na família. As pessoas cuja reação me interessava eram Lízia e o pai dela.
Quando contei para minha filha que uma amiga com quem eu andava direto era minha namorada, o impacto foi tipo eu dizer que agora lilás era minha cor favorita e não mais azul. "Ah, tá. Beleza." (Orgulho dessa filha, que se interessa tanto por definições de gênero quanto eu.)
Eduardo nunca perguntou nada. Me conhece bem, não foi novidade. Nunca perguntou sobre minha vida sexual nos 12 anos em que vivemos juntos. Não seria depois de separados. Se eu estou bem, se Lízia está bem, para ele está bem também. A preferência dele é por gremistas. De qualquer gênero.
Minha irmã, as amigas mais próximas e meu amigão Marcus ficaram surpresos quando contei que eu tinha uma namorada. Foi aquele tipo de surpresa que provoca um sorriso. E só. Se eu estava feliz, ótimo.
A única reação que eu temia era a do meu tio. Ele e eu nunca brigamos porque nos respeitamos. Temos opiniões radicalmente diferentes, mas somos muito parecidos e gostamos muito um do outro. Mantemos um pacto diplomático de evitar assuntos polêmicos. Ele evidentemente conheceu uma namorada - e evidentemente se ligou que era namorada. Só conversamos abertamente há pouco tempo, num dos maravilhosos galetos com cervejada em que me sinto em casa e em família. Só nós dois. Eu sendo eu. Ele sendo ele. E agora ele está ciente de que namoradas são uma realidade na vida da sobrinha. E não se fala mais disso.
Pra mim foi fácil no círculo íntimo porque minha filha foi educada por mim, porque o pai dela é um cara maravilhoso e porque tenho um tio e amigos que gostam de mim e me aceitam como eu sou. Se aguentam meus defeitos, por que se incomodariam com algo que não é defeito? Claro que não se incomodaram. Não deram a mínima. Foram como todo mundo deveria ser.

Socialmente, de início eu ficava meio sem graça. Mas tenho a felicidade de ser um tipo que, por mais sem graça e constrangida que esteja, ainda assim fico/sou/pareço mais à vontade, espaçosa e espalhafatosa que a maioria da humanidade. A natural born drag queen. Enfim, fui me acostumando a ter namorada. Tornou-se natural. E fui agindo de modo cada vez mais natural.
Se no início eu tinha consciência dos outros como um fator de intimidação, depois passei a ter uma atitude mais assertiva. Ficam olhando? Eu olho de volta. Nunca ninguém sustenta meu olhar. Que dirá falar alguma coisa. Mas raramente preciso me impor de modo assertivo.
Por ser mais fácil para mim, sinto a necessidade de me posicionar.
Mulher, branca, bonita, classe média, curso superior. Uma privilegiada no Brasil racista, transfóbico, homofóbico, com uma perniciosa e cada vez maior quadrilha política da bíblia e da bala.
Eu não perderia o emprego ou algum trabalho por ter uma namorada (cis ou não). No meu mundo, isso não é relevante. Não frequento ambientes hostis a gays. Me parece que as pessoas às vezes olham apenas por curiosidade. Por não estarem acostumadas a ver casais do mesmo sexo. Esse tipo de olhar não me incomoda mais. Adotei uma abordagem positiva a respeito: é uma "novidade", ok. Com o tempo deixará de ser.

Essas ideias surgiram depois do comentário de uma amiga, de que não poderia namorar alguém como eu, que deixaria claro pra todo mundo que éramos namoradas. Na hora me ocorreu que eu agora não poderia mais namorar alguém que não possa/não queira assumir plenamente seus relacionamentos.